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sexta-feira, 9 de setembro de 2011

sexta-feira, 22 de abril de 2011

a morte

Ricardo Flecha, "Cristo nos braços da morte"
(Medina del Campo, Valladolid)
[visto e lido aqui]





quarta-feira, 12 de janeiro de 2011

capuchinho

Como a imprensa portuguesa noticiaria a história do Capuchinho Vermelho


telejornal - rtp1
“Boa noite. Uma menina chegou a ser devorada por um lobo na noite de ontem... mas a actuação de um caçador evitou a tragédia”


JORNAL DA NOITE - SIC
“Vamos agora dar-lhe conta de uma notícia de última hora. Uma menina foi literalmente engolida por um lobo quando se dirigia para casa da sua avó! Esta é uma história aterradora mas com um final feliz... o Sr. telespectador não vai acreditar mas, esta linda criança foi retirada viva da barriga do lobo! Simplesmente genial!”

JORNAL NACIONAL - TVI
“... onde vamos parar, onde estão as autoridades deste país?! A menina ia sozinha para a casa da avó a pé! Não existe transporte público naquela zona? Onde está a família desta menina? E a Comissão de Protecção de Menores? Tragicamente esta criança foi devorada viva por um lobo. Em épocas de crise, até os lobos, animais em vias de extinção, resolvem aparecer?? Isto é uma lambada na cara da actual governação portuguesa.”


CORREIO DA MANHÃ
“Governo envolvido no escândalo do Lobo”


JORNAL DE NOTÍCIAS
“Como chegar à casa da avozinha sem se deixar enganar pelos lobos no caminho”


Revista MARIA
“Dez maneiras de levar um lobo à loucura na cama”


LUX
“Na cama com o lobo e a avó”


EXPRESSO
Legenda da foto: “Capuchinho, à direita, aperta a mão do seu salvador”. Na reportagem, caixa com um zoólogo explicando os hábitos alimentares dos lobos e um imenso infográfico mostrando como Capuchinho foi devorada e depois salva pelo lenhador.


PÚBLICO
“Lobo que devorou Capuchinho Vermelho seria filiado no PS”


O PRIMEIRO DE JANEIRO
“Sangue e tragédia na casa da avozinha”


CARAS
Ensaio fotográfico com Capuchinho na semana seguinte: Na banheira de hidromassagem, Capuchinho fala à CARAS: "Até ser devorada, eu não dava valor à vida. Hoje sou outra pessoa.”


MAXMEN
Ensaio fotográfico no mês seguinte: “Veja o que só o lobo viu”


SÁBADO

“Gravações revelam que lobo foi assessor político de grande influência”

[recebido por email]

domingo, 9 de janeiro de 2011

que entrem os palhaços

Ontem, por causa dos vídeos com a Shirley Bassey, estávamos no youtube quando apareceu um registo com uma música que o Zé referiu como muito bonita: "Send in the clowns" ("Que entrem os palhaços"):
"Send in the Clowns" (numa tradução livre, Que Entrem os Palhaços) é uma canção de Stephen Sondheim, composta para o musical A Little Night Music de 1973. É uma balada lenta e tristonha, na qual a personagem Desiree reflete sobre as ironias e desapontamentos de sua vida.
Nunca a tinha ouvido e o meu Zé mostrou-me várias versões; e, afinal, tudo o que é cantor já a cantou (ele, inclusive). Como ele frisou, a versão da Shirley Bassey é muito, muito boa (da versão da Barbra Streisand, não gostei tanto). Também gostei muito da Glenn Close; e ponho ainda aqui a ligação para a versão de Renato Russo porque o vídeo tem a letra traduzida. Ora, oiçam. [p.s. obrigado ao Sôfrego que também notou a ausência desta música na selecção das 7 músicas que tinha feito da Shirley]




Shirley Bassey




Glenn Close



Ontem, a primeira pessoa a dizer-nos, estupefacta, que o Carlos Castro tinha sido assassinado foi uma vizinha, a idosa que mora por baixo de nós. Carlos Castro não nos disse muito, nunca nutri grande simpatia, mas morrer assim ultrapassa os nossos limites do compreensível - e, claro, a mutilação tem de ter algum significado.



Ontem, pode não parecer, a música "Send in the clowns" veio ao meu encontro para me comover como a morte macabra foi de encontro a Carlos Castro. Música e assassinato têm tudo a ver. Chamem o CSI.

segunda-feira, 3 de janeiro de 2011

«casos de indisciplina e agressão»

Por causa desta notícia, lembrei-me das seguintes palavras:
«A educação preocupa-me muitíssimo, sobretudo porque é um problema muito evidente, claro e transparente e ninguém faz nada a este respeito. Confundiu-se a instrução com a educação durante muitos anos e agora estamos a pagar as consequências. Instruir é transmitir dados e conhecimentos. Educar é outra coisa, é transmitir valores [...] Há décadas, o que havia era um Ministério da Instrução Pública, não da Educação. A educação era outra coisa. Se para ser educado tivesse que ter sido instruído previamente, eu seria uma das criatura mais ignorantes do mundo. Os meus familiares eram analfabetos, como me iriam instruir? É impossível. Mas sim, educaram-me, sim, transmitiram-me os valores básicos e fundamentais. Vivia numa casa paupérrima e saí dali educado. Milagre? Não, não há nenhum milagre. Aprendi a vida e a lição dos mais velhos quando nem eles mesmos sabiam que me estavam a dar lições.»

José Saramago (“Vivimos en una sociedad que carece de educación”, Canarias 7, Las Palmas de Gran Canaria, 4 de Fevereiro de 2007 in José Saramago nas Suas Palavras)

segunda-feira, 29 de novembro de 2010

por7ugal

Deixem-se impressionar pela poesia dos números: por7ugal

e

admirem o «Portugal a Banhos» da
Joana Vasconcelos:

quarta-feira, 24 de novembro de 2010

terça-feira, 23 de novembro de 2010

cheira a ETAR: os boys da política


A história é exemplar. Exemplarmente, negativa. Soube dela pelo Manuel António Pina e fez-me corar de vergonha por ser possível. Já devia desconfiar: ser político é que está a dar! Vou tentar não me esquecer disso quando tiver de classificar os meus alunos. A notícia está no Público.

terça-feira, 26 de outubro de 2010

língua ousada



«compléxia - é uma bicha disléxia psicanalisada, com um pouco de conteúdo, geralmente de péssima categoria (a bicha e o conteúdo)»


No Brasil, nasceram dois dos melhores dicionários de Português: o Houaiss e o Aurélio. Mas há ainda outro, o Aurélia - A Dicionária da Língua Afiada, que é uma preciosidade com 1300 verbetes da autoria de Victor Ângelo e Fred Libi. Além do livro, é possível consultar on-line alguns dos termos listados.

Aí é possível descobrir expressões que são um verdadeiro e delicioso tratado sobre a criatividade da língua como “checar”, “atender”, “queimar a rosca”, “vaca de presépio”, “betty faria”, ou “bater um bolo”.

Algumas palavras ou expressões são engraçadas só de pronunciar: “zoraide”, “vera boiola”, “nefertite”, “besouro” ou “dadeira” ou “kika” ou “lacraia”, “margarete”, “mucica”, “jeba” e “necão”, “ocâni”, “neide” e “omivará”

Outras há que são autênticos enigmas quanto ao significado: “missa”, “sofá da hebe”, “tapuia”, “tô bege”, “vitaminada”, “zé Mané”... A lista é imensa. Exótica. Vale a pena a visita.





sábado, 2 de outubro de 2010

Regina Casé ϟ direito do viado

Fiquei fã da actriz Regina Casé quando há uns anos fez uma reportagem em Portugal e gozou connosco de uma forma inteligente - ainda não consegui encontrar o vídeo (nada da baixaria que a Maitê fez). Esta sua palestra sobre media e a cultura popular 'não-oficial' é muito interessante (quem se lembraria de tecnobrega? de cyber tecnobrega?), mas se não quiserem ver o vídeo todo, abreviem e vão à conclusão, mais concretamente ao minuto 14:05.
Depois do suicídio de mais um rapaz nos EUA que não aguentou a violência da humilhação (cf. discurso de Ellen DeGeneres), mais as eleições amanhã no Brasil, gosto de ver pessoas defenderem entusiasticamente soluções originais. E depois vejam o segundo vídeo, referido pela Regina Casé - dos vários que há no youtube, escolhi este pela performance e pela plateia siderada na escadaria.


Regina Casé, Central da Perfiferia (TEDxSP 2009)




Gerônimo Santana, Direito do Viado (Direito Cidadão)

sábado, 11 de setembro de 2010

IKEA 100 gatos

Lembram-se destes anúncios Ikea? O meu Zé descobriu no Sol esta preciosidade: um anúncio Ikea com 100 gatos! É lindo, mesmo que não gostem de gatos. Para quem gosta, ver o resultado final tem qualquer coisa de mágico. E o making of também vale bem a pena.





sábado, 4 de setembro de 2010

virar o bico ao prego

Ficou provado. Mas já viram como são todos uns desgraçacidinhos-vítimas-e-tal que não tiveram uma única palavra para as vítimas reais - sem ser para as descredibilizar? Viram como o poder político - sobretudo, o PS - lidou com o processo e com as vítimas? Vêem como se pode virar o bico ao prego e pegar na pele de cordeiro com as maiores das facilidades? Acho o máximo. Para já, uns dias na prisão far-lhes-iam muito bem, para provarem do que fizeram - se é que ainda não lhe aconteceu. Senão, só espero que a consciência e a memória das vítimas os corroa a todos. Espero mesmo. E que as vítimas consigam virar a página e que um dia possa rir disto tudo. Espero mesmo.




Henrique Monteiro, Monstruosidade Jurídica




sexta-feira, 3 de setembro de 2010

"o princípio do fim"?

ouço as condenações. e só espero que sim, que seja o princípio do fim. mesmo imaginando as batalhas todas que se seguirão. uma coisa é certa, o colectivo quis ser exemplar... mas quem, quem devolve a felicidade àquelas crianças?



segunda-feira, 21 de junho de 2010

palavras


Dustin O'Halloran, Opus 23 (animação de Marco Morandi)




GABRIELA CANAVILHAS
DISCURSO NA CERIMÓNIA DE HOMENAGEM - 20-06-2010
(...) Era uma vez um homem, que quando morreu, partiram 2 pessoas: saiu ele, de mão dada com a criança que foi – tal como o próprio José Saramago previu, nas suas próprias palavras.
Era uma vez e tantas outras vezes, o respeito à terra e aos homens, a luta contra as injustiças, a defesa dos direitos humanos, a denúncia contra a guerra do Iraque ou contra a ocupação palestiniana, as causas dos Sem Terra, do movimento anti-globalizante, da preservação do ambiente, ou do anti-clericalismo desassombrado.
Estas e tantas outras, foram as histórias com que o ateu místico, religioso laico, interrogador de Deus e dos homens, José Saramago, “comunista hormonal” nas suas palavras, questionou Portugal e o mundo incessantemente, directa ou metaforicamente.
A liberdade do pensamento define o criador: Saramago foi voz lúcida, inconformada, firme, insubmissa na luta contra a desigualdade entre os homens – esta sim “a verdadeira miséria”, dizia.
(...) Fiel ao seu compromisso com a consciência, usou a escrita para uma reflexão sobre as grandes causas da humanidade, edificando uma obra coerente, ousada, sólida, moldada pela ética, visando, sempre, a dignificação do Homem.
E fê-lo por vezes subvertendo normas - quer de narrativa (o seu estilo é inconfundível, nas suas frases longas e de pontuação singular), quer enfrentando dogmas - não tinha fé em Deus (mas certamente Deus teve fé nele). (...)





JOSÉ LUIS RODRÍGUEZ ZAPATERO
EL PAÍS - 19-06-2010
Tu abuelo, nos contaste, intuyendo el final de su existencia en la Tierra, fue diciendo adiós a los amigos, a su familia, a la naturaleza, porque quería estar lúcido y presente cuando la muerte llegara. Por eso, se abrazaba a los árboles que guardaban las páginas escritas de su vida.
Me llega la triste noticia de tu muerte y te evoco, el verano pasado, en la biblioteca de tu casa de Lanzarote. Vuelves a ser el perfecto anfitrión, el hombre cortés, inteligente, generoso, al que le gusta compartir la amistad. Me honra ser tu invitado. Pilar, tu compañera, tu cómplice, parece señalar en silencio a todos y cada uno de tus personajes en ti: al Ricardo Reis que se compadece de la soledad de los poetas y ayuda a no temer la memoria, a los inventores de artefactos angélicos que quieren enseñar a los seres humanos a volar "aunque les cueste la vida", a aquel alfarero que libra a los esclavos de una nueva caverna porque se niega a aceptar ciertas cegueras que imponen desigualdad y dolor.
Tú, que has sido también todos los nombres, no terminas aquí. 2010 es ya, para siempre, el año de la muerte de José Saramago, pero tus libros forman un maravilloso bosque de dignidad. Y yo me abrazo al árbol para mantener tu memoria.





MARIANO RAJOY
EL PAÍS - 19-06-2010
Con José Saramago desaparece un novelista enérgico, comprometido con la fuerza de la palabra. Sus libros son testimonio de ello. Intensos, arrebatados, desvelan la precisión visionaria de quien escribía desde dentro, invocando una pasión íntima que surgía de la imaginación, pero que no renunciaba a tener los pies en la tierra, palpando sus contradicciones y sus injusticias. Sé que no compartíamos el mismo horizonte político. Él creía en unos ideales que no son los míos, pero eso no impide que aprecie en su obra la convicción compartida de que la dignidad del hombre, más allá de las diferencias, siempre cuenta. Sus personajes mostraban esta forma de pensar. En ellos latía un aliento pesimista que dejaba abierta una puerta a la esperanza, a la espera de que el lector sacara sus propias conclusiones acerca de su conducta: de lo que hacía con su vida y de cómo lo hacía. El año de la muerte de Ricardo Reis, Memorial del convento o Ensayo sobre la ceguera son ejemplos de este proceder literario. Saramago fue uno de los grandes escritores del siglo XX y un gran amigo de España. El reconocimiento internacional que mereció su obra fue, también, un homenaje esperado al portugués: una lengua portentosa, bella y fértil desde sus orígenes; una lengua próxima, íntima, hermana, como el pueblo que la habla y que siente a través de ella.





DUARTE PIO
EXPRESSO - 19-06-2010
Falando em Viseu, na sessão de encerramento do XVI Congresso da Causa Real, sem nunca referir o nome de José Saramago, Duarte Pio, disse ser "simbólico que o país neste momento esteja a homenagear como um grande herói nacional um homem que é contra Portugal, que quis que Portugal deixasse de existir como país, que tem um certo ódio até à nossa raiz e que esse seja considerado o símbolo atual do nosso regime".




MANUEL ANTÓNIO PINA
JN- 21-06-2010
O oficioso "Osservatore romano", que o Vaticano costuma usar para atirar pedras escondendo a mão, achou que a morte de Saramago seria boa altura para o apedrejar, tanto mais que, agora, ele já não pode defender-se. O apedrejador de serviço meteu, por isso, mãos à vaticana obra e, mesmo não percebendo por que motivo terá Deus deixado Saramago viver até à "respeitável idade de 87 anos" e andar por aí a exibir uma "crença obstinada" não nos dogmas da Igreja mas nos do materialismo histórico, condenou-o às chamas do Inferno (infelizmente a Igreja já não tem poder para condenar gente como Saramago à fogueira na Terra). Também Cavaco tem queixas de Saramago mas, no seu caso, só protocolares pois, ao contrário do Vaticano, Cavaco não é rancoroso. Saramago não teve, de facto, o cuidado de acertar a data da morte com a agenda da Presidência, o que impediu o presidente de ir ao funeral. Saramago devia saber que Cavaco "gosta de cumprir promessas" e que prometera "à família que no dia 17 partiria com eles para a ilha de S. Miguel". Ora regras de concordância gramatical podem interromper-se, férias não.

sexta-feira, 7 de maio de 2010

bentinhos ii



Acho que sou alérgico. Se não é do pólen, só pode ser de... Bem, o Bento está a chegar e só espero que, para compor o quadro, também por cá, venha chorar pelas vítimas de pedofilia. Não sei, mas parece que vai ser mesmo lindo! A mim faz-me espécie estas condicionantes todas por causa da visita deste idoso, mas pelo menos terminaram as obras no Terreiro do Paço que ficou, como direi, estranho. E com uns acabamentos muito ultra-modernos a dar para o ah-temos-acabar-isto-já-que-vem-aí-o-bentinho. Enfim, deuses e deusas, dai-nos paciência!



[clicar para ver em tamanho maior]

domingo, 4 de abril de 2010

corrente d'ar

o mítico “amai-vos uns aos outros”
já não é o que era, essa é que é essa



[visto aqui]

[visto em vários sítios por aí]



[visto aqui]




Os tempos que correm estão a fazer ver à cúpula católica que é perigoso atirar pedras quando se tem telhados de vidro. Apesar das revelações todas que têm vindo a público, ainda fico atónico com a reacção da cúpula, com a leviandade ofensiva das comparações. Reacções que nada têm de humildade, muito pouco dignas de quem é ministro de deus e que, ao invés de investirem na protecção das vítimas, investem, sim, num contra-ataque acéfalo e que revela bem o que importa: tudo imagem da instituição; pouco, muito pouco aos seus fiéis. Ou: há que proteger a imagem; que se fodam as pessoas, sobretudo os heréticos que insistem em atacar a sacrossanta madre igreja. Ou: o problema não está em terem-se ocultado as situações de pedofilia; o problema está em estarem a revelar-se as situações desse mesmo abuso. Tanta cegueira revolta um bocadinho, caramba. Além do lunatismo em que persiste, como o pecado do aborto, ou noutras tretas que, essas sim, lhes são realmente importantes. Essa coisa de pedofilia parece mal menor. É por estas e por outras que a sacrossanta madre igreja tem cada vez menos a ver com a minha fé, cada vez me metendo mais asco. Cristo ressuscitou também para isto, com certeza. Mas se deus se manifesta através do Homem, duvido que tire algum prazer em manifestar-se como padre pedófilo. Mas, nos tempos que correm, é só a minha opinião. Esta, sim, é uma opinião exemplar: «A Igreja na Cruz» [Aspirina B].

sexta-feira, 2 de abril de 2010

última ceia

Provavelmente, já não se lembram... ou lembrar-se-ão. Pois bem, guardar recortes dá nisto: encontrei um recorte da revista , de 1996, com a versão original da rábula que esteve para ser censurada e que tanto sururu na altura provocou. Transcrevo o recorte com o texto de Nuno Artur Silva e Nuno Markl.

*****

«A versão original»

«A Última Ceia, antes de qualquer rasura, é esta. A rábula, escrita por Nuno Artur Silva e Nuno Markl, foi para o ar em 28 de Outubro de 1994, na Rádio Comercial.




Olá, bem-vindos a mais uma emissão de O Repórter não Estava Lá, um programa em que recriámos, em exclusivo para si, os acontecimentos que marcaram a História da Humanidade, mas que nem as câmaras nem os microfones puderam captar.

Ouça no episódio de hoje, A Última Ceia. Saiba tudo sobre as últimas horas do jovem da Nazaré que mudou o mundo. O que terá acontecido realmente naquela noite fatídica em que Jota saiu com os amigos pela última vez? De que falaram? O que comeram? Quem pagou a conta? Por que é que uns foram convidados, e outros não? Tudo isto e muito mais em O Repórter não Estava Lá.

Atenção, o que vão ouvir é uma reconstituição feita por estudiosos conceituados, à luz das mais recentes descobertas sobre os acontecimentos que rodearam A Última Ceia. O que vão ouvir é uma simulação. Jerusalém, ano zero, quinta-feira, oito da noite, à porta do restaurante O Prepúcio. Como é que seria se o nosso repórter estivesse lá?

Repórter Olá, boa noite. Estamos aqui à porta do restaurante onde vai decorrer a Última Ceia. Os primeiros convivas já começaram a chegar e o próprio Jota acaba de entrar, acenando para a multidão que o aguardava entusiasticamente. Estou a ver ali judas Iscariotes a aproximar-se. Vou tentar chegar à fala com ele...

Judas, boa noite! Bem-disposto? Não quer comentar os rumores segundo os quais judas estaria envolvido numa conspiração para denunciar Jota aos romanos?

Judas Eu não quero prestar declarações. Depois do jantar darei uma conferência de imprensa.

Repórter Mas, judas...

(bump)

Repórter Humph!... Repórter impedido de prosseguir o seu trabalho. Bem, e parece que vem aí o apóstolo Pedro. Pedro, confirma-se que esa pensar deixar a pesca e dedicar-se em full-time ao apostolado?

, Pedro Não sei, é uma coisa que temos que ver. O apostolado é uma nova profissão, com um mercado para explorar, mas com os seus riscos. Nada nos diz que esta religião veio para ficar. Mas, se a coisa correr mal e a gente tiver que fechar a loja, olhe – o melhor que tenho a fazer é dedicar-me à pesca... outra vez.

Repórter É verdade que o senhor tem o apoio das bases para suceder a jota Cê na direcção do movimento?

Pedro Bom, não sei do que é que a menina está a falar. O Jota é fundamental. Longe de mim pensar numa sucessão, precisamente agora que o movimento está em plena expansão. Ele é que é o nosso líder indiscutível Ele é que é o homem do leme.

Repórter Bem, mas vamos lá dentro agora, ver o que é que se está a passar...

Criado Então o que é que vai ser?

JC Carne de porco à alentejana para todos.

Paulo Ó Jota , mas nós somos judeus. Não podemos...

JC Ah, é verdade... Então podem vir só as amêijoas, para primeiro prato. Depois vem o borrego.

Paulo Eh pá, já viram que somos treze? Isto é mau agoiro. Quem é que falta?

João É o Eusébio.

Paulo É sempre o mesmo - diz que vem, mas nunca aparece. É um corte, é o que é.

JC Que se lixe... Isto a vida são dois dias. E, no meu caso, talvez menos.

Repórter Foram as palavras sábias de Jota . E as amêijoas estão já a chegar.

(barulho de talheres)

Judas Então isto é que é uma dose? Eh pá. Ó Jota , multiplica lá aqui as amêijoas!

JC Estás parvo? Isso não é pão nem peixe... Com amêijoas não sei. Julgas que eu sou o David Copperfield?

Judas Eh , se era para isso, tínhamos mandado vir os carapaus.

JC Ah, só uma coisa antes de começarem a comer - este é o meu corpo, este é o meu sangue.

Judas Eh pá, agora à mesa, não. Eso pessoal a comer...

Repórter O jantar decorre animado. Foram encomendadas doze doses de cabrito e uma omeleta de camao para judas. E, terminado o jantar, vamos ouvir...

JC Bem, bora aí tomar um copo a qualquer lado?

Paulo Então, mas isto não era a Última Ceia?

JC É só mais um copo. Vamos ao Jardim das Oliveiras. Tem uma esplanada bestial com vista para o rio.

Paulo E deixam-nos entrar assim, treze gajos sozinhos, sem miúdas?

JC Não há problema. O porteiro conhece-me.

João Mas espera aí... Não era agora que o judas devia...?

Paulo Eia, pois era!...

(batendo com pratos, todos) Beija, beija, beija...

Repórter E, senhores ouvintes, com esta reconstituição rigorosa deste momento crucial da História da Humanidade, termina o nosso programa O Repórter não Estava Lá, hoje, na Última Ceia.

Deixamo-vos com as canções dos convivas a caminho do Jardim das Oliveiras, quá já um pouco alegres..