quinta-feira, 2 de abril de 2009

..:: palavras que nos salvam (muitas vezes) ::.. María Zambrano




«Não só de pão vive o homem, isto é, não só de Ciência e Técnica. Também poderia dizer-se que não só de Filosofia, mas tal coisa, ao falar-se das metáforas, não tem sentido, porque a Filosofia mais pura desenvolveu-se no espaço traçado por uma metáfora, a da visão e da luz inteligível.
(...) Por uma metáfora habitualmente entende-se uma forma imprecisa de pensamento. Dentro da poesia tem-se-lhe concedido, especialmente desde Paul Valéry, todo o seu valor. Mas a metáfora desempenhou na cultura uma função mais profunda, e anterior, que está na raiz da metáfora usada na poesia. É a função de definir a realidade inabarcável pela razão, mas propícia a ser captada de outro modo. É também a sobrevivência de algo anterior ao pensamento, pegada num tempo sagrado, e, portanto, uma forma de continuidade com tempos e mentalidades passadas, coisa tão necessária numa cultura racionalista. E a verdade é que, nos seus momentos de maior esplendor, a Razão nada teve que temer perante estas metáforas a que podemos chamar fundamentais.»





«O amor transcende sempre, é o agente de toda a transcendência. Abre o futuro; não o porvir, que é o amanhã que se pressupõe certo, repetição com variações do hoje e réplica do ontem. O futuro essa abertura sem limite, para outra vida que nos aparece como a vida de verdade. O futuro que atrai também a História. Mas o amor lança-nos para o futuro, obrigando-nos a transcender tudo o que concede. A sua promessa indecifrável desacredita tudo o que consegue, toda a realização. O amor é o agente de destruição mais poderoso, porque, ao descobrir a inanidade do seu objecto, deixa livre um vazio, um nada que é aterrador no princípio de ser apercebido. É o abismo em que se some não somente o amado, mas a própria vida, a própria realidade do que ama. É o amor que descobre a realidade e a inanidade das coisas, e que descobre o não ser e até o nada.»


María Zambrano »» A Metáfora do Coração e Outros Escritos »» trad. de José Bento »» Lisboa »» Assírio & Alvim »» 2000





«A pessoa faz-se no tempo, realiza-se no tempo.» » cf. aqui »




María Zambrano
[1904-1991]





7 comentários:

  1. Bela afirmação do amor! A transcendência...

    A_braços E_ternos

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  2. O Amor, com maiúscula, é uma força avassaladora. Pode tudo, mesmo a distância ou a diferença aparentemente mais intransponível.
    É muito bom amar. É muito bom sentir-se e saber-se amado.

    Abraço:)

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  3. Tambem o pensamento sobre as metáforas é muito interessante.

    E o detalhe do pontinho que se move no tempo é genial.Sempre sabe-se que merce a pena passar por aqui.Boas ferias !!

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  4. O Amor transcende porque rasga, fere, rompe. Rompe e rasga-nos, vai para além de nós e da nossa consciência e é, ao mesmo tempo, seu gerador, desperta-nos, abre-nos por dentro (passe o pleonasmo), mostrando-nos nós no Outro...
    E tanto, tanto mais...
    Lindo texto este.
    Beijos mil em vocês. (",)

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  5. ♀♂, estas citações servem várias fomes: a do amor, a da metáfora, a da criatividade, a do tempo... ao fim e ao cabo, da VIDA. ainda bem que gostaram!

    abraços

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