segunda-feira, 26 de novembro de 2007

~~ importa-se de corrigir, s.f.f. ~~

Há coisas que nos deixam em estado de choque. Esta é uma delas. O meu menino está a corrigir testes e temos dado umas gargalhadas boas. Perante esta, ficou tão chocado que não teve coragem de dizer nada. Pudera! Resta dizer que este aluno tem 16 ou 17 anos e que o exercício foi retirado de um manual do 8º ano. Leiam, se conseguirem, e enviem-nos sugestões de correcção. Cá por mim, fico-me pelo traço vermelho (bem grosso) e um ponto de interrogação.

PS. Srª Ministra, vê no que dão os seus devaneios?

..:: Cesariny, um ano depois ::..

Há precisamente um ano. Não gostei nada da notícia, embora não fosse propriamente uma novidade inesperada.
Na primeira aula que dei depois da sua partida, fiz um pouco de teatro: não cumprimentei os alunos como habitualmente e não segui os procedimentos comuns. Eles perceberam que havia algo. Escrevi o poema no quadro em caligrafia gigante:

Queria de ti um país de bondade e ternura,
Queria de ti um mar de uma rosa de espuma.


Por baixo:
Mário Cesariny
9 de Agosto de 1923
26 de Novembro de 2006

Lembravam-se de terem visto nas notícias, mas nunca tinham lido nada. Pus então a música com a voz desdentada do poeta (chegou a altura de accionarem o play do leitor aqui em baixo, sim isto hoje não é automático!):


Depois, ainda li mais uns dois ou três poemas e passei-lhes os livros que tenho dele com alguns poemas estrategicamente assinalados (incluindo o famoso que alude às preferências de Álvaro de Campos).

Tentei perceber o que sabiam dele: achavam que tinha sido largamente reconhecido. Desfiz-lhes essa ideia, falei de algumas vicissitudes e da falta de reconhecimento, inclusive (e sobretudo) devido à sua orientação sexual que nunca mascarou. Houve um murmurinho que foi muito breve.
Tinham sido comovidos e eu tinha, portanto, ganho o dia.

..:: palavras que nos salvam muitas vezes ::.. Mário Cesariny

De profundis amamus


Ontem às onze
fumaste
um cigarro
encontrei-te
sentado
ficámos para perder
todos os teus eléctricos
os meus
estavam perdidos
por natureza própria

Andámos
dez quilómetros
a pé
ninguém nos viu passar
excepto
claro
os porteiros
é da natureza das coisas
ser-se visto
pelos porteiros

Olha
como só tu sabes olhar
a rua os costumes
O Público
o vinco das tuas calças
está cheio de frio
é há quatro mil pessoas interessadas
nisso

Não faz mal abracem-me
os teus olhos
de extremo a extremo azuis
vai ser assim durante muito tempo
decorrerão muitos séculos antes de nós
mas não te importes
muito
nós só temos a ver
com o presente
perfeito
corsários de olhos de gato intransponível
maravilhados maravilhosos únicos
nem pretérito nem futuro tem
o estranho verbo nosso


Mário Cesariny »» Pena Capital »» 3ª edição »» Assírio & Alvim »» 2004 »» pp. 19-20

..:: palavras que nos salvam muitas vezes ::.. Mário Cesariny

poema

Em todas as ruas te encontro
em todas as ruas te perco
conheço tão bem o teu corpo
sonhei tanto a tua figura
que é de olhos fechados que eu ando
a limitar a tua altura
e bebo a água e sorvo o ar
que te atravessou a cintura
tanto tão perto tão real
que o meu corpo se transfigura
e toca o seu próprio elemento
num corpo que já não é seu
num rio que desapareceu
onde um braço teu me procura
Em todas as ruas te encontro
em todas as ruas te perco


Mário Cesariny »» Pena Capital »» 3ª edição »» Assírio & Alvim »» 2004 »» p. 30

domingo, 25 de novembro de 2007

..:: artista da semana ::.. MÁRIO CESARINY

Mário Cesariny de Vasconcelos
[Lisboa, 9 de Agosto, 1923 † Lisboa, 26 de Novembro, 2006]


Registo sonoro da última entrevista ao Sol »»
DGLB »»
Wikipédia »»
Blog dedicado ao artista »»


Frontispício de O Virgem Negra (1989)


© Mário Cesariny, Figuras de sopro, 1947


© Mário Cesariny, O Operário, 1947


© Mário Cesariny, Naniôra - uma e duas, 1960


© Mário Cesariny, Sem título, 1951


© Mário Cesariny, Sem título, 1996


© Mário Cesariny, Serigrafia, 1997


© Mário Cesariny


© Mário Cesariny


© Mário Cesariny


© Mário Cesariny


© Mário Cesariny (imagem do filme-documentário Autografia de Miguel Gonçalves Mendes)


© Mário Cesariny

..:: how open minded are you? ::..

You Are 84% Open Minded

You are so open minded that your brain may have fallen out!
Well, not really. But you may be confused on where you stand.
You don't have a judgemental bone in your body, and you're very accepting.
You enjoy the best of every life philosophy, even if you sometimes contradict yourself.

sábado, 24 de novembro de 2007

..:: história devida ::..

Hoje, a HISTÓRIA DEVIDA comemorou dois anos no café do Tivoli. Foi bom termos lá ido ouvir o Nuno Artur Silva, a Inês Fonseca Santos, o Miguel Guilherme, o Rui Morrison e o Diogo Dória. Falaram da experiência e leram algumas histórias. Até deu para comover. Há ainda o blogue para ir acompanhando o programa. Sei que a Denise já teve a experiência de ter lida e publicada uma história sua. Eu ainda vou pensar no assunto. Pensem vocês também!

Já agora, ouçam "Sangue, suor e lágrimas" de Patrícia Grade, lida por Miguel Guilherme.

"Porque toda a gente tem uma história para contar..."

..:: Pascoaes e a fisionomia das palavras ::..

A propósito do acordo ortográfico, lembrei-me que há quase um século, Pascoaes publicou um texto n'A Águia absolutamente genial porque combina a sua perspectiva saudosista e poética. Parece-me um excelente critério seguir a biologia ou a estética das palavras por tão objectivo e científico que é. Atenção: eu gosto muito de Pascoaes, mas este texto é tão, mas tão datado que só me faz rir. Vejam estes excertos que escolhi do tal artigo chamado "A fisionomia das palavras"*

(…)
É realmente necessário estabelecer-se uma Ortografia definida, que faça a harmonia neste caos ortográfico em que se encontra a nossa língua.
Alguns escritores, que têm tratado deste assunto, obedecem a um critério puramente etimológico, quando é certo que a ascendência da maior parte das palavras, é tão vaga e nublosa como a ascendência da maior parte dos homens; outros, obcecados por uma ideia simplista, querem que se escreva exactamente como se lê; outros ainda, seguem este critério, embora dum modo menos radical.
Sigamos nós outro critério, dentro da concepção moderna da Natureza e da Vida: - Um critério biológico e estético.
Partamos do princípio, hoje indiscutível, de que as Línguas são organismos vivos, porque observamos nelas os fenómenos que caracterizam o que vive; assim, as palavras nascem, transformam-se, envelhecem e morrem.
(…)
b) Não simplificar a forma gráfica das palavras que encerrem um sentido profundo, abstracto e misterioso.
Vejamos, por exemplo, a palavra Peccado: escrevendo-se com um c como apenas, o sentido íntimo desta palavra, altera-se imediatamente, e quebra-se a relação de harmonia entre o seu corpo e a sua alma, o que é uma ofensa aos princípios da Biologia da Estética.
Olhemos a palavra escrita das duas maneiras – Peccado e Pecado: logo ressalta aos olhos o enigma penal que os dois cc revelam e que esta palavra, na verdade, contém, querendo traduzir o acto que ofende as misteriosas leis divinas. Nos dois cc existe, por assim dizer, a própria criminalidade da palavra.
Deve escrever-se, pelos mesmos motivos, afflicto e não aflito, bocca e não boca, espectro e não espetro, occulto e não oculto, etc., etc.
Todavia, palavras há que têm um sentido misterioso e se escrevem como se pronunciam, o que não quer dizer que a sua forma gráfica contradiga o seu espírito. Nestas palavras, a verdadeira harmonia existe entre o seu sentido e a sua expressão sónica. Por exemplo, nevoeiro; o sebastianismo da palavra está na surdez das suas primeiras sílabas e no prolongamento mais alto e nubloso da terminação.
Na palavra luar, a ideia que traduz, casa-se perfeitamente com a primeira sílaba muda e a segunda sílaba aberta; aquela é feita de sombra, esta é feita de luz; reunidas dão realmente a luz difusa, o luar
(...)

Quanto ao emprego do y, atendendo sempre às regras expostas, deve desaparecer de quase todas as palavras portuguesas, e introduzir-se novamente na palavra lagryma e derivados. Na palavra mistério, por exemplo, a subsituição do y pela i latino aumenta a sua beleza gráfica e em nada altera o seu sentido, pelas razões apresentadas quando nos referimos a luar, saudade e nevoeiro.
Na palavra lagryma, não se dá o mesmo; a forma do y é lacrymal; estabelece, por conseguinte, a harmonia entre a sua expressão gráfica ou plástica e a sua expressão psicológica; substituir-lhe o y pelo i é ofender as regras da Estética.
Na palavra abysmo, é a forma do y que lhe dá profundidade, escuridão, mistério... Escrevê-la com i latino é fechar a boca do abismo, é transformá-lo numa superfície banal.
Vejamos agora o emprego do h na palavra homem, por exemplo. Tirem-lhe o h, como tantos Herodes das palavras inocentes têm feito, e fica uma palavra horrivelmente mutilada! Faz-me lembrar um homem sem nariz, sem orelhas, ou sem pernas!
Além disso, o h dá graficamente o enigma humano. Arrancá-lo a esta palavra, é um atentado contra a Vida e a Beleza!
E assim no verbo haver, o h traduz o enigma da Existência, e nas palavras hontem, hora, hoje, o enigma do Tempo…
Mas o h deve desaparecer nas palavras como a palavra erva, cujo sentido é simples e concreto.
(...)
Por isso é preferível deixá-lo ir caindo, pela própria acção do tempo, nesta e naquela palavra, como aconteceu às palavras um, é, etc., salvo quando não seja 1etra inicial.
Quanto ao ph, th, deve observar-se o mesmo. .
A palavra Phantasma, por exemplo, escrita com F perde todo o seu aspecto espectral e misterioso; Theologia escrita só com T, perde o seu sinal de transcendência divina.
Mas já não acontece o mesmo nas palavras Teatro, Fotografia, etc., etc.; aquelas são complexas e profundas, estas são simples e claras.
(…)

Teixeira de Pascoaes »» A Saudade e o Saudosismo »» compilação, introdução, fixação de texto e notas de Pinharanda Gomes »» Assírio & Alvim »» 1988 »» pp. 15-18.

* In
A Águia ano 1, I.ª série, n.º 5 (1 Fevereiro 1911), pp. 7-8.

..:: afirmações surreais ::..

The TalesMaker tinha-nos desafiado há que séculos para respondermos a um desafio que envolvia 5 afirmações surreais.
Com o tempo a passar e a ausência dele para grandes delongas, eis que finalmente, respondo, embora (e para não variar) com uma variação: escolhi frases que encontrei por aí, nas paredes, nas paragens do bus, nas portas de WCs:

1) Fazer a guerra para conseguir a paz é como foder para conseguir a virgindade (numa casa de banho da FLUL).

2) Mais vale fazer um aborto que nascer-se aborto (numa parede).

3) Se os portugueses fossem luz, preferia viver no escuro (numa paragem de bus).

4) Se o esperma fosse luz, o cu dos portugueses era uma discoteca (também numa paragem de bus e que já tinha posto aqui).

5) As crianças são naturalmente boas e ingénuas (só esta é criação minha).


Pronto, não sei se serão surreais, mas acho que têm piada (até as 3 e 4, claramente xenófobas, mas é preciso ter alguma auto-ironia).

..:: eskimo : 2.º concurso de histórias em formato t-zero ::..



No blogue Uma imensa minoria, o eskimo está a promover um concurso (o 2º) de "histórias em formato t-zero [que] decorrerá entre 1 e 30 de Novembro de 2007 e ficará subordinado ao tema 'primeira vez'". O regulamento está aqui. Vá, puxem pela criatividade.

..:: venha mais uma ::..

No hospital, diz o médico:
- O senhor é o dador de sangue?
- Não, eu sou o da dor de cabeça!

*****

Uma mulher entra numa loja de roupa e pergunta:
- Vendem camisas de noite?
- Não, de noite estamos fechados...

*****

Vai um velhote na auto-estrada quando a mulher lhe liga.
- Sim?
- Olha, querido, tem cuidado! Deu agora nas notícias que na auto-estrada vai um carro em sentido contrário!
- Um? Eles são às dezenas!

*****
Dois miúdos estão a conversar:
- O que é que o teu pai faz?
- É advogado.
- Sério?
- Não, um dos normais.

*****

Vai um casal a passar por um poço dos desejos.
O homem atira uma moeda lá para baixo e pede um desejo.
A mulher atira uma moeda lá para baixo, mas debruça-se demais, perde o equilíbrio e cai.
Diz o homem:
- Ena, e não é que resulta mesmo?

*****

O avião contacta a torre:
- Torre, aqui Cessna 1325, piloto estudante, estou sem combustível.
Na torre, todos os mecanismos de emergência são accionados, todas as pessoas ficam atentas e já ninguém tem sequer uma chávena de café na mão.
O suor corre em algumas faces e o controlador responde ao piloto:
- Roger, Cessna 1325. Reduza velocidade para planar. Tem contacto visual com a pista?
- Er... quer dizer... eu estou na pista... estou à espera que me venham atestar o depósito...

sexta-feira, 23 de novembro de 2007

..:: corrente d'ar ::..

Uma grande amiga, também professora, mandou-me este email e parece-me adequado, visto que o final do 1º período está quase e as avaliações dos professores também. Deixo-o aqui como o recebi e está a apetecer-me aplicar isto com muito rigor e seriedade.


Nas avaliações do 1º período, vou seguir o exemplo da Ministra...

Seguindo o exemplo da desgovernada que se diz ministra da educação, vou estabelecer quotas nas notas já do primeiro período. Assim: 5% para o Excelente e 10% para o Satisfaz Bastante. Se no resto da turma tiver mais alunos com avaliações destes níveis, paciência, ficam com Satisfaz.
Assim promovo o mérito dos alunos. Se os pais se sentirem revoltados que se queixem à ministra. Se é bom estabelecer cotas para os professores, deve ser excelente para os alunos. Atenção que também tenho uma filha na escola.
Espero que os professores dela adoptem a mesma medida. Direitos iguais para todos.


in Público online
João Paulo Silva

..:: delírio puro ::..

Profissão: Puta
Profissão dos familiares: Professores
Frase a reter: "Na política, já estão os meus filhos!"

..:: parabéns ::.. Lina



Gostava de estar contigo hoje para te conhecer as cores, mas acho que as adivinho mesmo a milhas de distância. Basicamente, nada de novo: longe, sozinha, resmungona, mal paga, em trabalho quase de missão. Invejo a tua força, mas só isso. De resto, como sempre te disse, não carregas o sofrimento do mundo, não és a única perturbada com o destino (e sabes do que falo). A família complicada, cheia de figuras com existências tão complicadas… tens de viver a tua vida e não a deles, linda, sob pena de nunca te achares.
Esperava que a experiência de Luanda te fizesse mais resistente, forte, imune, todavia, ao fim de 4 anos, acho que ficaste mais ácida e dorida. Sei como a falta de estabilidade emocional e profissional te desestabiliza; já sabes, também, que gostava de ter a panaceia para aliviar todas as tuas dores. Acredito que o teu príncipe encantado há-de chegar. Sim, não era eu: nos remotos anos da faculdade, tive que to frisar antes que me saltasses em cima ☺. Lembras-te? Lembras-te das tuas dúvidas e de como tive de te dizer que no meu campo de interesses não havia espaço para gajas e que nutria por ti uma admiração, amizade e compreensão sinceras? Ficámos amigos à custa disso, trocámos correspondência, dedicaste-me poemas, partilhámos casa e, às vezes, a cama nos dias de frio. Acabei por sair para partilhar ainda mais a minha vida com o Zé, o que te provocou um terramoto que ainda não terminou e só se extinguirá quando o coração parar de procurar. Mas pudeste conhecer a Lúcia, por exemplo e tiveste outros ganhos.
Desejo tanto a tua felicidade quanto sei que desejas a minha e do Zé, minha irmã, que é isso que somos (mesmo com o terramoto que se instalou entre nós). A relação não se extinguirá. Jamais! Digo isto para que não tenhas dúvidas, ok! A casa continua aberta para te receber com o mesmo entusiasmo. E já sabes que eu consigo ser duro com a lamechice, portanto, cuidado, mas acho que com o Zé até já consigo ser mais paciente para os outros, tu incluída. Quantas vezes não fui cáustico contigo? Espero que me desculpes, mais uma vez, e não te esqueças que continuo a achar o máximo o teu vocabulário peculiar com acento transmontano, povoado de asneiras que eram (ainda são) uma delícia, mas que me fizeram corar muitas vezes. Já só me lembro de reco, zorra, cochino, o que é pena, mas é assim a minha memória oca.
Pronto, que tenhas um excelente dia, mesmo no fim do mundo! Aqui o monstro barbudo e seu gajo mandam-te milhões de beijos e abraços, pequenina gorda!


P.S. 1: Todas as minhas palavras foram subscritas pelo Zé!

P.S. 2: Era evitável, eu sei, mas a música que hoje aqui toca é para ti; o poema dedicado à mãe com a voz do próprio Herberto Helder, teu co-aniversariante, também.

..:: palavras que nos salvam muitas vezes ::.. Herberto Helder

Para a Lina

Fonte
II

No sorriso louco das mães batem as leves
gotas de chuva. Nas amadas
caras loucas batem e batem
os dedos amarelos das candeias.
Que balouçam. Que são puras.
Gotas e candeias puras. E as mães
aproximam-se soprando os dedos frios.
Seu corpo move-se pelo meio dos ossos filiais, pelos tendões
e órgãos mergulhados,
e as calmas mães intrínsecas sentam-se
nas cabeças filiais.
Sentam-se, e estão ali num silêncio demorado e apressado,
vendo tudo,
e queimando as imagens, alimentando as imagens,
enquanto o amor é cada vez mais forte.
E bate-lhes nas caras, o amor leve.
O amor feroz.
E as mães são cada vez mais belas.
Pensam os filhos que elas levitam.
Flores violentas batem nas suas pálpebras.
Elas respiram ao alto e em baixo. São
silenciosas.
E a sua cara está no meio das gotas particulares
da chuva,
em volta das candeias. No contínuo
escorrer dos filhos.
As mães são as mais altas coisas
que os filhos criam, porque se colocam
na combustão dos filhos, porque
os filhos estão como invasores dentes-de-leão
no terreno das mães.
E as mães são poços de petróleo nas palavras dos filhos,
e atiram-se, através deles, como jactos
para fora da terra.
E os filhos mergulham em escafandros no interior
de muitas águas,
e trazem as mães como polvos embrulhados nas mãos
e na agudeza de toda a sua vida.
E o filho senta-se com a sua mãe à cabeceira da mesa,
e através dele a mãe mexe aqui e ali,
nas chávenas e nos garfos.
E através da mãe o filho pensa
que nenhuma morte é possível e as águas
estão ligadas entre si
por meio da mão dele que toca a cara louca
da mãe que toca a mão pressentida do filho.
E por dentro do amor, até somente ser possível
amar tudo,
e ser possível tudo ser reencontrado por dentro do amor.


Herberto Helder [23 de Novembro de 1930] »» Ou o Poema Contínuo (Assírio & Alvim) »» pp. 47-48

quinta-feira, 22 de novembro de 2007

~~pais? ~~

Já não há pais como antigamente. Esta pérola foi-nos enviada por um "cyberamigo". Não me parece necessário comentar. Todavia, veio-me à memória o adágio popular que diz "lavar a cabeça a porcos é perder o tempo e o sabão".
Conselho a esta mãe extremosa: "Minha querida, por que não pensou nessa coisa do tempo antes de fazer a criança?"

No mesmo "saco", pode enfiar-se aquela que ontem, no Jornal da Noite da SIC, se mostrava orgulhosa por a filha se ter atirado à Professora que aplicou um estalo à filha depois de esta a ter agredido. Para cúmulo, a angélica criatura afirmou peremptoriamente à jornalista não estar arrependida. Com mãezinhas assim...

..:: struggle for pleasure ::..

O belga Wim Mertens é um dos meus preferidos de sempre. Foi com ele que o descobri, entre muitas outras coisas positivas que não consigo nem posso negar (e, pronto, afinal nem tudo foi medonho). Na verdade, antes de saber o que era, já gostava de música minimal: Michael Nyman, Philip Glass, Ryuichi Sakamoto, Rodrigo Leão, Moby, Sigur Rós, Corvos e muitos outros de que não me recordo agora. É tudo gente que devem conhecer a rodos, mas mesmo assim vou pondo aqui a rodar. A seguir será Rodrigo Leão.

..:: felicidade ::..

Continuo a falar do alto do meu egoísmo.
Nos últimos dias, tenho dado comigo a pensar nisso que é a felicidade, em como a definir. Esta inquietação vem, em parte, na sequência dos sonhos que eu e outros temos relatado. Não é uma novidade apanhar-me a pensar nisso, mas hoje veio novamente e em força. Para mim, a felicidade sempre passou pela realização profissional, emocional, pela gestão do habitual pouco dinheiro, pelas relações com os outros. Afinal, acho que sim: sempre tenho conseguido trabalho aqui e ali, mas a instabilidade e o ordenado irrisório desmotivam-me: sempre tive o problema de gerir dinheiro e isso preocupa-me muito. Demasiado.
Depois, penso na vida e na sensação de insatisfação permanente, estúpida e quase absurda. Porquê? Nunca me percebi neste ponto: mesmo nos momentos mais felizes, consigo imaginar o pior. Apesar do pessimismo que me caracteriza, acho que consigo arranjar alguma confiança e optimismo e tento disfarçar com a máscara do sorriso viçoso, como me disse ontem uma colega.
Depois, ainda, penso no Zé, no que vamos construindo juntos e tão bem. Nem tudo é perfeito, mas a felicidade e completude que ele me dá ultrapassa o que antes não esperava poder encontrar. Conjugamo-nos bem, já o tinha dito anteriormente, e isso deixa-me radiante, afinal após este tempo todo, continuo a desejá-lo, a ter saudades, a sentir a falta dos beijos quando está fora, dos abraços apertados, da partilha do dia e da noite, da cama, das brincadeiras tão surpreendemente infantis e inusitadas, das coisas em comum e das em desalinho.
Também já o tinha escrito (como me repito!): não me imagino sem ele. Tem sido uma construção diária e nem sempre foi assim. Por alto, acho que nos chateámos duas vezes (uma nos primórdios e outra já aqui em casa por causa de comida). Nada que não se resolvesse. Arrufos? Alguns, mas nem merecem menção de tão ridículos que foram. Eu sou ridículo e pronto. Tento ser melhor, às vezes esqueço-me.
Constato, por fim, que ninguém antes me percebeu tão bem e nunca ninguém me desarmou e desarma como o Zé, tão rápida e eficazmente, o que faz com que me renda de imediato.


P.S. Repararam no silêncio por estas bandas? Espero que sim, o motivo é nobre (ou nem por isso), deixa-me sem tempo para existências virtuais, e não me deixa comentar nada nem responder a ninguém (que novidade, nestes dias… mas espero redimir-me amanhã e no fim-de-semana, ok!). Tal como o Brama e o Graduated Fool, escrevo isto submerso em testes, uns que pus a marinar quase duas semanas por falta de ânimo. Que miséria: acho que não consigo fazer enunciados mais fáceis e mesmo assim os resultados são uma merda total e pegada, onde pouco, pouquíssimo se salva. Aquelas cabecinhas não-pensadoras entraram em combustão espontânea. Amanhã, ouvirão das boas.

..:: estes dias ::..

A isto que sinto não se chama nem preguiça nem letargia, mas acédia virtual (também gosto de adinamia).