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quarta-feira, 17 de junho de 2009

..:: fragmentos de Safo ::..

Pantha du Prince Saturn Strobe



O Essencial de Alceu e Safo,
tradução de Albano Martins, Lisboa: INCM, 1986
Poemas e Fragmentos de Safo, tradução de Eugénio de Andrade, 2ª ed. Porto: Limiar, 1992


fragmento 50 L-P
Quem é belo é belo enquanto se olha,
mas quem é bom será
simultaneamente belo.
Quem é belo é belo de ver, e basta;






fragmento 51 L-P
Não sei o que hei-de fazer:
há em mim duas vontades.
Nem eu sei que fazer: o pensamento dividido.






fragmento 36 L-P
Eu desejo
e procuro
com ardor…
Desejo e ardo.




fragmento 120 L-P
Não sou dos que guardam
sentimentos de rancor. Tenho
uma alma gentil.
Não sou daqueles que ruminam rancor:
meu coração é o de uma criança.




fragmento 95 L-P
Apossa-se de mim um ardente
desejo de morrer e contemplar
as margens do Aqueronte com suas
flores de loto húmidas
de orvalho…

Quero morrer, quero ver as orvalhadas
Flores de loto nas margens do Aqueronte…




fragmento 105 c) L-P
Tal como, nos montes, os pastores
calcam aos pés um jacinto,
a flor purpúrea em terra…
Lembra o jacinto pisado no monte
por pastores, por terra a flor de púrpura…






fragmento 130-131 L-P
De novo o irresistível Eros,
doce-amarga, invencível criatura,
me tortura, ó Átis. E tu,
ressentida comigo,
voas para Andrómeda.
De novo me tortura e quebra os membros,
Eros, doce-amarga indomável serpente.

quinta-feira, 2 de abril de 2009

..:: palavras que nos salvam (muitas vezes) ::.. María Zambrano




«Não só de pão vive o homem, isto é, não só de Ciência e Técnica. Também poderia dizer-se que não só de Filosofia, mas tal coisa, ao falar-se das metáforas, não tem sentido, porque a Filosofia mais pura desenvolveu-se no espaço traçado por uma metáfora, a da visão e da luz inteligível.
(...) Por uma metáfora habitualmente entende-se uma forma imprecisa de pensamento. Dentro da poesia tem-se-lhe concedido, especialmente desde Paul Valéry, todo o seu valor. Mas a metáfora desempenhou na cultura uma função mais profunda, e anterior, que está na raiz da metáfora usada na poesia. É a função de definir a realidade inabarcável pela razão, mas propícia a ser captada de outro modo. É também a sobrevivência de algo anterior ao pensamento, pegada num tempo sagrado, e, portanto, uma forma de continuidade com tempos e mentalidades passadas, coisa tão necessária numa cultura racionalista. E a verdade é que, nos seus momentos de maior esplendor, a Razão nada teve que temer perante estas metáforas a que podemos chamar fundamentais.»





«O amor transcende sempre, é o agente de toda a transcendência. Abre o futuro; não o porvir, que é o amanhã que se pressupõe certo, repetição com variações do hoje e réplica do ontem. O futuro essa abertura sem limite, para outra vida que nos aparece como a vida de verdade. O futuro que atrai também a História. Mas o amor lança-nos para o futuro, obrigando-nos a transcender tudo o que concede. A sua promessa indecifrável desacredita tudo o que consegue, toda a realização. O amor é o agente de destruição mais poderoso, porque, ao descobrir a inanidade do seu objecto, deixa livre um vazio, um nada que é aterrador no princípio de ser apercebido. É o abismo em que se some não somente o amado, mas a própria vida, a própria realidade do que ama. É o amor que descobre a realidade e a inanidade das coisas, e que descobre o não ser e até o nada.»


María Zambrano »» A Metáfora do Coração e Outros Escritos »» trad. de José Bento »» Lisboa »» Assírio & Alvim »» 2000





«A pessoa faz-se no tempo, realiza-se no tempo.» » cf. aqui »




María Zambrano
[1904-1991]





quarta-feira, 11 de fevereiro de 2009

..:: Câmara Escura (revelações) ::..




Quatro poemas de Joaquim Amândio Santos »» Câmara Escura (revelação) »» edição bilingue, tradução de Rámon Gómez, prefácio de António Lobo Xavier »» Sertã »» Negra Tinta »» 2007






VIGÍLIA

na tua ausência
enrosco-me felino
nas malhas da saudade.


de que foges?!
de mim jamais
que me encontro
aconchegado
dentro de ti!

para onde vais?!
que não te ceguem
cânticos melados,
escritos no nevoeiro.

porque te cegas?!
mira em teus olhos
meu ninho.
vê-te nesse límpido espelho.

é aqui que tu estás.

construindo as notas
da minha sinfonia,
enquanto cumpro as horas marcadas
num namoro perfeito
com a nossa cumplicidade.
p. 31 [também pode ser encontrado aqui]






VAMOS POR PARTES

no meu lento enroscar
observo ciumento
como dançam
minhas pernas nas tuas.
dizem
que estão a executar um volteio.
digo-lhes
que sei bem que arrufam
prenhes de paixão.

e é mesmo por aí que quero ir.
como portagem, justificadamente exigível,
exiges que te deposite
a totalidade do meu corpo.
é teu.
no mais singelo dos seus pedaços.

mas hoje
deposito por cá apenas as minhas narinas.
respira por lá.
deixa-te sossegar no meu ópio
enquanto inalas o meu incenso.
e quando tomas posse
nem hesitas
no teu breve olhar pelo meu pescoço.

a tua escolha já está feita
e os teus dentes de sabre morderam-me a vontade.
p. 67 [também pode ser encontrado aqui]






DÁDIVA


o piscar da tua pálpebra esquerda
marcou a partida da lágrima.
o brilho doce nos teus olhos diz-me
que chegarei a tempo de lhe extirpar
a salinidade,
no preciso momento
em que os meus lábios tocarem os teus.

torno-a minha. torno-me teu.
p. 65 [também pode ser encontrado aqui]






SEDA

sempre que aqui não estás
irrompem saudades do futuro.
atrevo-me a ostentar a falta que sinto de mim.

busco-me no único espaço
onde sei que estarei,
esse teus braços perfeitos de aconchego.
aí me quedo, nunca mudo,
jamais deserdado de palavras,
porque herdeiro do sossego nascido
nos meus mais ternos murmúrios.

falo-te languidamente por eles.
para que me deixes ficar permanentemente
inquilino de ti.
p. 63 [também pode ser encontrado aqui]

quarta-feira, 21 de janeiro de 2009

..:: canções entre a alma e o esposo ::..

Canções entre a alma e o esposo
Esposa
1.
Aonde te escondeste,
Amado, e me deixaste num gemido?
Qual veado fugiste
Havendo-me ferido.
Atrás de ti clamei: tinhas partido!

2.
Pastores, se subirdes
Além pelas malhadas ao outeiro
E porventura virdes
Aquele a quem mais quero,
Dizei que sofro, peno e a morte espero!

3.
Buscando os meus amores,
Irei por esses montes e ribeiras;
Não colherei as flores
Nem temerei as feras
E passarei os fortes e as fronteiras!

4.
Ó bosques e espessuras
Plantados pela mão do meu Amado!
O prado de verduras
De flores esmaltado,
Dizei se Ele por vós terá passado!

5.
Mil graças derramando
Passou por estes soutos com pressura
E, assim os indo olhando,
Com sua só figura
Vestidos os deixou de formosura.

6.
Ai quem virá curar-me?
Vem entregar-Te já, pois a Ti espero.
Não queiras enviar-me
Mais nenhum mensageiro
Porque dizer não sabem o que eu quero.

7.
E todos quantos vagam
De Ti me vão mil graças relatando!
E todos mais me chagam
E mais me vai matando
Um não sei quê que ficam balbuciando!

8.
Mas como perseveras,
Ó vida, não vivendo onde vives,
Matando-te deveras
As flechas que recebes
Daquilo que do Amado em ti concebes?

9.
Porquê, tendo chagado
A este coração, o não curaste?
E, pois mo hás roubado,
Porque assim o deixaste
E não guardas o roubo que roubaste?

10.
Apaga o meu desgosto
Pois mais ninguém consegue desfazê-lo.,
E veja-Te o meu rosto
Que és lume a acendê-lo
E apenas para Ti eu quero tê-lo!

11.
Mostra a tua presença,
Matem-me tua vista e formosura.,
Pois olha que a doença
De amor jamais se cura
Senão com a presença e a figura.

12.
Cristalina nascente,
Se nesses teus semblantes prateados
Formasses de repente
Os o lhos desejados
Que tenho nas entranhas desenhados!

13.
Afasta-os, Amado,
Que estou voando.

Esposo
Volta, minha pomba,
Que, ferido, o veado
Lá no outeiro assoma
Ao sopro do teu voo e o fresco toma.

(…) pp. 61-63

São João da Cruz »» Obras Completas »» 6ª edição, tradução e adaptação das introduções de Manuel Fernandes dos Reis, tradução das poesias de Fernando Melro »» Edições Carmelo »» 2005

[cito São João da Cruz com saudades tuas!!!]

quinta-feira, 15 de janeiro de 2009

..:: citações extra-literárias iii ::.. oi!? cheiro a quê?


[vá, cliquem na fotografia]


Paga e repaga


A paga

eu gostaria muito sim talvez
dar uma enorme foda todo o mês
numa mulher que se chamasse Inês
e que tivesse um gato siamês
que não me chateasse cada vez
que nela me pusesse de viés
porque as mulheres pensam que talvez
no foder se paga tudo de uma vez

mas nunca se lembram que ao invés
o pagar nada tem com as fodas que dês
porque ainda ontem dei ai umas dez
e a paga que tive foi um chato burguês

A repaga

não penses tu proleta fodilhão
que lá por seres caralho
tens razão
nem que todas as fodas que me dês
são a fácil desforra
do tesão

porque a cona é que sabe
do vir ou do não vir
e só no seu sorrir
é que o caralho sobe

mas se és mal pago
não vais morrer de fomes
e se me pagas
não pagas o que comes.

(e o chato talvez
não seja mais
que o teu retrato
português) (pp. 306-307)

*****

O São João
(QUADRAS POPULARES)

por estar só e sem dinheiro
na noite santa do alho
eu fui ao cu ao tinteiro
pra compensar o caralho

negra de tinta a esporra
ficou manchado o colchão
e o cheiro era de porra
na noite de São João. (p. 306)


E. M. de Melo e Castro »» "Cara lh amas" (1975), in Trans(a)parências: Poesia I: 1950-1990 »» Tertúlia »» 1990


p.s. descansem que estes serão os últimos poemas que citarei aqui de E.M. de Melo e Castro!

quarta-feira, 14 de janeiro de 2009

..:: citações extra-literárias ii ::.. oi!? só não foste o quê?


[vá, cliquem na fotografia]

Autobiografia fenómeno-F(re)udiana



fui chulo dancei a chula
fui lira dancei o vira
fui drogas comi doutoras
fui tinta mijei tinteiro

só não fui é paneleiro

fui minas chupei meninas
consumi os 3 de vez
entortei cornos que fiz
ganhei e perdi dinheiro

só não fui é paneleiro

fui língua cantei o tango
fui fraco fodi o frango
fui marido fui comido
no mastro do meu veleiro

só não fui é paneleiro

fui punho bati punheta
fui alho chupei alheira
fui corno toquei corneta
fui vivo virei viveiro

só não fui é paneleiro

trinquei as mamas às amas
toquei árias às canárias
virei as telhas às velhas
comi putas sem dinheiro

só não fui é paneleiro

e de tudo o que já fui
a pena me dá no cu
de prazer tão verdadeiro

só não sou é paneleiro. (pp. 304-5)


E. M. de Melo e Castro »» "Cara lh amas" (1975), in Trans(a)parências: Poesia I: 1950-1990 »» Tertúlia »» 1990


o poema aqui citado é a continuação desta entrada

sábado, 27 de dezembro de 2008

..:: citações extra-literárias i ::.. cara lh ama ::..

Por causa do estado aqui do zezinho de baixo, lembrei-me do poema que reproduzo e que é do covilhanense Ernesto Manuel de Melo e Castro (1932), pai da Eugénia Melo e Castro (já agora, a mãe é a Maria Alberta Menéres, conhecem?). O zezinho vai indo. Ainda me lembrei de ilustrar com Witkin ou com outros artistas plásticos, mas ainda estou na aldeia e esqueci-me do cabo de alimentação em Lisboa e o garoto que me tem emprestado o dele, veio cá pedi-lo... Mas hoje já regresso ao meu Zé. Portanto, cá vai ainda sem imagens; e façam uma boa leitura!

*****

Cara lh ama


amam-no todos
uns porque o têm
bem colocado e erecto
outros porque a foda
sem ele não bate certo

e se o nariz não chega
e os dedos se dispersam
só ele é que é capaz
de entrar todo na toda
discreto e bom rapaz

e os tristes que o não têm
amam-no doutra maneira
distantes e macios
não sabem se se vêm
ou se é só caganeira

p. 304


E. M. de Melo e Castro »» "Cara lh amas" (1975), in Trans(a)parências: Poesia I: 1950-1990 »» Tertúlia »» 1990

quarta-feira, 12 de novembro de 2008

..:: palavras que nos salvam ::.. Amy Tan

Há muito tempo li O Clube da Sorte e da Alegria, best-seller de Amy Tan. Lembrava-me de que tinha gostado muito. Voltei a encontrá-lo e a emocionar-me com o regresso ao passado: basicamente, o meu desejo era o de ser encontrado. E fui-o. Facto que me devia deixar em paz. De qualquer modo, todos os dias sinto que sou eu que preciso de me encontrar a mim mesmo.




YING YING ST. CLAIR
A DAMA DA LUA

Durante todos estes anos mantive a boca fechada para não deixar escapar nenhuma vontade egoísta. E porque me calei durante tanto tempo, agora a minha filha não me ouve. Senta-se à beira da sua piscina toda elegante e só tem ouvidos para o walkman da Sony, o telefone sem fio, o marido, enorme e todo emproado, que lhe pergunta por que é que vão fazer o churrasco com carvão e não com combustível líquido.
Durante todos estes anos mantive a minha verdadeira personalidade escondida, fugindo como uma sombra para que ninguém me apanhasse. E porque fui sempre tão discreta, agora a minha filha não me vê. Só vê a lista das coisas que é preciso comprar, a conta no banco que está a ficar sem saldo, o cinzeiro que não está bem centrado em cima da mesa.
Mas eu tenho de lhe dizer isto: estamos perdidas, nós as duas, invisíveis e cegas, sem ouvir e sem que ninguém nos oiça, sem que ninguém nos conheça verdadeiramente.

Não me perdi de repente. Ao longo dos anos, esfreguei a cara para a limpar da minha dor, como as marcas das pedras desaparecem com o vaivém das águas.
No entanto, lembro-me agora de a certa altura da minha vida ter corrido e gritado, de não poder ficar quieta. É a minha recordação mais antiga: quando fui pedir um desejo à Dama da Lua. E porque me esqueci do desejo que pedi, essa recordação permaneceu apagada durante todos estes anos. (p. 66)


Mas agora que já estou velha e, ano após ano, me aproximo cada vez mais do fim da minha vida, sinto-me também cada vez mais perto do princípio. E lembro-me de tudo o que aconteceu naquele dia, porque tudo voltou a acontecer muitas vezes ao longo da minha vida. A mesma inocência, a mesma confiança, a mesma inquietação; o deslumbramento, o medo, a solidão. Foi assim que me perdi.
Lembro-me de todas estas coisas. E esta noite, no décimo quinto dia da oitava lua, consigo lembrar-me também do que foi que pedi à Dama da Lua há tantos anos atrás. O meu desejo era ser encontrada. (p. 82)


Amy Tan »» O Clube da Sorte e da Alegria »» tradução de Ana Maria Chaves, Ana Gabriela Macedo e Maria de Graça Alves Pereira »» Lisboa »» Dom Quixote »» 1993

sábado, 1 de novembro de 2008

..:: palavras que nos salvam ::.. Ana Luísa Amaral

[músicas: 1# Sigur Rós, Samskeyti || 2# Yann Tiersen, Summer 78 - Goodbye Lenin]



UMA BOTÂNICA DA PAZ: VISITAÇÃO


Tenho uma flor
de que não sei o nome

Na varanda,
em perfume comum
de outros aromas:
hibisco, uma roseira,
um pé de lúcia-lima

Mas esses são prodígios
para outra manhã:
é que esta flor
gerou folhas de verde
assombramento,
minúsculas e leves

Não a ameaçam bombas
nem românticos ventos,
nem mísseis, ou tornados,
nem ela sabe, embora esteja perto,
do sal em desavesso
que o mar traz

E o céu azul de Outono
a fingir Verão
é, para ela, bênção,
como a pequena água
que lhe dou

Deve ser isto
uma espécie da paz:

um segredo botânico
da luz (pp. 67-8)




Ana Luísa Amaral »» Entre Dois Rios e Outras Noites »» Porto »» Campo das Letras »» 2007

quarta-feira, 8 de outubro de 2008

..:: palavras que nos inquietam ::.. Bertolt Brecht

Já quase todos ouviram citar Brecht a propósito do rio e das margens. Nas voltas dos livros, reencontrei-o e aqui vai, seguido de um poema perturbador de tão irónico.


DA VIOLÊNCIA

Do rio que tudo arrasta se diz que é violento.
Mas ninguém diz violentas
As margens que o comprimem. (p. 71)













EPÍSTOLA SOBRE O SUICÍDIO

Suicidar-se
É coisa corriqueira.

Pode-se falar nisso à mulher a dias
Discutir com um amigo os prós e os contras.
Há que evitar um
Certo pathos simpático.
Mas não é preciso fazer disto um dogma.
No entanto, parece-me preferível
O pequeno bluff do costume.
Estar farto de mudar de roupa, ou melhor:
A mulher pôr-lhos
(O que faz um certo efeito aos que se impressionam com essas coisas
E não é demasiado bombástico).
De qualquer modo
Não se deve dar a impressão
De que se dava
Muita importância a si mesmo. (p. 53)


Bertolt Brecht »» in Poemas »» tradução, selecção, estudos e notas de Arnaldo Saraiva »» Lisboa »» Presença »» 1973

quarta-feira, 1 de outubro de 2008

..:: humanos ::..

Há textos que por um ou outro motivo nos marcam. Não sou o único a chamar-lhes fundadores, aqui, no entanto, não fundam uma estética, mas a personalidade. Como espaço de partilha que é um blogue, e princípio máximo da minha «missão», continuarei a partilhar aqui mais alguns desses textos. Tal é o caso do de hoje; reencontrei-o nas arrumações do verão e repesco-o: já tem oito anos, saiu numa revista um tanto ou quanto obscura - Plástica (só conheci o primeiro número) e desconheço se foi publicado noutro local. Marcou-me, como antes me marcou a «Lição sobre a Água» de Gedeão, pelo cruzamento entre ciência e metáfora, com uma forte incidência do que é ser-se ser humano, na senda ingente de auto-conhecimento e do lugar que ocupamos no mundo, vincando como não somos apenas corpo, nem apenas espírito. Somos uma unidade viva que equilibra esses pólos que séculos e séculos de racionalismo judaico-cristão fizerem questão em separar, cujos fundamentos radicam directa ou indirectamente na subalternização do mundo sensível e concreto postulados por Platão, valorizando o que a nossa linguagem designou como espírito. A verdade é que, antes de seja o que for, somos corpo, existimos porque as nossas células «trabalham de uníssono» (as questões do corpo ficarão para outra oportunidade).


HUMANOS

– «Porque é que o amas, quando todo o mundo o odeia?»
– «Porque ele me ama mais do que todo o mundo.»

Eduardo II, Derek Jarman, 1992


Quarenta a setenta milhões de biliões de células (das quais 100 milhões são substituídas em cada momento) trabalham de uníssono, mantendo cada uma em cada segundo milhares de reacções químicas. Os seus núcleos organizam e comandam. Herdados dos progenitores, os seus 50.000 genes (em 23 pares de cromossomas) codificam a estrutura e a função de mais de 800 tipos de tecidos, formando os humanos.
Estes seres complexos relacionando-se entre si através de um notável computador, o sistema nervoso, com cerca de 100 biliões de neurónios, pequenas unidades, cada uma relacionada com 20.000 outras, num total de 2 milhões de biliões de ligações que descodificam, processam e memorizam as informações.
Como muitos outros seres, para além, deste sistema nervoso, os humanos têm um sistema digestivo limitado por uma boca e um ânus, através do qual passa em média mais de 1 kg de nutrientes por dia, que são degradados e distribuídos por todas as células do organismo, e um sistema excretor com rins igualmente complexos, como estação de depuração com cerca de 300 m2 para filtrar as impurezas do plasma. Outro importante filtro é o que se encontra nos 550 milhões de alvéolos envoltos em capilares, onde se processam as trocas gasosas entre o sangue e o ar envolvente, entrando o oxigénio tão essencial para a elaboração de energia e síntese das moléculas vitais.
Por fim, cerca de 4,5 metros quadrados de pele envolvem os 450 pares de músculos motores ligados através de uma estrutura óssea que lhe confere a necessária solidez para o movimento.
Estes são os humanos, cerca de 6 biliões bastante mal distribuídos pelo planeta Terra, capazes de se reproduzirem por via sexual, fabricando células com metade do número de cromossomas para que, através da fecundação, se reconstitua um novo lote duplo, num novo ser.
Então, perdida numa floresta hostil, a criança, projecto de futuro humano adulto, sai indefesa para um mundo frio. Vive o calor da relação com a mãe, e mais tarde a sua aproximação ao outro.
Mas, como viver na tensão entre o ilimitado das possibilidades deste ser, confrontando-se a todo o momento com a realidade do que é verdadeiramente alcançável? O humano vive assim a angústia de se sentir enjaulado em si próprio, escravo das suas acções, deprimido para se lembrar a cada instante que continua humano, enraizado no labirinto dos seus significados e tentando a todo o custo ligar-se a objectos ou rituais externos na perspectiva de conquistar a liberdade. Assim encontra o amor, forma de relacionamento para a vida que renasce sem cessar.
Curiosamente os humanos mantêm na sua fase de sexualidade activa, a capacidade da atracção e do desejo sexual em permanência, o que não acontece com outros animais, mesmo mais próximos na árvore da evolução. Mas, a essa capacidade juntou-lhe as novas faculdades do seu neocórtex cerebral: a realização de operações abstractas, de categorização, de utilização de palavra, tornou-se capaz de exprimir as suas emoções e de sentir as dos outros. A sexualidade deixou de ser apenas condicionada por hormonas e pulsões, passando a ser constituída à medida dos prazeres e sofrimentos vividos desde a infância.
O humano deprime-se, envolve-se em dependências, mas consegue suplantar o seu destino pelos dados computarizados do seu imaginário, tornando-se senhor dos seus desejos, e aproximando-se, dando-se verdadeiramente aos outros pelas representações que elabora no fascínio magnético de todos os seres amados, na descoberta pessoal da verdade contaminante do outro.

[sublinhados meus]


António Pais Lacerda »» "Humanos (The humans)", Plástica »» direcção de Paulo Valente Pereira »» Lisboa »» Plesmedia »» n.º 1, Dez. – Jan., 1999-2000.

quarta-feira, 24 de setembro de 2008

..:: palavras que nos salvam ::.. António Gedeão

Mais do que a «Lágrima de Preta», a «Pedra Filosofal», a «Calçada de Carriche» ou o «Poema da Malta das Naus», é a «Lição sobre a Água» que me ficou no ouvido. Claro que todos os que enumerei, assim como muitos outros poemas de Gedeão, foram importantes, cada um pelos seus motivos. Para quem pense que a água é só para peixinhos, o poema que hoje aqui trago é de tirar o fôlego (o quadro de Millais também).

[imagem vista aqui]





Lição sobre a água

Este líquido é água.
Quando pura
é inodora, insípida e incolor.
Reduzida a vapor,
sob tensão e a alta temperatura,
move os êmbolos das máquinas que, por isso,
se denominam máquinas de vapor.

É um bom dissolvente.
Embora com excepções mas de um modo geral,
dissolve tudo bem, ácidos, bases e sais.
Congela a zero graus centesimais
e ferve a 100, quando à pressão normal.

Foi neste líquido que numa noite cálida de verão,
sob um luar gomoso e branco de camélia,
apareceu a boiar o cadáver de Ofélia
com um nenúfar na mão. (p. 202)



António Gedeão »» Obra Completa »» notas introdutórias de Natália Nunes »» Lisboa »» Relógio D'Água »» 2004



© John Everett Millais, Ophelia, 1851-52 (detalhe; original)

quinta-feira, 11 de setembro de 2008

..:: Gilgamesh ::..

As coisas que uma pessoa descobre. Sabias, com certeza, de onde vem a pomba com o ramo de oliveira como símbolo da paz? Ora bem, tarde, mas descobri que a história do dilúvio não é exclusivamente bíblica, pois vem já relatada na epopeia de Gilgamesh, pela voz de Utnapishtim (com paralelo bíblico em Noé).
“Gilgamesh é a história de um rei sumério da cidade-estado de Uruk que teria vivido no século XXVIII a.C.. Seu registo mais completo provém de uma tábua de argila escrita em língua Acádia do século VII a.C. pertencente ao rei Assurbanipal, tendo sido no entanto encontradas tábuas com excertos que datam do século XX a.C., sendo assim o mais antigo texto literário conhecido” (cf. wikipédia). Leste bem? Século XX a.C.!
Também não é vão que Pitta lhe chama “epítome do amor viril” (in Fractura: A Condição Homossexual na Literatura Portuguesa Contemporânea. Coimbra: Angelus Novus. 2003, p. 8). Com efeito, a epopeia relata como Gilgamesh se aproximou de Enkidu, ser criado pelos deuses a partir do barro. Palavras de Luís Alves da Costa no prefácio: «Esta é uma antiga história de amor. A de um Rei de Uruk a quem os deuses quiseram perder, um Rei dominado pelos sentidos e pela violência dos prazeres. E da prece dos homens à divina Aruru, A-Da-Criação, que dele os livrasse, irá nascer Enkidu, o igual de Gilgamesh, e à sua imagem, «semelhante a ele como o seu próprio reflexo», Enkidu para que o combatesse.
Mas esta é uma antiga história de amor. Nela seria excessivo que Gilgamesh combatesse e se não apaixonasse pelo seu duplo, o bravio Enkidu; pelo que, quando os helenos veneraram o Mito de Narciso, já esta história de milénios se ria havia há muito às gargalhadas, mostrando que o coração dos homens é uma força civilizadora muito mais forte que a vontade dos deuses.»




© Angelo Bozac, Gilgamesh


Obviamente que recomendo a leitura, mais não seja como forma de regressar ao mundo mágico, onde humanos e deuses convivem no seio de uma mitologia exótica mas muito interessante. Além disso, destaca-se a relação de Gilgamesh com Enkidu e a procura da imortalidade. Não é uma história gay (não te esqueças: os registos mais antigos são do século XX antes de Cristo, 'tá!), mas está lá o essencial. Ficam aqui algumas passagens (o livro é pequenino e lê-se num ápice - na altura e em escrita cuneiforme não havia tempo para grandes delongas ☻):


«Quando os deuses criaram Gilgamesh, deram-lhe um corpo perfeito. Shamash, o glorioso Sol, dotou-o de beleza; Adad, o deus da tempestade, dotou-o de coragem; os grandes deuses fizeram perfeita a sua beleza, que ultrapassava todas as outras e que aterrava como um grande touro selvagem. Dois terços o fizeram deus e um terço, humano» (p. 11).

«Mergulhou a deusa as suas mãos na água, entre os dedos apertou argila e deixou-a cair no deserto: e o nobre Enkidu foi criado. Havia nele a virtude do deus da guerra, do próprio Ninurta. O seu corpo era rude e tinha longos cabelos como uma mulher, ondulados como os cabelos de Nisaba, a deusa do trigo. O seu corpo era coberto de pêlo emaranhado como o de Samuqan, o deus do gado» (p. 14).

«Durante todo o dia ele esteve deitado no seu leito, e o seu sofrimento aumentou. Disse a Gilgamesh, o amigo por causa do qual abandonara o deserto:
«Em tempos corri para ti, para a água da vida, e agora não tenho nada» (pp. 47-48).

«Tocou no seu coração mas ele não batia, nem voltou a erguer os olhos. Quando Gilgamesh tocou no seu coração ele não batia. Por isso Gilgamesh estendeu um véu, como um véu de noiva, sobre o seu amigo. Começou a enfurecer-se como um leão, como uma leoa a quem roubaram as crias. De um lado para o outro andava à volta do leito, arrancou o seu cabelo e espalhou-o em redor. Tirou as suas vestes esplêndidas e atirou-as ao chão como se fossem abominações.
À primeira luz da madrugada Gilgamesh exclamou:
«Eu fiz-te descansar num leito real, reclinaste-te num divã à minha esquerda, os príncipes da terra beijaram os teus pés. Farei com que todo o povo de Uruk chore por ti e entoe o canto dos mortos. O alegre povo curvar-se-á de tristeza, e quando te fores para a terra deixarei o meu cabelo crescer por amor de ti, irei vaguear pelo deserto coberto com a pele de um leão» (p. 50).

«Por Enkidu; eu amava-o ternamente, juntos suportámos toda a espécie de provações; por sua causa vim, porque a sorte comum dos homens o tomou. Por ele chorei de dia e de noite, não queria abandonar o seu corpo para ser enterrado, pensei que o meu amigo voltaria graças ao meu pranto. Desde que se foi, a minha vida nada é (...)» (pp. 54-55).

«Como posso eu ficar silencioso, como posso descansar, quando Enkidu, que eu amei, se tomou pó, e também eu morrerei e me deitarei na terra? (…)» (p. 58).



Texto em inglês »»



Gravura e alto relevo do Palácio de Sargon II da capital Assíria Khorsabad (séc. VIII a.C.) (cf. esta outra representação no Louvre) | Pintura de © Luís Alves da Costa



Mais ilustrações das façanhas de Gilgamesh e Enkidu »»



Gilgamesh »» versão de Pedro Tamen do texto inglês de N. K. Sandars »» prefácio de Luís Alves da Costa »» 3.a edição »» Lisboa »» Vega »» 2005

quarta-feira, 3 de setembro de 2008

..:: o homeᴟ português ::..


Hoje devia ser para falar de um livro, mas não me apetece. Vai daí lembrei-me, a propósito da sequência de entradas do Algbiboy (1, 2, 3) e de uma outra do Special K, do texto que cito abaixo e que encontrei num dos manuais de português. Na altura, foi escolhido por um aluno para ser lido à turma e defendido (ou contrariado). Posso dizer que o rapaz esteve muito bem e acabámos todos a rirmo-nos deste retrato caricaturado mas tão próximo do real. Acima de tudo, Deus nos livre dos fatos de treino verdes e roxos e dos passeios pelo centro comercial! Já tem uns anitos, mas divirtam-se.





© Fernando Botero, Familia




O Homem Português


Chama-se Manel, é funcionário público e casado com uma Maria Qualquercoisa ou Qualquercoisa Maria. Tem um belo bigode preto, mede geralmente entre 1.60m e 1.70m e pesa mais de 80 kg, 50% dos quais acumulados na barriga, portanto é incapaz de usar o cinto na cintura e calçar sapatos com atacadores (a menos que a Maria concorde em apertá-los todas as manhãs).
Pratica desporto aos fins-de-semana, graças à Bola e ao Record, para além das transmissões da SportTV. E não importa que a Maria e os filhos (a Cátia Vanessa e o Bruno Vanderley) estejam mortinhos por vestir os fatos de treino verdes e roxos para irem passear para o Centro Comercial. Enquanto estiver a dar os oitavos de final da 3ª liga da Checoslováquia ninguém vai a lado nenhum, “vão mas é à cozinha buscar-me uma bejeca, isto é que é vida!”(desaperta as calças e põe os pés em cima da mesinha de café coberta com um naperon).
Todos os dias, assim que chega da repartição encontra as camisas engomadas e o jantarzinho na mesa. Aos domingos almoça em casa da sogra, que “nunca devia sair da cozinha, só lá é que presta para alguma coisa”, e janta naquela tasca onde servem uns pezinhos de coentrada e um pudim Flan que não há em mais lado nenhum.
O roteiro cultural do homem português está limitado às exposições itinerantes que de vez em quando passam pelo OlivaisShopping e são de borla. Vai às vezes ao cinema, ao domingo à tarde. “O Estalóne pá... Aquilo é que é um artista!
Detém um considerável grau de informação acerca dos temas da actualidade, mas apenas detém. Não a processa, não a interpreta nem a sabe comentar muito além de “aquele Saddam pá, monhé do caraças, nunca mais lhe arrebentam c'a fronha.
Quem ele mais admira no nosso país é o grande Vale e Azevedo, “qual vigarista qual quê, cambada de invejosos!” e a Soraia Chaves (o melhor será não reproduzir aqui os comentários típicos a seu respeito). A nível pessoal, o seu grande orgulho é nunca ter precisado de Viagra, “a minha Maria que o diga, não sou cá homem para essas coisas”.
Comprou recentemente uma roulotte que está no parque de campismo da Costa da Caparica, cabem lá 5 pessoas e o depósito dá para 5 banhos, portanto durante uma semana chega para todos. “Este ano é que vão ser umas belas férias! Umas belas sardinhadas e um passeiozito até Espanha. Dizem que Badajoz é muito bonito...


Patrícia Esteves Nunes »» Público »» 14-09-1999

quarta-feira, 27 de agosto de 2008

..:: canções e outros poemas ::..

Confesso: nunca li as Canções de fio a pavio. Aliás, confesso ainda que nunca me tinha debruçado muito sobre o fenómeno António Botto. A verdade é que, com esta edição das suas obras completas, sob a chancela da Quasi, fiquei tentado a lê-lo melhor e mais (tinha cá em casa uma edição das Canções da Presença a que nunca regressei muito e da qual só me lembrava de alguns poemas isolados).
Eduardo Pitta dirige a colecção em nove volumes e chamou a este primeiro Canções e Outros Poemas, reajustou o título ao teor do volume, escolha que está muito bem explicada na nota editorial e na introdução (amei o título “Uma cegueira inconsciente”!), o que nem sempre acontece quando se editam os mortos (mesmo pelos académicos).
Além da introdução, o livro inclui uma cronologia, na qual é sobejamente explicitada a importância que Pessoa teve na recepção e defesa da obra de Botto. Nestas duas intervenções (introdução e cronologia), Eduardo Pitta faz uma excelente digressão crítica (inclui um Ricardo Araújo Pereira pré-comediante) que me deixou surpreendido, inclusive pelo modo como Eugénio de Andrade pôde ter sido tão mauzinho com o autor das Canções e manifestar uma tão curta memória (Botto incentivou a publicação do primeiro livro do ainda José Fontinhas). Afinal, Botto manifestou uma ousadia que Abel Botelho não teve (cf. p. 35); esbarrei, novamente, com a obliteração da homotextualidade por parte da intelligentzia (cf. 27). Surpreendi-me também com a crise de fé que Botto teve nos anos 50 (produziu efeitos em Fátima, o segundo volume da colecção e que ainda não adquiri) e com a morte e o posterior esquecimento fundamentado nas reticências de ordem moral.
Mais uma vez, Eduardo Pitta apresenta um excelente trabalho e dá um retrato muito útil e elucidativo da vida, mas, sobretudo, da recepção que a obra de Botto teve, da importância que lhe foi negada em grande parte por tematizar justamente a homossexualidade. Neste momento, parece-me ser impossível continuar a ignorá-lo como um autor essencial na história da nossa homotextualidade, mas sabemos bem como a academia funciona (não me esqueço das palavras d'A Professora quando referiu que há apenas alguns anos era impensável trabalhar um autor vivo e determinados temas!). Mais: desconheço reacções significativas à saída do livro (nem a Com'Out o sugere).
Ainda bem que foi Eduardo Pitta o escolhido e aceitou o desafio para editar Botto e, como é seu apanágio, ter posto o dedo na ferida, chamando os bois pelos nomes! Numa época que continua a viver muito de aparências, salamaleques e gente enrustida, acho, pois, que todos devemos muito ao Eduardo por isso:
«Sem elidir o género, Botto fez, como ninguém em Portugal antes dele, o desembaraçado relato do amor que não diz o seu nome: «Quem é que abraça o meu corpo / Na penumbra do meu leito? […] – És tu, senhor dos meus olhos, / E sempre no meu sentido.» Um tal virtuosismo rítmico isenta a confessionalidade dos versos de qualquer tipo de proselitismo. Vinham longe os tempos dos gender studies, mas Botto antecipava de forma estridente a evidência da experiência…» (p. 35)


*****



1

Não. Beijemo-nos, apenas,
Nesta agonia da tarde.

Guarda –
Para outro momento,
Teu viril corpo trigueiro.

O meu desejo não arde
E a convivência contigo
Modificou-me – sou outro…

A névoa da noite cai.

Já mal distingo a cor fulva
Dosa teus cabelos. – És lindo!

A morte,
Devia ser
Uma vaga fantasia!

Dá-me o teu braço: – não ponhas
Esse desmaio na voz.

Sim, beijemo-nos apenas!,
– Que mais precisamos nós?
(«Adolescente», p. 45)


*****


1

O mais importante na vida
É ser-se criador – criar beleza.

Para isso,
É necessário pressenti-la
Aonde os nossos olhos não a virem.

Eu creio que sonhar o impossível
É como que ouvir uma voz de alguma coisa
Que pede existência e que nos chama de longe.

Sim, o mais importante na vida
É ser-se criador.

E para o impossível
Só devemos caminhar de olhos fechados
Como a fé e como o amor.
(«Curiosidades Estéticas», p. 73)



António Botto »» Canções e Outros Poemas »» edição, cronologia e introdução de Eduardo Pitta »» revisão de Luís Manuel Gaspar »» Vila Nova de Famalicão »» Quasi »» Maio de 2008


© Nazif Topçuoğlu, Cain and Abel (da série Recent Readers), 2003

quinta-feira, 21 de agosto de 2008

..:: o padre Amaro para crianças ::..

Será já no sábado, com o Sol, que sairá uma adaptação d'O Crime do Padre Amaro para os mais novos feita por Eduardo Pitta.


«Mas sucedia que, quando eles entravam em pontas de pés e mordendo a respiração, os seus passos, por mais subtis, faziam ranger os velhos degraus da escada. E então a voz da Totó saía da alcova, uma voz rouca e áspera, berrando:
- Passa fora, cão! passa fora, cão!
Amaro tinha um desejo furioso de estrangular a paralítica. Amélia tremia, toda branca.
E a criatura uivava de dentro:
- Lá vão os cães! lá vão os cães!
Eles refugiavam-se no quarto, aferrolhando-se por dentro. Mas aquela voz de um desolamento lúgubre, que lhes parecia vir dos infernos, chegava-lhes ainda, perseguia-os:
- Estão a pegar-se os cães! Estão a pegar-se os cães!
Amélia caía sobre o catre, quase desmaiada de terror. Jurava não voltar àquela casa maldita...»
Eça de Queirós »» O Crime do Padre Amaro

quarta-feira, 20 de agosto de 2008

..:: ᴙɘⱴΐᵴⱦɐṩ com’out ::..



Eis que chegou. Fina e segura. Não sabia nada dela até me terem perguntado se sabia alguma coisa da publicação. Da Sara, recebi um lacónico email a informar que tinha saído e pensei ainda bem para ela. Já percebi: se não for a divulgação boca a boca, passar-me-ia completamente ao lado. Falta, pois, divulgação e aposta no marketing. Também espero que o site se possa desenvolver.
Afinal, a Com’Out tem bom ar, limpinha, de primeiro mundo, grafismo relativamente apelativo, e, sobretudo, vem colmatar uma enorme lacuna no mercado de periódicos em português. Quanto ao preço, não me parece nada de mais ou sou eu que estou habituado a comprar revistas caras. Pois que tem pernas para andar e só esperamos que se aguente por muitos anos. Boa caminhada!

terça-feira, 12 de agosto de 2008

automático | dia 7 ..:: palavras ::.. André Murraças7


Se gostei? Não sei muito bem.






CENA 10 – Leopold & Loeb

(Entra um dos rapazes – Ele I.)

Ele I – Nathan e Richard achavam que os seus corpos eram
magníficos. Passavam horas ao espelho a glorificar-se.
Nathan gostava muito do corpo de Richard.
Richard adorava o corpo de Nathan.
Nathan gostava muito das mãos de Richard. Então Richard cortou
uma das suas mãos e deu-a a Nathan.
Richard gostava muito dos braços de Nathan. Então Nathan
cortou com uma faca um dos seus braços e deu-o a Richard.
Richard aproveitou e cortou o outro braço de Nathan e ficou
também com ele.
Nathan gostava muito dos pés de Richard. Então Richard cortou
os dois pés e deu-os a Nathan.
Richard gostava muito dos mamilos de Nathan. Nathan gostava
muito dos mamilos de Richard. Como Nathan não podia cortar
nada porque não tinha mãos nem braços, foi Richard quem
arrancou os mamilos de Nathan e os trocou pelos seus.
Nathan gostava muito dos olhos de Richard. Então Richard
espetou a faca num dos seus olhos, arrancando-o. Depois arrancou
o outro e deu-os a Nathan. Richard obrigou Nathan a comer os
seus olhos. Se gostas tanto deles bem os podes comer, disse.
Richard gostava do pénis de Nathan. Por isso esquartejou-o
completamente até ficar irreconhecível. Richard gostava da pele de
Nathan. Então Nathan deixou-o espetar a faca por todo o seu
peito liso e cobri-lo completamente de sangue. Richard gostava do
corpo de Nathan mesmo depois de morto. Richard pediu que os
seus restos mortais, bem como todas as partes do seu corpo e as de
Nathan, fossem enterrados num jardim. Pouco depois deste
pedido, Richard cortou a sua goela de uma ponta à outra.


André Murraças »» O Espelho do Narciso Gordo »» Lisboa »» 101 Noites »» 2003 »» p. 60