quinta-feira, 22 de abril de 2010

atão, só tivestes bom?




Todos os anos sucede ter de concorrer: há 10 anos que assim é.
Este ano surge com uma cereja no topo do bolo: a avaliação que vem na lei, diz a menistra. Ah, claro. Já me tinha esquecido.
Recusei-me à fantochada lambe-botas. Sofro as consequências, obviamente. Só uma conclusão para quem não quer ver: prefiro manter a dignidade (mesmo que essa não me alimente a barriga) a vender-me relesmente. Assim, relembram-me que não sou nem muito bom ou excelente, simplesmente bom (mesmo que a nota quantitativa seja 9 – o sistema vai de 0 a 10). Continuo na minha: prefiro ser bom e correcto professor de português a muito bom ou excelente e encher a boca com “tu tivestes” ou “que teja correcto”. É irónico, ou talvez não. Que assim seja: que não se valorizem os bons; que se valorizem os oportunistas e assim se permita que o mundo continue bem redondinho.


ilustração a propósito »»

eufemismo

há momentos assim, em que desaparecer se afigura como uma hipótese mais do que viável

quarta-feira, 14 de abril de 2010

está na hora!






O convite foi lançado pelo Pinguim, e depois por nós, a tempo e horas de irem reservando agenda e tempo para o jantar anual – o 4º, por sinal. Nesta entrada, o Pinguim já informou onde e quando (1 de Maio, 20h). A inscrição é obrigatória.

Outros pormenores, como preço, localização, ementa, etc., seguirão, preferencialmente, por email. Possuímos uma lista bastante actualizada dos contactos, mas pedimos aos mais novos – e que não apresentem meio de contacto no blogue – que nos enviem um email para trocarmos contactos.

Se precisarem de um desenho, peçam que a gerência logo vê o que se arranja; por outro lado, se precisarem de alguma outra coisa, comprem que há sítios que vendem.

Claro, o convite é dirigido a tod@s os que carinhosamente nos seguem: às mulheres, aos novos, aos velhos, aos assim-assim... especialmente, a quem ainda não conhecemos e que poderão ter algum receio ou reserva. Não tenham! Não temam! Descansem: somos todos muito boa gente e nenhum de nós foi ou é padre (mas,
se assim o desejarem, podemos preparar a visita do Bento em conjunto).


[Leandro Bassano]




Brincadeiras à parte, queremos mesmo é contar contigo!

Agora, está na hora de se inscreverem com um comentário aqui ou no Why not Now? impreterivelmente até dia 24 de Abril.

Não aceitamos desistências, esquecimentos e outros percalços imprevisíveis, 'tá.





[Corneli, Banquet of Members of Amsterdam's Crossbow Civic Guard]




[esta é uma entrada conjunta | o convite é sobre uma fotografia do Paulo que está na entrada anterior]

terça-feira, 13 de abril de 2010

hora


e quem escreve assim, não /




«O ANALFABETO POLÍTICO»

O pior analfabeto
É o analfabeto político,
Ele não ouve, não fala,
Nem participa dos acontecimentos políticos.
Ele não sabe o custo da vida,
O preço do feijão, do peixe, da farinha,
Do aluguer, do sapato e do remédio
Dependem das decisões políticas.

O analfabeto político
É tão burro que se orgulha
E estufa o peito dizendo
Que odeia a política.

Não sabe o imbecil que
da sua ignorância política
Nasce a prostituta, o menor abandonado,
E o pior de todos os bandidos,
Que é o político vigarista,
Pilantra, corrupto e lacaio
Das empresas nacionais e multinacionais.

Bertold Brecht

domingo, 11 de abril de 2010

e quem fala assim, não /

Eu podia dizer aqui muita coisa sobre esta interpelação, mas basta verem e ouvirem a deputada brasileira Cidinha Campos. Apesar do tom estridente, não há espaço para qualquer dúvida sobre quem mama.



sexta-feira, 9 de abril de 2010

nota da redacção

Continuamos na minha aldeia. Por aqui o tempo roda a um velocidade incrivelmente diferente: o relógio pode ser substituído pela gravação do sino da capela e pelo percurso do sol; o clima é ameno, com um calor doce. Gostamos disto. Só de vez em quando. Único senão: a velocidade da internet móbil deixa-nos, quando podemos descansar, sem paciência para grandes deambulações... Uma nota de humor: «Eu é mais bolos».

domingo, 4 de abril de 2010

corrente d'ar

o mítico “amai-vos uns aos outros”
já não é o que era, essa é que é essa



[visto aqui]

[visto em vários sítios por aí]



[visto aqui]




Os tempos que correm estão a fazer ver à cúpula católica que é perigoso atirar pedras quando se tem telhados de vidro. Apesar das revelações todas que têm vindo a público, ainda fico atónico com a reacção da cúpula, com a leviandade ofensiva das comparações. Reacções que nada têm de humildade, muito pouco dignas de quem é ministro de deus e que, ao invés de investirem na protecção das vítimas, investem, sim, num contra-ataque acéfalo e que revela bem o que importa: tudo imagem da instituição; pouco, muito pouco aos seus fiéis. Ou: há que proteger a imagem; que se fodam as pessoas, sobretudo os heréticos que insistem em atacar a sacrossanta madre igreja. Ou: o problema não está em terem-se ocultado as situações de pedofilia; o problema está em estarem a revelar-se as situações desse mesmo abuso. Tanta cegueira revolta um bocadinho, caramba. Além do lunatismo em que persiste, como o pecado do aborto, ou noutras tretas que, essas sim, lhes são realmente importantes. Essa coisa de pedofilia parece mal menor. É por estas e por outras que a sacrossanta madre igreja tem cada vez menos a ver com a minha fé, cada vez me metendo mais asco. Cristo ressuscitou também para isto, com certeza. Mas se deus se manifesta através do Homem, duvido que tire algum prazer em manifestar-se como padre pedófilo. Mas, nos tempos que correm, é só a minha opinião. Esta, sim, é uma opinião exemplar: «A Igreja na Cruz» [Aspirina B].

sexta-feira, 2 de abril de 2010

última ceia






última ceia

Provavelmente, já não se lembram... ou lembrar-se-ão. Pois bem, guardar recortes dá nisto: encontrei um recorte da revista , de 1996, com a versão original da rábula que esteve para ser censurada e que tanto sururu na altura provocou. Transcrevo o recorte com o texto de Nuno Artur Silva e Nuno Markl.

*****

«A versão original»

«A Última Ceia, antes de qualquer rasura, é esta. A rábula, escrita por Nuno Artur Silva e Nuno Markl, foi para o ar em 28 de Outubro de 1994, na Rádio Comercial.




Olá, bem-vindos a mais uma emissão de O Repórter não Estava Lá, um programa em que recriámos, em exclusivo para si, os acontecimentos que marcaram a História da Humanidade, mas que nem as câmaras nem os microfones puderam captar.

Ouça no episódio de hoje, A Última Ceia. Saiba tudo sobre as últimas horas do jovem da Nazaré que mudou o mundo. O que terá acontecido realmente naquela noite fatídica em que Jota saiu com os amigos pela última vez? De que falaram? O que comeram? Quem pagou a conta? Por que é que uns foram convidados, e outros não? Tudo isto e muito mais em O Repórter não Estava Lá.

Atenção, o que vão ouvir é uma reconstituição feita por estudiosos conceituados, à luz das mais recentes descobertas sobre os acontecimentos que rodearam A Última Ceia. O que vão ouvir é uma simulação. Jerusalém, ano zero, quinta-feira, oito da noite, à porta do restaurante O Prepúcio. Como é que seria se o nosso repórter estivesse lá?

Repórter Olá, boa noite. Estamos aqui à porta do restaurante onde vai decorrer a Última Ceia. Os primeiros convivas já começaram a chegar e o próprio Jota acaba de entrar, acenando para a multidão que o aguardava entusiasticamente. Estou a ver ali judas Iscariotes a aproximar-se. Vou tentar chegar à fala com ele...

Judas, boa noite! Bem-disposto? Não quer comentar os rumores segundo os quais judas estaria envolvido numa conspiração para denunciar Jota aos romanos?

Judas Eu não quero prestar declarações. Depois do jantar darei uma conferência de imprensa.

Repórter Mas, judas...

(bump)

Repórter Humph!... Repórter impedido de prosseguir o seu trabalho. Bem, e parece que vem aí o apóstolo Pedro. Pedro, confirma-se que esa pensar deixar a pesca e dedicar-se em full-time ao apostolado?

, Pedro Não sei, é uma coisa que temos que ver. O apostolado é uma nova profissão, com um mercado para explorar, mas com os seus riscos. Nada nos diz que esta religião veio para ficar. Mas, se a coisa correr mal e a gente tiver que fechar a loja, olhe – o melhor que tenho a fazer é dedicar-me à pesca... outra vez.

Repórter É verdade que o senhor tem o apoio das bases para suceder a jota Cê na direcção do movimento?

Pedro Bom, não sei do que é que a menina está a falar. O Jota é fundamental. Longe de mim pensar numa sucessão, precisamente agora que o movimento está em plena expansão. Ele é que é o nosso líder indiscutível Ele é que é o homem do leme.

Repórter Bem, mas vamos lá dentro agora, ver o que é que se está a passar...

Criado Então o que é que vai ser?

JC Carne de porco à alentejana para todos.

Paulo Ó Jota , mas nós somos judeus. Não podemos...

JC Ah, é verdade... Então podem vir só as amêijoas, para primeiro prato. Depois vem o borrego.

Paulo Eh pá, já viram que somos treze? Isto é mau agoiro. Quem é que falta?

João É o Eusébio.

Paulo É sempre o mesmo - diz que vem, mas nunca aparece. É um corte, é o que é.

JC Que se lixe... Isto a vida são dois dias. E, no meu caso, talvez menos.

Repórter Foram as palavras sábias de Jota . E as amêijoas estão já a chegar.

(barulho de talheres)

Judas Então isto é que é uma dose? Eh pá. Ó Jota , multiplica lá aqui as amêijoas!

JC Estás parvo? Isso não é pão nem peixe... Com amêijoas não sei. Julgas que eu sou o David Copperfield?

Judas Eh , se era para isso, tínhamos mandado vir os carapaus.

JC Ah, só uma coisa antes de começarem a comer - este é o meu corpo, este é o meu sangue.

Judas Eh pá, agora à mesa, não. Eso pessoal a comer...

Repórter O jantar decorre animado. Foram encomendadas doze doses de cabrito e uma omeleta de camao para judas. E, terminado o jantar, vamos ouvir...

JC Bem, bora aí tomar um copo a qualquer lado?

Paulo Então, mas isto não era a Última Ceia?

JC É só mais um copo. Vamos ao Jardim das Oliveiras. Tem uma esplanada bestial com vista para o rio.

Paulo E deixam-nos entrar assim, treze gajos sozinhos, sem miúdas?

JC Não há problema. O porteiro conhece-me.

João Mas espera aí... Não era agora que o judas devia...?

Paulo Eia, pois era!...

(batendo com pratos, todos) Beija, beija, beija...

Repórter E, senhores ouvintes, com esta reconstituição rigorosa deste momento crucial da História da Humanidade, termina o nosso programa O Repórter não Estava Lá, hoje, na Última Ceia.

Deixamo-vos com as canções dos convivas a caminho do Jardim das Oliveiras, quá já um pouco alegres..

quinta-feira, 1 de abril de 2010

Páscoa

- Pai, o que é a Páscoa?
- Ora, Páscoa é... bem... é uma festa religiosa!
- Igual ao Natal?
- É parecido. Só que no Natal comemora-se o nascimento de Jesus, e na Páscoa, se não me engano, comemora-se a sua ressurreição.
- Ressurreição?
- É, ressurreição. Maria, vem cá!
- Sim?
- Explica lá ao puto o que é ressurreição para eu poder ler o meu jornal descansado.
- Bom, meu filho, ressurreição é tornar a viver após ter morrido. Foi o que aconteceu com Jesus, três dias depois de ter sido crucificado. Ele ressuscitou e subiu aos céus. Entendido?
- Mais ou menos... Mãe, Jesus era um coelho?
- Que parvoíce é essa? Estás-te a passar! Coelho? Jesus Cristo é o Pai do Céu! Nem parece que foste baptizado! Jorge, este menino não pode crescer assim, sem ir à missa pelo menos aos domingos. Até parece que não lhe demos uma educação cristã! Já pensaste se ele diz uma asneira destas na escola? Deus me perdoe! Amanhã vou matricular esta criança na catequese!
- Mãe, mas o Pai do Céu não é Deus?
- É filho! Jesus e Deus são a mesma coisa. Vais estudar isso na catequese. É a Trindade. Deus é Pai, Filho e Espírito Santo.
- O Espírito Santo também é Deus?
- É, sim.
- E Fátima?
- Sacrilégio!
- É por isso que na Trindade fica o Espírito Santo?
- Não é o Banco Espírito Santo que fica na Trindade, meu filho. É o Espírito Santo de Deus. É uma coisa muito complicada, nem a mãe entende muito bem, para falar a verdade nem ninguém, nem quem inventou esta asneira a compreende. Mas se perguntares à catequista ela explica muito bem!
- Bom, se Jesus não é um coelho, quem é o coelho da Páscoa?
- (Aos gritos no meio da casa) Eu sei lá! É uma tradição. É igual ao Pai Natal, só que em vez de presentes, ele traz ovinhos.
- O coelho põe ovos?
- Chega! Deixa-me ir fazer o almoço que eu não aguento mais!
- Pai, não era melhor que fosse galinha da Páscoa?
- Era, era melhor, ou então peru.
- Pai, Jesus nasceu no dia 25 de Dezembro, não é? Em que dia é que ele morreu?
- Isso eu sei: na sexta-feira santa.
- Que dia e que mês?
- Gaita! Sabes que eu nunca pensei nisso? Eu só aprendi que ele morreu na sexta-feira santa e ressuscitou três dias depois, no sábado de aleluia.
- Um dia depois, portanto!
- (Aos berros) Não, filho: três dias!
- Então morreu na quarta-feira.
- Não! Morreu na sexta-feira santa... ou terá sido na quarta-feira de cinzas? Ouve, já me baralhaste todo! Morreu na sexta-feira e ressuscitou no sábado, três dias depois!
- Como!? Como!?
- Pergunta à tua professora da catequese!
- Pai, então por que amarraram um monte de bonecos de pano na rua?
- É que hoje é sábado de aleluia, e a aldeia vai fingir que vai bater em Judas. Judas foi o apóstolo que traiu Jesus.
- O Judas traiu Jesus no sábado?
- Claro que não! Se ele morreu na sexta!
- Então por que eles não lhe batem no dia certo?
- É, boa pergunta.
- Pai, qual era o sobrenome de Jesus?
- Cristo. Jesus Cristo.
- Só?
- Que eu saiba sim, porquê?
- Não sei não, mas tenho um palpite que o nome dele tinha no apelido Coelho. Só assim esta coisa do coelho da Páscoa faz sentido, não achas?
- Coitada!
- Coitada de quem?
- Da tua professora da catequese!


[obrigado, Luís!]

palavras que nos inquietam ● Trakl





REVELAÇÃO E DECADÊNCIA


Estranhos são os caminhos nocturnos do homem.
(…)

Quero andar junto à orla da floresta, corpo de silêncio de cujas mãos sem voz desceu o sol esfiapado; um forasteiro na colina da tarde, que a chorar levanta as pálpebras sobre a cidade de pedra; um veado tranquilamente repousando sob o velho sabugueiro; oh, inquieta, à escuta, a cabeça ao crepúsculo, ou então os passos hesitantes seguindo a nuvem azul sobre a colina, e também os astros graves. Ao lado, acompanha-os em silêncio a semente verde, e a tímida corça nos atalhos musgosos da floresta. As cabanas dos aldeãos fecharam-se, silenciosas, e amedronta-os no negro silêncio do vento o lamento azul do ribeiro de montanha.
Mas quando descia o atalho na rocha apossou-se de mim a loucura, e eu gritei bem alto na noite; e quando me curvei sobre as águas silentes com dedos de prata, vi que o meu rosto me tinha abandonado. E a voz branca falou-me: Mata-te! Suspirando, ergueu-se em mim a sombra de um rapazinho e olhou-me, radiante, com olhos de cristal, e eu caí a chorar sob as árvores e a portentosa abóbada de estrelas.
(…)

Com solas de prata desci os degraus de espinhos e entrei no aposento caiado. Havia a luz calma de um candelabro, e em silêncio escondi a cabeça em panos de púrpura; e a terra pariu um cadáver de criança, uma criatura lunar que lentamente foi saindo da minha sombra, afundando-se de braços partidos por lintéis de pedra, flocos de neve.

pp. 103-107


Georg Trakl »» Outono Transfigurado »» trad. de João Barrento »» Lisboa »» Assírio & Alvim »» 1992