sexta-feira, 2 de abril de 2010

última ceia

Provavelmente, já não se lembram... ou lembrar-se-ão. Pois bem, guardar recortes dá nisto: encontrei um recorte da revista , de 1996, com a versão original da rábula que esteve para ser censurada e que tanto sururu na altura provocou. Transcrevo o recorte com o texto de Nuno Artur Silva e Nuno Markl.

*****

«A versão original»

«A Última Ceia, antes de qualquer rasura, é esta. A rábula, escrita por Nuno Artur Silva e Nuno Markl, foi para o ar em 28 de Outubro de 1994, na Rádio Comercial.




Olá, bem-vindos a mais uma emissão de O Repórter não Estava Lá, um programa em que recriámos, em exclusivo para si, os acontecimentos que marcaram a História da Humanidade, mas que nem as câmaras nem os microfones puderam captar.

Ouça no episódio de hoje, A Última Ceia. Saiba tudo sobre as últimas horas do jovem da Nazaré que mudou o mundo. O que terá acontecido realmente naquela noite fatídica em que Jota saiu com os amigos pela última vez? De que falaram? O que comeram? Quem pagou a conta? Por que é que uns foram convidados, e outros não? Tudo isto e muito mais em O Repórter não Estava Lá.

Atenção, o que vão ouvir é uma reconstituição feita por estudiosos conceituados, à luz das mais recentes descobertas sobre os acontecimentos que rodearam A Última Ceia. O que vão ouvir é uma simulação. Jerusalém, ano zero, quinta-feira, oito da noite, à porta do restaurante O Prepúcio. Como é que seria se o nosso repórter estivesse lá?

Repórter Olá, boa noite. Estamos aqui à porta do restaurante onde vai decorrer a Última Ceia. Os primeiros convivas já começaram a chegar e o próprio Jota acaba de entrar, acenando para a multidão que o aguardava entusiasticamente. Estou a ver ali judas Iscariotes a aproximar-se. Vou tentar chegar à fala com ele...

Judas, boa noite! Bem-disposto? Não quer comentar os rumores segundo os quais judas estaria envolvido numa conspiração para denunciar Jota aos romanos?

Judas Eu não quero prestar declarações. Depois do jantar darei uma conferência de imprensa.

Repórter Mas, judas...

(bump)

Repórter Humph!... Repórter impedido de prosseguir o seu trabalho. Bem, e parece que vem aí o apóstolo Pedro. Pedro, confirma-se que esa pensar deixar a pesca e dedicar-se em full-time ao apostolado?

, Pedro Não sei, é uma coisa que temos que ver. O apostolado é uma nova profissão, com um mercado para explorar, mas com os seus riscos. Nada nos diz que esta religião veio para ficar. Mas, se a coisa correr mal e a gente tiver que fechar a loja, olhe – o melhor que tenho a fazer é dedicar-me à pesca... outra vez.

Repórter É verdade que o senhor tem o apoio das bases para suceder a jota Cê na direcção do movimento?

Pedro Bom, não sei do que é que a menina está a falar. O Jota é fundamental. Longe de mim pensar numa sucessão, precisamente agora que o movimento está em plena expansão. Ele é que é o nosso líder indiscutível Ele é que é o homem do leme.

Repórter Bem, mas vamos lá dentro agora, ver o que é que se está a passar...

Criado Então o que é que vai ser?

JC Carne de porco à alentejana para todos.

Paulo Ó Jota , mas nós somos judeus. Não podemos...

JC Ah, é verdade... Então podem vir só as amêijoas, para primeiro prato. Depois vem o borrego.

Paulo Eh pá, já viram que somos treze? Isto é mau agoiro. Quem é que falta?

João É o Eusébio.

Paulo É sempre o mesmo - diz que vem, mas nunca aparece. É um corte, é o que é.

JC Que se lixe... Isto a vida são dois dias. E, no meu caso, talvez menos.

Repórter Foram as palavras sábias de Jota . E as amêijoas estão já a chegar.

(barulho de talheres)

Judas Então isto é que é uma dose? Eh pá. Ó Jota , multiplica lá aqui as amêijoas!

JC Estás parvo? Isso não é pão nem peixe... Com amêijoas não sei. Julgas que eu sou o David Copperfield?

Judas Eh , se era para isso, tínhamos mandado vir os carapaus.

JC Ah, só uma coisa antes de começarem a comer - este é o meu corpo, este é o meu sangue.

Judas Eh pá, agora à mesa, não. Eso pessoal a comer...

Repórter O jantar decorre animado. Foram encomendadas doze doses de cabrito e uma omeleta de camao para judas. E, terminado o jantar, vamos ouvir...

JC Bem, bora aí tomar um copo a qualquer lado?

Paulo Então, mas isto não era a Última Ceia?

JC É só mais um copo. Vamos ao Jardim das Oliveiras. Tem uma esplanada bestial com vista para o rio.

Paulo E deixam-nos entrar assim, treze gajos sozinhos, sem miúdas?

JC Não há problema. O porteiro conhece-me.

João Mas espera aí... Não era agora que o judas devia...?

Paulo Eia, pois era!...

(batendo com pratos, todos) Beija, beija, beija...

Repórter E, senhores ouvintes, com esta reconstituição rigorosa deste momento crucial da História da Humanidade, termina o nosso programa O Repórter não Estava Lá, hoje, na Última Ceia.

Deixamo-vos com as canções dos convivas a caminho do Jardim das Oliveiras, quá já um pouco alegres..

quinta-feira, 1 de abril de 2010

Páscoa

- Pai, o que é a Páscoa?
- Ora, Páscoa é... bem... é uma festa religiosa!
- Igual ao Natal?
- É parecido. Só que no Natal comemora-se o nascimento de Jesus, e na Páscoa, se não me engano, comemora-se a sua ressurreição.
- Ressurreição?
- É, ressurreição. Maria, vem cá!
- Sim?
- Explica lá ao puto o que é ressurreição para eu poder ler o meu jornal descansado.
- Bom, meu filho, ressurreição é tornar a viver após ter morrido. Foi o que aconteceu com Jesus, três dias depois de ter sido crucificado. Ele ressuscitou e subiu aos céus. Entendido?
- Mais ou menos... Mãe, Jesus era um coelho?
- Que parvoíce é essa? Estás-te a passar! Coelho? Jesus Cristo é o Pai do Céu! Nem parece que foste baptizado! Jorge, este menino não pode crescer assim, sem ir à missa pelo menos aos domingos. Até parece que não lhe demos uma educação cristã! Já pensaste se ele diz uma asneira destas na escola? Deus me perdoe! Amanhã vou matricular esta criança na catequese!
- Mãe, mas o Pai do Céu não é Deus?
- É filho! Jesus e Deus são a mesma coisa. Vais estudar isso na catequese. É a Trindade. Deus é Pai, Filho e Espírito Santo.
- O Espírito Santo também é Deus?
- É, sim.
- E Fátima?
- Sacrilégio!
- É por isso que na Trindade fica o Espírito Santo?
- Não é o Banco Espírito Santo que fica na Trindade, meu filho. É o Espírito Santo de Deus. É uma coisa muito complicada, nem a mãe entende muito bem, para falar a verdade nem ninguém, nem quem inventou esta asneira a compreende. Mas se perguntares à catequista ela explica muito bem!
- Bom, se Jesus não é um coelho, quem é o coelho da Páscoa?
- (Aos gritos no meio da casa) Eu sei lá! É uma tradição. É igual ao Pai Natal, só que em vez de presentes, ele traz ovinhos.
- O coelho põe ovos?
- Chega! Deixa-me ir fazer o almoço que eu não aguento mais!
- Pai, não era melhor que fosse galinha da Páscoa?
- Era, era melhor, ou então peru.
- Pai, Jesus nasceu no dia 25 de Dezembro, não é? Em que dia é que ele morreu?
- Isso eu sei: na sexta-feira santa.
- Que dia e que mês?
- Gaita! Sabes que eu nunca pensei nisso? Eu só aprendi que ele morreu na sexta-feira santa e ressuscitou três dias depois, no sábado de aleluia.
- Um dia depois, portanto!
- (Aos berros) Não, filho: três dias!
- Então morreu na quarta-feira.
- Não! Morreu na sexta-feira santa... ou terá sido na quarta-feira de cinzas? Ouve, já me baralhaste todo! Morreu na sexta-feira e ressuscitou no sábado, três dias depois!
- Como!? Como!?
- Pergunta à tua professora da catequese!
- Pai, então por que amarraram um monte de bonecos de pano na rua?
- É que hoje é sábado de aleluia, e a aldeia vai fingir que vai bater em Judas. Judas foi o apóstolo que traiu Jesus.
- O Judas traiu Jesus no sábado?
- Claro que não! Se ele morreu na sexta!
- Então por que eles não lhe batem no dia certo?
- É, boa pergunta.
- Pai, qual era o sobrenome de Jesus?
- Cristo. Jesus Cristo.
- Só?
- Que eu saiba sim, porquê?
- Não sei não, mas tenho um palpite que o nome dele tinha no apelido Coelho. Só assim esta coisa do coelho da Páscoa faz sentido, não achas?
- Coitada!
- Coitada de quem?
- Da tua professora da catequese!


[obrigado, Luís!]

palavras que nos inquietam ● Trakl





REVELAÇÃO E DECADÊNCIA


Estranhos são os caminhos nocturnos do homem.
(…)

Quero andar junto à orla da floresta, corpo de silêncio de cujas mãos sem voz desceu o sol esfiapado; um forasteiro na colina da tarde, que a chorar levanta as pálpebras sobre a cidade de pedra; um veado tranquilamente repousando sob o velho sabugueiro; oh, inquieta, à escuta, a cabeça ao crepúsculo, ou então os passos hesitantes seguindo a nuvem azul sobre a colina, e também os astros graves. Ao lado, acompanha-os em silêncio a semente verde, e a tímida corça nos atalhos musgosos da floresta. As cabanas dos aldeãos fecharam-se, silenciosas, e amedronta-os no negro silêncio do vento o lamento azul do ribeiro de montanha.
Mas quando descia o atalho na rocha apossou-se de mim a loucura, e eu gritei bem alto na noite; e quando me curvei sobre as águas silentes com dedos de prata, vi que o meu rosto me tinha abandonado. E a voz branca falou-me: Mata-te! Suspirando, ergueu-se em mim a sombra de um rapazinho e olhou-me, radiante, com olhos de cristal, e eu caí a chorar sob as árvores e a portentosa abóbada de estrelas.
(…)

Com solas de prata desci os degraus de espinhos e entrei no aposento caiado. Havia a luz calma de um candelabro, e em silêncio escondi a cabeça em panos de púrpura; e a terra pariu um cadáver de criança, uma criatura lunar que lentamente foi saindo da minha sombra, afundando-se de braços partidos por lintéis de pedra, flocos de neve.

pp. 103-107


Georg Trakl »» Outono Transfigurado »» trad. de João Barrento »» Lisboa »» Assírio & Alvim »» 1992

segunda-feira, 29 de março de 2010

discurso directo

«Ha sido un proceso muy intenso, angustiante y doloroso pero también liberador. Les juro que cada palabra que están leyendo aquí nace de amor, purificación, fortaleza, aceptación y desprendimiento. Que escribir estas líneas es el acercamiento a mi paz interna, parte vital de mi evolución. Hoy ACEPTO MI HOMOSEXUALIDAD como un regalo que me da la vida. ¡Me siento bendecido de ser quien soy!» (sublinhados meus)



E quem é que escreveu isto hoje, quem foi? »» A confirmação: vale mesmo a pena ler o texto todo!




domingo, 28 de março de 2010

imitações de qualidade



Há bichos incríveis! Vejam o que o pássaro lira consegue imitar (e reparem na belíssima e barroca cauda do macho).






sábado, 27 de março de 2010

teatro • la vida es sueño

Julieta – Dei-te o meu amor antes que tu mo pedisses; e contudo queria tê-lo ainda.

Romeu – Querias tirar-mo? E para quê, meu amor?

Julieta – Só para ser generosa e dar-to outra vez. E contudo eu só desejo o que já tenho: a minha generosidade é tão ilimitada como o mar; e tão profundo como este é também o meu amor: quanto mais te dou, tanto mais me fica, porque uma e outro são infinitos.

William Shakespeare, Romeu e Julieta




Romeu + Juliet de Baz Luhrmann

sexta-feira, 26 de março de 2010

tal e qual

Com o sufoco do período quase a terminar e em plena quaresma, fica aqui um episódio bíblico em versão quase anedota muito a propósito destes dias (ainda que só mesmo os professores percebem verdadeiramente o estado de nervos de Jesus):

Naquele tempo, Jesus subiu ao monte seguido pela multidão e, sentado sobre uma grande pedra, deixou que os seus discípulos e seguidores se aproximassem. Depois, tomando a palavra, ensinou-os, dizendo:
Em verdade vos digo,
- Bem-aventurados os pobres de espírito, porque deles é o reino dos céus.
- Bem-aventurados os que têm fome e sede de justiça, porque serão saciados.
- Bem-aventurados os misericordiosos, porque eles...
Pedro interrompeu:
- Temos que aprender isso de cor?
André questionou:
- Temos que copiar isso para o papiro?
Simão perguntou:
- Vamos ter teste sobre isso?
Tiago, o Menor queixou-se:
- O Tiago, o Maior está sentado à minha frente, não vejo nada!
Tiago, o Maior gritou:
- Cala-te, seu queixinhas!
Filipe lamentou-se:
- Esqueci-me do papiro-diário!
Bartolomeu quis saber:
- Temos de tirar apontamentos?
João levantou a mão:
- Posso ir à casa de banho?
Judas Iscariotes exclamou (Judas Iscariotes era mesmo malvado, com retenção repetida e vindo de outro Mestre):
- Para que é que serve isto tudo?
Tomé inquietou-se:
- Há fórmulas? Vamos resolver problemas?
Judas Tadeu reclamou:
- Podemos ao menos usar o ábaco?
Mateus queixou-se:
- Eu não entendi nada... ninguém entendeu nada!

Um dos fariseus presentes, que nunca tinha estado diante de uma multidão nem ensinado nada, tomou a palavra e dirigiu-se a Ele, dizendo:
- Onde está a tua planificação? Qual é a nomenclatura do teu plano de aula nesta intervenção didáctica mediatizada? E a avaliação diagnóstica? E a avaliação institucional? Quais são as tuas expectativas de sucesso? Tens a abordagem da área em forma globalizada, de modo a permitir o acesso à significação dos contextos, tendo em conta a bipolaridade da transmissão? Quais são as tuas estratégias conducentes à recuperação dos conhecimentos prévios? Respondem estes aos interesses e necessidades do grupo de modo a assegurar a significatividade do processo de ensino-aprendizagem? Incluíste actividades integradoras com fundamento epistemológico produtivo? E os espaços alternativos das problemáticas curriculares gerais? Propiciaste espaços de encontro para a coordenação de acções transversais e longitudinais que fomentem os vínculos operativos e cooperativos das áreas concomitantes? Quais são os conteúdos conceptuais, processuais e atitudinais que respondem aos fundamentos lógico, praxeológico e metodológico constituídos pelos núcleos generativos disciplinares, transdisciplinares, interdisciplinares e metadisciplinares?
Caifás, o pior de todos os fariseus, disse então a Jesus:
- Quero ver as avaliações do primeiro, segundo e terceiro períodos e reservo-me o direito de, no final, aumentar as notas dos teus discípulos, para que ao Rei não lhe falhem as previsões de um ensino de qualidade e não se lhe estraguem as estatísticas do sucesso. Serás notificado em devido tempo pela via mais adequada. E vê lá se reprovas alguém! Lembra-te que ainda não és titular e não há quadros de nomeação definitiva!

... E Jesus pediu a reforma antecipada aos trinta e três anos.

quarta-feira, 24 de março de 2010

por tua conta e risco : FRANÇOIS SAGAT

Depois não me venham dizer que eu não avisei que o conteúdo era, como direi, interessante. Ou pornografia artística. Existe uma versão com censura, mas esta é muito mais... ok... é uma campanha, 'tá, e é por uma causa boa. Com François Sagat.



terça-feira, 23 de março de 2010

certeiro




[directed by André Carrilho; script by Spam Cartoon; animation by André Carrilho; sound design by José Condeixa; produced by João Paulo Cotrim and André Carrilho]

domingo, 21 de março de 2010

um poema para a vida «Ao volante do Chevrolet pela estrada de Sintra»

Não sei se é a leitura melhor da Voz. Para mim é-o. Rui Morrison com uma voz esmagadora, muito mais do que a Pingo Doce. O incrível Álvaro de Campos: "Na estrada de Sintra, que cansaço da própria imaginação, / Na estrada de Sintra, cada vez mais perto de Sintra, / Na estrada de Sintra, cada vez menos perto de mim..." O resultado é o vídeo mais bem conseguido e tocante, que faz pensar muito na "estrada do sonho", na "estrada da vida".
«Ao volante do Chevrolet pela estrada de Sintra» de Álvaro de Campos lido por Rui Morrison [cf. poema; cf. ainda esta versão de Jô Soares].



dia da poesia # 3

um poema para a vida «Liberdade»

«Liberdade» deve ser um dos poemas mais conhecidos de Pessoa. Trata-se de um poema interessante, mas Pessoa tem-nos muito melhores. E muito maiores. Além disso, deste poema saíram alguns chavões que me irritam, como "o melhor do mundo são as crianças", porque quase ninguém sabe contextualizar estas palavras. Aqui gosto mesmo é da leitura de Raúl Solnado, uma leitura conjugada com uma música excepcional, resultando um vídeo comovente. «Liberdade» de Fernando Pessoa por Raúl Solnado [cf. poema].



dia da poesia # 2

poesia • hoje é o dia

da poesia. E poucas coisas me movem mais que a poesia. Há o amor... mas, imaginemos, se o amor é a respiração, a poesia é o oxigénio. Como me é difícil escolher um poema, encontrar no youtube esta gravação satisfez-me por vários motivos; um dos principais é que me inspirou a fazer várias coisas com a poesia que de outro modo nunca teria feito. O outro é que me levou a procurar e a encontrar imensas gravações no Sapo (estão lá as leituras de que mais gosto e que partilharei a seguir). E dá-me também vontade de partilhar algumas dessas coisas que já fiz com alunos, mas não devo, não posso.
Trata-se de um episódio do programa Voz de 2005. Cada episódio era constituído pela leitura muito pouco ortodoxa de um poema de autor lusófono feita por uma figura pública. A produção coube às Produções Fictícias que pôs neste trabalho um cuidado estético a todos os níveis incomum. Apesar da qualidade não ser a melhor, acho que gostarão de ouvir o bonito Marco D'Almeida a dizer um dos poemas maiores da língua portuguesa, Cântico Negro de José Régio [cf. poema].




dia da poesia # 1

quarta-feira, 17 de março de 2010

lenços



Deve ser fruta da época, mas de tanto me assoar ando quase sem nariz (o que é bem difícil, dado o tamanho).

terça-feira, 16 de março de 2010

nobody’s innocent . everybody’s bisexual

Nobody’s innocent. Já tinham ouvido falar de Reead? Mas lembram-se deste vídeo, não? Muito pop, mas não deixa de ser engraçado este argelino que vive em Paris. Ele próprio participa nos vídeos (o tipo do chapéu). Everybody’s bisexual.










« Everybody has a secret
live every night as the last
and fuck the rest!
»





{visto aqui}

segunda-feira, 15 de março de 2010

delírio puro : o papel da escola

O papel da escola eu axo que é igual a um papel qualquer de imprensa A4. E de certeza que é. tem a mesma grossura e tudo. Agora se estão a falar, por exemplo, das folhas de Teste que é uma folha A3 duberada ao meio fazendo duas folhas A4, axo melhor que as folhas de teste sejam assim do que só uma folha A4, essas fichas que os professores dão são sempre folhas de formato A4 ou de formato A5 . Os testes As professoras metem sempre folhas de formato A4 mas quando são mais as professoras agrafam sempre as folhas e nunca fazem teste com folhas formato A5. Por isso eu axo que as folhas desta escola são iguais às das outras escolas ou de outras empresas.

delírio puro : não brinques comigo

domingo, 14 de março de 2010

eufonia

Mesmo não percebendo muito do processo legislativo, pelo que leio pela blogosfera, dá para entender que as coisas correm de feição em relação ao casamento (não, no que toca à adopção) e que o PR podia ter-se portado pior. Uma dúvida: há que começar a pensar numa data para o casamento, ou quê?!


The Hidden Cameras, Boys of Melody

cacofonia


The Hidden Cameras, Ban mariage

sexta-feira, 12 de março de 2010

quinta-feira, 11 de março de 2010

que fofas! adoro elas!




A aula é uma seca. Vai daí, as fofas boicotam-na, mas com muita pinta. Reparem como adoram os castigos.

quarta-feira, 10 de março de 2010




amanhecer

Só mesmo vendo para crer... mas pelo acordar do dia de hoje parece mesmo que o sol nos vai finalmente fazer umas visitas mais regulares. Afinal, haverá alguém que ainda não esteja farto de chuva?




{visto aqui}


terça-feira, 9 de março de 2010

singular ou... [dois]

Chimamanda Adichie e os perigos dos discursos únicos


Por ser branco, nunca liguei muito a certos discursos. Mas até eu devo estar a mudar. Aliás, acho que, mesmo indelevelmente, ultimamente estou a mudar muito. As questões raciais são um desses pontos que passaram a preocupar-me mais - assim como os direitos das mulheres. Talvez por causa dos discursos destas mulheres contadoras de histórias (há uma outra sobre quem falarei aqui depois). Por isso, descobrir esta comunicação da escritora nigeriana Chimamanda Adichie foi como ter tido uma daquelas revelações que mudam a nossa vida. Ou ter tido uma daquelas raras epifanias que ilumina o dia mais cinzento.
Aprende-se imenso com a voz às vezes trémula de Chimamanda, mas sempre senhora de si e da sua identidade. As suas palavras estão a par do discurso de Isabel Allende, ou mais ainda. Toda a gente devia ouvi-las e reflectir sobre o perigo da história única. As maiorias. As minorias. Para aprenderem algumas coisas e reconhecerem o perigo da generalização. Serve para quem tem «pele de chocolate». Serve ainda para constatarmos que é muito fácil apontarmos o dedo ao Outro, julgarmos o Outro, ostracizarmos o Outro. E mais uma vez um discurso fundamentado na experiência pessoal.
Percam algum do vosso tempo para ouvir mais este discurso fabuloso! Verão ainda que, tal como no discurso de Allende, a vossa reacção balançará entre o riso, a inspiração pura e o arrepio. Confiram o poder da(s) palavra(s). O poder da(s) generalização(ões). O poder de sermos, afinal, tão singulares. Espero ainda que estes dois discursos ajudem as mulheres a contornarem o destino e a não se esquecerem de ser!
Já agora, Chimamanda Adichie está publicada em Portugal pela Asa.

Pode ler-se na página do TED:
«As nossas vidas, as nossas culturas, são compostas por muitas histórias sobrepostas. A romancista Chimamanda Adichie conta a história de como descobriu a sua voz cultural - e adverte que se ouvirmos apenas uma história sobre outra pessoa ou país, arriscamos um desentendimento crítico.» »»


Pode ouvir-se nas palavras desta contadora de histórias:
«Todas estas histórias fazem de mim quem eu sou.
(...) A história única cria estereótipos, e o problema com os estereótipos não é eles serem mentira, mas eles serem incompletos. Eles fazem uma história tornar-se a única história.»




[É possível accionar facilmente
as legendas em view subtitles]

segunda-feira, 8 de março de 2010

singular ou... [um]

Isabel Allende a contar histórias de paixão



Por ser homem, nunca liguei muito a certas comemorações. Mas até eu devo estar a mudar... No Dia Internacional da Mulher, das mulheres das nossas vidas, a vosso favor, ganhem algum do vosso tempo a ouvir este discurso maior, perfeito e bem humorado desta contadora maior de estórias. É sobre mulheres, feminismos e paixão, e verão como balançarão entre o riso e o arrepio. Antes mesmo do vídeo, algumas frases soltas que Isabel Allende usa:
«Somente um coração destemido e determinado conseguirá a medalha de ouro.
(...) O coração é o que nos motiva e determina o nosso destino.
(...) As sociedades mais pobres e atrasadas são sempre aquelas que menosprezam as suas mulheres.
(...) O que eu mais temo é o poder com impunidade. Tenho medo do abuso de poder e do poder para abusar. Na nossa espécie, os machos alfa definem a realidade, e forçam o resto da matilha a aceitar essa realidade e a seguir as regras. As regras estão sempre a mudar, mas beneficiam-nos sempre.»

Portanto, não é só para ouvirem a Isabel Allende contadora e feminista!... É também para se deliciarem com o seu entusiasmo, para se comoverem com as histórias que relata e para pensarem um bocadinho!





[É possível accionar facilmente
as legendas em
view subtitles]

domingo, 7 de março de 2010

singular




[Não. Às vezes, é simplesmente demasiado tarde e pronto.]

Como já bem discorreram por aí (ainda que aconselhe esta entrada e mais esta), Um Homem Singular é fabuloso e essa classificação chega-me e sobeja-me.
«Nunca um filme tão contido foi tão explícito na enunciação do desejo»»
A rever muitas vezes e a atribuir-lhe sempre muitas estrelas.

sábado, 6 de março de 2010

convite irrecusável







Pelo 4º ano consecutivo, o nosso Pinguim organiza o jantar. Todas as informações para já necessárias estão disponíveis lá no seu whynotnow. Não se esqueçam de irem pensando seriamente no assunto e de irem reservando o dia 1 de Maio para o convívio no Guilho. Entretanto, senhoras e senhores, meninas e meninos, malta blogueira ou nem por isso, já temos os nossos bloquinhos prontos para assentar as vossas inscrições!











p.s.: O vídeo é de Hedi Slimane com improvisação do dinamarquês Oscar Nilsson




quinta-feira, 11 de fevereiro de 2010

quando formos grandes, queremos ser assim : Alexander McQueen

Lee Alexander McQueen
[16 de Março, 1969 † 11 de Fevereiro, 2010]



Chego a casa e constato que Alexander McQueen foi hoje encontrado morto em casa. Tenho pena. Apesar de eu não falar muito de moda, gostava dele e das suas criações. Morreu hoje. Tinha 40 anos. Afinal, ainda se morre jovem por aí. Provavelmente de suicídio. E hoje descobri por este vídeo, um holograma tridimensional com Kate Moss projectado num desfile seu (outra versão).



terça-feira, 2 de fevereiro de 2010

quando formos grandes, queremos ser assim : Rosa Lobato de Faria

Rosa Maria de Bettencourt Rodrigues Lobato de Faria
[20 de Abril, 1932 † 2 de Fevereiro, 2010]


Chego a casa e diz-me o Zé que morreu. Tenho pena. Muita! Afinal, além de muitas outras coisas por que se dividiu, escreveu um dos romances de temática homossexual/gay de que mais gosto. Falo de A Alma Trocada. Rosa Lobato de Faria foi também, como escreveu Eduardo Pitta, uma Senhora. Sem muito ruído, aproveito a ocasião para voltar a essas entradas antigas onde citei passagens do romance.
Entrada 1 ► ► Entrada 2 ► ► Entrada 3 ► ► Entrada 4 ► ► Entrada 5 ► ► Entrada 6 ► ► Entrada 7 ► ► Entrada 8 ► ► Entrada 9 ► ►
E de entre elas, destaco aqui as duas que se seguem:

Finalmente o prazer. Farrapos de fantasias eróticas de toda uma vida, numa espiral onde rodopiavam emoções, sensações, esquecimento próprio, loucura, aceitação do animal em mim, do grito, da fome, da liberdade de ser e saber que se é. Apesar. Mau grado. Não obstante. Que se lixe.
Finalmente o prazer. Tantas vezes sonhado, imaginado, desejado, pressentido. Puro e irracional. Irresponsável. A fúria da descoberta e depois a paz. Essa paz desconhecida, completa, apaziguadora. Pela primeira vez na vida, a plenitude.
Dormi sobre isto e acordei feliz.
Rosa Lobato de Faria » A Alma Trocada (Porto: Asa) » 2007 » p. 7



Cheiravas a feno e não sabias que o coração é um barco no tempo. Quando as aves do Verão demandarem o Sul virás devagar, abrirás a porta verde-escura e esperarás em vão pelo frémito do meu corpo. Não voltarei a passar o renque das azáleas, o muro onde o sol nasce, a chuva, para morrer nos teus braços.
Rosa Lobato de Faria » A Alma Trocada (Porto: Asa) » 2007 » p. 164