quarta-feira, 6 de janeiro de 2010

contagem decrescente : corações esfomeados




The Hungry Hearts. Conheci-as aqui e são maravilhosas. Adoro o cliché, o kitsch destas sete norueguesas (Tonje Gjevjon, Line Halvorsen, Ingeborg Kolle, Edith Roth Gjevjon, Amina Bech, Henriette Høyskel, Mona K.). E vestem quase sempre a mesma roupa (ou não têm dinheiro para outra ou é estilo ou não as despem sequer para tomarem banho). Façam o favor a vós mesm@s de as ouvir. Além do vídeo, elas estão no seu sítio e no myspace. »In Your Face« é qualquer coisa de extraordinário, mas a música que me interessa é »All The Things«.
Afinal, todas as coisas que se fazem por amor...

E não é o amor que mais interessa?

Para muita da arraia-miúda católica da sacristia nacional parece que não.
Pergunto então:
Que prazer se pode tirar de desejar uma sociedade com menos equidade?
Que prazer se pode tirar de querer rejuvenescer e prolongar a segregação tão ao gosto do Velho Testamento (por alguma razão se lhe chamou 'Velho')?
Que prazer se pode tirar de lutar pelo preconceito e propalar tão possantemente o ódio?
Que prazer se pode tirar de desejar e de querer e de lutar pela infelicidade dos outros?
Hipótese única: desejar que os outros sejam tão infelizes quanto ela (uma certa arraia-miúda, alguma com aspirações a pseudo-bem-pensante) é.






The Hungry Hearts, All The Things



Já agora, para quem ainda não o fez, quem quiser distrair-se um pouco mais tem de ouvir o Fórum TSF que o blogue ser gay divulgou, mas antes tome qualquer coisa potente para prevenir a acidez estomacal, já que a homofobia grassa até ao vómito nas opiniões da maioria dos intervenientes da primeira parte do programa.


terça-feira, 5 de janeiro de 2010

contagem decrescente : no homo









{visto aqui}





no homo fez-me lembrar em tudo os plataformistas. Mas não, por muito que esperneiem, sorriam e vomitem os seus preconceitos disfarçados de anelos de cidadania, esses não passarão!


sexta-feira, 1 de janeiro de 2010

POESIA | para começar bem o ano

Conheci a Viviane Mosé nem sei como. Sei que, em parte por culpa da Clarice Lispector, facilmente me apaixono por mulheres brasileiras. E não é só o requebro doce da língua. Foi o que aconteceu com a Viviane, por causa de um poema que se me colou à pele e que faço questão de obrigar os meus alunos a lerem e digerirem (falo da «Receita para lavar palavra suja» que já tinha posto aqui). O poema que para hoje escolho ficou guardado, a marinar durante muito tempo, mas hoje vem à tona para que também vocês se apaixonem pela Viviane e não deixem simplesmente que o tempo passe por vós e vos coma! Ah, como também eu gostava de remoçar... mas o tempo tem-me comido cá com uma pinta e logo por trás.
Pronto, tenham um bom ano!





Vida/tempo



quem tem olhos pra ver o tempo soprando sulcos na pele soprando sulcos na pele soprando sulcos?
o tempo andou riscando meu rosto
com uma navalha fina

sem raiva nem rancor
o tempo riscou meu rosto
com calma

(eu parei de lutar contra o tempo
ando exercendo instantes
acho que ganhei presença)

acho que a vida anda passando a mão em mim.
a vida anda passando a mão em mim.
acho que a vida anda passando.
a vida anda passando.
acho que a vida anda.
a vida anda em mim.
acho que há vida em mim.
a vida em mim anda passando.
acho que a vida anda passando a mão em mim

e por falar em sexo quem anda me comendo
é o tempo
na verdade faz tempo mas eu escondia
porque ele me pegava à força e por trás

um dia resolvi encará-lo de frente e disse: tempo
se você tem que me comer
que seja com o meu consentimento
e me olhando nos olhos

acho que ganhei o tempo
de lá pra cá ele tem sido bom comigo
dizem que ando até remoçando

Viviane Mosé



Um mix com o poema visto aqui
Outra versão que encontrei no youtube »»
Mais textos da grande capixaba Viviane Mosé »»

quinta-feira, 31 de dezembro de 2009

Boas Festas

Com a perspectiva de 2010 vir a ser um ano memorável (embora esteja como S. Tomé: "Ver para crer"), prevêem-se boas festas (de casório) pelo país todo...



... e boas saídas e boas entradas e excelente 2010 é o que eu e o Paulo vos desejamos



visto aqui

quarta-feira, 23 de dezembro de 2009

(mensagem sem título)




Aproveitando a época e tal: boas festas para tod@s vós! Sim, festejem-se muito! {imagem com mensagem um}*{imagem com mensagem dois}*{imagem com mensagem três}*{imagem sem mensagem quatro} E deliciem-se com esta animação mais recente com o gato do Simão:





[também nós nos veremos por aí em 2010, somewhere over the rainbow ]



domingo, 22 de novembro de 2009

entendes?


{visto inicialmente aqui}


Entender tem em espanhol o significado que alinhar tem em português. Pelo que percebo, a música original é de Tontxu.

quarta-feira, 18 de novembro de 2009

post scriptum...

... sobre promessas que não se cumprem

prometo que um dia responderei às vossas perguntas e comentários!
mas para já: obrigado pelo reforço positivo e cada caso é um caso e eu - infelizmente - não sou nenhum herói. pronto, um dia - pra aí quando tiver tempo -, até explicarei porque comecei a fumar, sim!

terça-feira, 17 de novembro de 2009

sem fumo


{visto aqui}



Hoje é o dia do não fumador e quero partilhar isto: há 73 dias que não toco em tabaco. No meio, ficaram alguns dias, quando começaram as aulas, em que fumei 1 ou 2 cigarros. O mais engraçado é que nessa altura o meu corpo rejeitou o tabaco: soube-me mal, muito mal. E parei de fumar sem qualquer outra ajuda exterior; claro, tive o apoio do Zé, que tanto me chateou. Ele fica contente. E eu também. Pena continuar ansioso, ainda que cada vez menos. Também diminuí o número de cafés; ou seja, continuo acelerado, mas muito mais calmo. Depois de algumas tentativas para reduzir ou parar de fumar, espero que este seja mesmo o fim de um ciclo que durou cerca de 10 anos. Para quem fuma e pensar deixar-se disso, saiba que é possível... »»











segunda-feira, 16 de novembro de 2009

99 balões vermelhos




post scriptum: hoje há debate sobre o referendo a casamento entre homossexuais no Prós e Contras da RTP1. Se for tão bom quanto o de 16 de Fevereiro, estamos bem. Mas »casamento polémico«?... casamento polémico, o tanas! Em todo o caso, uma pausa para ver, sim!

sábado, 14 de novembro de 2009

escape me


Tiësto ft. C.C. Sheffield, Escape Me



post scriptum: desenganem-se, o felizes juntos não se tornou num blogue musical.
em consonância com a música, simplesmente, não há tempo nem disponibilidade para palavras. basicamente: não me apetece escrever. não me apetece falar de mim. ou de nós. falo(amos) pelas músicas, pode ser?

sexta-feira, 13 de novembro de 2009

boig per tu *

Sau, Boig per tu. Quina Nit [1996]




Ouvi esta música aqui, há algum tempo atrás. E acabou por se me agarrar à pele.

* Em catalão, claro: louco por ti {queriam uma tradução da letra?}.

quarta-feira, 11 de novembro de 2009

terça-feira, 10 de novembro de 2009

feel it in my bones


Tiësto ft. Tegan & Sara, Feel It In My Bones


Blow by blow, I didn't see it coming
blow by blow, sucker punch
rushes in, here to stay
rushes in, you are here to stay
what rushes into my heart and my skull
I can't control, think about it
feel it in my bones
what rushes into my heart and my skull
I can't control

Chorus:
I feel you in my bones
you're knocking at my windows
you're slow to lettin me go
and I know this feeling oh, so
this feeling in my bones

Left hook, I didn't see it comin
left hook, you've got dead aim
rushes out, run away
rushes out, you always run away
what rushes into my heart and my skull
I can't control, think about it
feel it in my bones
what rushes into my heart and my skull
I can't control

Chorus

I feel you in my bones
you're knockin at my windows
you're slow to letting me go
and I know this feeling oh, so
this feeling in my bones

I feel it in my bones
and then my skull feels pressure
I feel it in my bones
I feel it in my skull

Chorus

I take a breath, take a breath
with me blow by blow anekatips.com
take a break, take a break from you
you are here to stay
I take my heart out of my chest
I just don't need it anymore
take my hand up again
I just don't need it anymore
(repeat)

Chorus





E não, as meninas não são só boas gémeas idênticas!
Mais fotos »»
E o site oficial da Tegan and Sara »»

outro beijo



Este beijo é nacional, no cimo do Parque Eduardo VII. Nem menos queer nem com menos confraternização que o de Praga que ontem aqui pus.
Mas porque haviam de ter vandalizado a saia à moça? Moda nacional, pois.


Ver mapa maior

segunda-feira, 9 de novembro de 2009

a coroa vermelha da Sbratření derreteu!



Nesta fotografia, apanhámos um beijo um tanto ou quanto, como direi, queer.
Na verdade, esta 'confraternização' [Sbratření] teve nada de pacífico e muito pouco de libertador. Enfim, a História. Ah, a foto foi tirada em Agosto aqui ▼ (no mapa, corresponde à sombra na relva, espero que consigam perceber a qual sombra me refiro) ▼



Ver mapa maior

protege-me

Uma curta belíssima e muito positiva sobre as diferenças (culturais) e a descoberta do prazer. Vi-a no Queer. Vale bem a pena. Apesar de ser uma curta, os vídeos que encontrei do filme só têm excertos.






Protect Me from What I Want
United Kingdom, 2008, 14 Minute Running Time
DIRECTOR: Dominic Leclerc



terça-feira, 3 de novembro de 2009

la puerta del cielo




Allà dins es canal
En es peu da sa muntanya,
Pareix que es senten picarols
Suau si es mou sa manada.

Dins es canta des riquets,
I es mussol crida sa calma,
I aquella olor que em pareix
De sa palla humilada

Dins es canta des riquets,
I es mussol crida sa calma,
I aquella olor que em pareix
De sa palla humilada

Allà dins es canal
En es peu da sa muntanya,
Pareix que es senten picarols
De sa palla,
De sa palla humilada

Allà dins es canal
En es peu da sa muntanya,
Pareix que es senten picarols
Suau si es mou sa manada.

Allà dins es canal
En es peu da sa muntanya,
Pareix que es senten picarols
Suau si es mou sa manada.

Dins es canta des riquets,
I es mussol crida sa calma,
I aquella olor que em pareix
De sa palla,
De sa palla humilada


[catalão]
[obrigado ao Zorbas por a ter divulgado!]

segunda-feira, 2 de novembro de 2009

em memória dos nossos

As pedras perseguem-nos
e, com elas, melancolias e mitos.

Vestígios de um tempo inscrito
nas vozes solitárias.

Eduardo Pitta »» Poesia Escolhida (Círculo de Leitores) »» p. 95
{ler mais aqui}







Jan Garbarek & The Hilliard Ensemble, Parce mihi domine
(de Christobal de Morales 1500-53) Officium [1994]

quarta-feira, 28 de outubro de 2009

apaixonei-me

Aviso: não fiquem em choque! Gostos não se discutem. E adoro a música, a fotografia, os movimentos em câmara lenta, as intertextualidades, o enredo, o surrealismo, a metamorfose. Apaixonei-me por este Frankenfashion (sob comissão da Dazed & Confused). Compreendo que até fiquem com os olhos arregalados, mas não cortem os pulsos, 'tá! Escrito e dirigido por Alex Turvey.

segunda-feira, 26 de outubro de 2009

bye bye


Vês, nós não te dizíamos que ias?
Já foste!
Afinal, saber esperar é uma virtude.
Vai lá para dentro e não te incomodes...
Imagem retirada da net.

sexta-feira, 23 de outubro de 2009

terça-feira, 20 de outubro de 2009

esse manual de boas práticas

Leiam bem, não de viés, estes dois excertos:



excerto UM - conselhos diversos para a sobrevivência e salvação num qualquer dia-a-dia saudável

«O SENHOR falou a Moisés nestes termos: «Dirás aos filhos de Israel:

(...)
Todo aquele que amaldiçoar o seu pai ou a sua mãe será punido com a morte. Amaldiçoou o seu pai ou a sua mãe, o seu sangue cairá sobre ele.
Se um homem cometer adultério com a mulher do seu próximo, o homem adúltero e a mulher adúltera serão punidos com a morte.
Se um homem se deitar com a mulher do seu pai, descobriu assim a nudez do seu pai; serão ambos punidos com a morte; o seu sangue cairá sobre eles.
Se um homem se deitar com a sua nora, serão ambos punidos com a morte; cometeram uma depravação; o seu sangue cairá sobre eles.
Se um homem coabitar sexualmente com um varão, cometeram ambos um acto abominável; serão os dois punidos com a morte; o seu sangue cairá sobre eles.
Aquele que desposar uma mulher e a mãe dela, comete uma devassidão; serão queimados, ele e elas, para que não haja desonestidades entre vós.
Se um homem se juntar com um animal, ele será punido com a morte, e matareis o animal.
Se uma mulher se aproximar de um animal para se juntar com ele, matá-la-ás, assim como ao animal; serão condenados à morte; o seu sangue cairá sobre eles.
Se um homem desposar a sua irmã, filha do seu pai ou filha da sua mãe, e se vir a sua nudez, ou ela vir a nudez dele, isso é vergonhoso e serão exterminados na presença dos seus concidadãos; como ele descobriu a nudez da sua irmã, suportará o peso da sua culpa.
Se um homem coabitar com uma mulher durante o período menstrual, ao descobrir a sua nudez, descobre o seu fluxo e ela mesma descobre a fonte do seu sangue. Serão ambos eliminados do meio do povo.
Não descobrirás a nudez da irmã da tua mãe, nem da do teu pai, porque é descobrir a nudez da carne dele; suportarão o peso da sua iniquidade.
Aquele que coabitar com a sua tia, descobriu a nudez do tio; suportarão o seu pecado e morrerão sem filhos.
Se um homem tomar a mulher do irmão, isso é uma impureza; porque descobriu a nudez do seu irmão, morrerão sem filhos.
Guardareis os meus decretos e todos os meus preceitos e cumpri-los-eis, a fim de que a terra para onde vos levo para nela habitardes vos não rejeite.
Não seguireis os costumes dos povos que vou expulsar diante de vós; porque fizeram todas estas coisas. Eu abominei-os.
Eu disse-vos: Possuireis esta terra, dar-vos-ei a sua posse; é uma terra onde corre o leite e o mel.
Eu sou o SENHOR, vosso Deus, que vos separei de entre os povos.
Distinguireis os animais puros dos impuros e as aves impuras das puras; não vos contaminareis com os animais, as aves e os diversos répteis da terra, que vos ensinei a distinguir, declarando-os impuros.
Sede santos para mim, porque Eu, o SENHOR, sou santo e separei-vos dos povos para serdes o meu povo.
O homem ou a mulher que se entregar à evocação dos espíritos ou adivinhações, será condenado à morte; serão apedrejados. O seu sangue cairá sobre eles.’»
Bíblia Sagrada, Levítico, 20, 9-27




excerto DOIS - uma narrativa exemplar para ler às criancinhas sobre como se processa a boa convivência entre seres humanos adultos

«Enquanto res­tauraram as forças, eis que os ho­mens da cidade, homens perversos, cercaram a casa, bateram com vio­lência e disseram ao velho, dono da casa: «Manda cá para fora o homem que entrou para a tua casa, a fim de o conhecermos.» O dono da casa saiu a ter com eles e disse-lhes: «Não, meus irmãos! Eu vo-lo peço, por fa­vor; não pratiqueis semelhante mal! Agora que este homem entrou em minha casa, não pratiqueis tal de­sonra! Eis a mi­nha filha que está virgem e a concubina dele; vou fazê-las sair; abusai delas; fazei-lhes o que vos agradar! A este homem, po­rém, não lhe fa­çais uma infâmia desta natureza!» Os ho­mens, porém, não quiseram ouvi-lo; então o homem, o levita, tomou a sua mulher e levou-lha lá para fora; eles conheceram-na e sa­tisfizeram com ela a sua luxúria durante toda a noite, até ao ama­nhecer; deixa­ram-na livre só de manhãzinha. Ao raiar da aurora a mulher caiu por terra à porta da casa do homem onde estava o seu marido, até vir o dia.
O seu marido levantou-se de ma­nhã cedo; abriu as portas de casa e saiu para seguir o seu caminho. Eis que a mulher, sua concubina, jazia prostrada à porta de casa de mãos estendidas sobre a soleira. Disse-lhe então: «Levanta-te e vamos!» Mas ela não respondeu! O homem colo­cou-a então sobre a sua montada; e par­tiu em direcção a sua casa. Tendo chegado lá, pe­gou num cutelo e, agar­rando na sua con­cubina, esquarte­jou-a membro a mem­­bro em doze pe­daços, enviando-os depois a todas as tribos de Is­rael
Bíblia Sagrada, Juízes, 19, 22-29




Mas o que é que se passa? As pessoas já não têm direito à opinião? E se o Antigo Testamento é um tão bom pedaço de literatura, por que se há-de considerá-lo o oposto - um manual de boas práticas? Oh, valha-nos deus!


post scriptum: para quem não sabe ou já se esqueceu: na bela e exemplar narrativa do 2º excerto, conhecer é mesmo empregue no sentido bíblico, isto é, com o sentido de comer, possuir... basicamente, significa foder. Alguma dúvida?

segunda-feira, 19 de outubro de 2009

luz


[Tiësto, Surrounded by Light]



O facto de diariamente atravessar o Tejo conduziu-me às origens, a outras paisagens e a outro rio. Cresci nas margens apertadas e sinuosas de um rio com um nome igualmente apertado e sinuoso, a olhar o céu e com vontade de fugir, a ver passar aviões ao largo, longe, com um fio de fumo atrás. Para muito longe que vá, os meandros do Zêzere nunca me sairão da memória. Engraçado como as paisagens da infância/adolescência marcam tanto...




... De avião, no avião, chamei a atenção do Zé para os meandros na paisagem, para as estradas que desenhavam as montanhas. E ele tirou várias fotografias quer na ida quer no regresso. Nestes dias, a rever essas fotos de Agosto, constatei que havia paisagens que não me eram absolutamente estranhas. Fiquei a ver e a imaginar. Não é que reconheci alguns sítios? O Zé apanhou não só os meandros do Zêzere como em duas delas registou a minha aldeia, quer na ida quer no regresso. Coincidências. Perante as condições, as cores são as possíveis.








domingo, 18 de outubro de 2009

quando formos grandes, queremos ser assim .:. Stephen Gately



Stephen Patrick David Gately

[17 de Março, 1976 † 10 de Outubro, 2009]













Andrew Cowles and Stephen Gately at their civil partnership ceremony in March 2006. Photograph: Rex Features











sábado, 17 de outubro de 2009

o teu panegírico!

A narradora de A República dos Sonhos começa assim a sua história:
«Eulália começou a morrer na terça-feira.»


Começar um romance assim é como chegar junto do leitor e dar-lhe de imediato uma bofetada, surpreendendo-o. Eu, pelo menos, fiquei nem sei se comovido, se chocado. Mas cativou-me. O romance é um dos mais conhecidos da brasileira Nélida Piñon. E Eulália morre lá para o final, umas 730 e tal páginas depois.

Aquariana, a caminho dos 52 anos, acordou na manhã de 17 de Julho com visão dupla. Foi para o Hospital da Luz. Não sei se começou a morrer aí, se antes. A verdade é que desde nascermos somos seres para a morte, Heidegger dixit. No hotel Hospital da Luz, comunicaram-lhe a descoberta de uma massa no interior do cérebro e a partir daí deram-lhe vários diagnósticos. Todos errados. Para descontrair, e se era uma massa, dizia que tinha de ser espaguete. Não queria ver as pessoas com pena dela. Soube depois que podia ser uma tuberculose cerebral(?) ou um tumor. Nunca nada de concreto. No Hospital dos Capuchos, duas semanas antes da morte, deram-lhe o diagnóstico definitivo: linfoma. Nessa altura já estava em coma. Mas já antes sabia que ia morrer e não estava preparada.

Mulher da viola d'arco. Arquitecta que preferiu entregar-se às artes do ensino. Bem, nós não estávamos preparados, essa é que é essa! Tínhamos concertos para assistir num futuro qualquer. Tínhamos um quadro meu com dedicatória e tudo para lhe oferecer. Tínhamos um postal e selo destinados para lhe mandar. Ah, e havia o nome com que às vezes me chamava: Zoninho. Achava piada - ela e eu. Era o -inho do costume, mas não em Paulo, pois gostava de ser diferente e pegou na particularidade do meu endereço de email. Em homenagem, por aqui, virtualmente, rebaptizo-me em sua memória: serei o Zoninho.

Uma semana depois, ainda o meu luto. A alma mais enrugada e a óbvia constatação de que há partidas sem regressos. E de que a morte não tem nada de simples nem linear.

Uma vez, perguntou-me quem me tinha feito tanto mal para eu ser assim: imediatamente sorridente mas tão contorcido, tão enrugado e partido por dentro. Respondi que não sabia e fui sincero, acho que ninguém; embora desconfie que a minha memória arranja mecanismos de ocultação bastante eficientes e, à distância, tudo fica minimizado, reduzido a pormenores de caricatura e humor negro. Acabávamos a conversar sobre aquilo que eu achava que motivava as pessoas a cruzarem-se e a desenvolverem laços ou a desprenderem-se mais tarde desses mesmos laços, seguindo caminhos diferentes, com o sentido de missão cumprida.

E encerro o assunto com a sensação de que tanto entre nós os três ficou por dizer/fazer. Muito provavelmente teremos de nos encontrar em vidas futuras para terminar o enredo. Encerrando o assunto, só espero que não seja moda! Sim, é a 2ª pessoa ligada ao ensino que esteve nesse 1º piquenique nas Caldas e que em 2009 morreu por causa de cancro. Sim, está nesta fotografia e era, como o Zé lhe chamou, um verdadeiro furacão: tinha energia para dar e vender. Agora não tem mais.



Foi um prazer! Sentimos a tua falta! Fazes-nos falta!
Bem-hajas por tudo o que nos deste!








p.s. 1 ► Escrevi duas entradas particulares sobre si: uma explicação sobre como nos conhecemos »» e um comentário por altura do seu quinquagésimo aniversário »»
p.s. 2 ► Há quatro comentários particulares e especiais que nos deixou: várias coisas, incluindo o ensino »» + a amizade e as alianças que eu e o Zé passámos a usar »» + a homossexualidade e a hipocrisia (seguido de um comentário do Catatau) »» + o último comentário assinado como "a cota" »»

domingo, 11 de outubro de 2009

Família e Amigos

Chegou pela mão do Paulo, colegas na mesma escola. Confesso que o início não foi fácil. Por um lado havia o furacão e, por outro, um Caranguejo avesso a coisas muito repentinas. Houve momentos em que não soube compreendê-la, é certo. Mas, que diabo, as amizades também são feitas de "arrufos", ou não?
Durante o velório, no meio das conversas, percebi o quão pouco tantas vezes os familiares mais próximos percebem sobre nós. E não nos entendem. Não percebem nada!
Como isso me entristece. Dá que pensar sobre o valor da Amizade. Que estranha ligação é esta que se estabelece entre as pessoas que está, tantas vezes, para além dos elos biológicos?

Já agora, o seu último email dizia:

Recebi…

Não sei quem escreveu…

Gostei…

Divulgo…

FELICIDADE

"A felicidade faz-se assim, cozinha-se nos intervalos das ausências, enquanto vamos largando o lastro de algumas pessoas e antecipando outras que chegam, adivinhando-as de expectativas intactas. É também olhar para quem fica e está dentro de nós, é cuidar e ser cuidado, tendo-se prazer na tarefa.

A felicidade é um momento aqui e outro acolá, é um vazio preenchido, é a palavra certa sob a luz ideal, é a sensação triunfante de controlo sobre algo que nos andava a fugir. É o inesperado exercício da liberdade, e é o alívio de dizer a verdade, de amar apenas a quem o coração manda. E de ser correspondido na dança palaciana do amor, que implica uma coreografia minuciosa e acertada.

A felicidade é a sincronia, o emparelhamento, a coincidência e a congeminação dos astros; é o triunfo do não quando a resposta não pode ser sim, é o alívio de estarmos no caminho certo e a certeza infantil do pote de ouro no fim do arco-íris, mesmo quando não acreditamos em contos de fadas.

A felicidade é sabermo-nos libertar das felicidades antigas, velhas e gastas, e conseguirmos rasgar fotografias com leveza na alma, em especial as que nunca chegaram a ser tiradas."

Existe!



***
Fica aqui Bobby McFerrin, outro génio que não só nos recomendou como nos ofereceu o DVD onde está este momento incrível


[Bobby McFerrin, Ave Maria]

quinta-feira, 8 de outubro de 2009

ciao!

Digo-vos que devem clicar no play (quem quiser, obviamente, mas Trilok Gurtu é muito bom)

Trilok Gurtu, Nanda (To My Mother) [pelo Arkè String Quartet]





A morte é simples e absolutamente anti-natural. Fácil de entender. Dizem que é o fado. Preferia que não fosse assim, mas até na data acertei. Ontem, no Coliseu, já sentados, à espera de Amália Hoje, às 21:12, recebo a mensagem: «A nossa amiga já partiu». Partiu! Abrupta, quase fulminante, intensa como ela bem sabia ser. Dois dias antes do piquenique organizado pelo Algbiboy, percebeu que não estava bem e que era grave, embora não soubesse do quê. Talvez afónico, não tenho palavras nem tempo. Não tenho. Muitos dos que nos lêem conviveram com com ela pelo menos no 1º piquenique do Algbiboy e no jantar de blogues deste ano, apesar de nunca ter tido blogue. Mas, e sem qualquer bazófia, é uma grande mulher, uma grande mãe, uma grande professora. Uma GRANDE Amiga. Humilde, mas um GRANDE ser humano. Mais tarde, escreverei mais sobre ela; agora, repito uma última frase que lhe escrevi há dois anos nesta entrada: «Ultimamente, temos falado muito pouco e sinto a sua falta. Where are you, dear?»





segunda-feira, 5 de outubro de 2009