quinta-feira, 25 de novembro de 2010

o José e Pilar de Miguel Gonçalves Mendes

Não tencionava falar do assunto, mas com esta entrada e agora com esta exortação resolvi contrariar a agenda e a minha própria vontade. Bem sei que o impacto causado pela divulgação que aqui faço é nenhuma, mas vale pelo menos a intenção. Vão ver José e Pilar. E ainda mais depois do apelo que o realizador divulgou aqui pois a afluência tem sido reduzida.

Antes de mais, vimos no sábado o filme documentário José e Pilar do Miguel Gonçalves Mendes, quando a NATO se encimeirava e a avenida se manifestava. E ainda antes de mais: já gostávamos muito do realizador por causa de Autografia, o filme documentário/ entrevista sobre/ com Mário Cesariny.
Agora, José e Pilar. Constato que não foi só no passado que voltámos costas aos nossos valores: aconteceu assim com quase todos os nossos bons escritores, aqueles que os próprios estrangeiros, sobretudo brasileiros, aprenderam a gostar muito antes de nós. Assim se passa com Saramago, assim se passou com o filme Ensaio sobre a Cegueira e assim se passa agora com esta obra inqualificável de Miguel Gonçalves Mendes.
Inqualificável, pois tem qualidades que vão além do qualificável, muito além do tempo gasto/ganho nos 128 minutos que dura o filme. Sim, não consigo descrever como me fez bem aquele encontro com Pilar e com Aquele escritor, sobre quem tinha tantos preconceitos há uns anos atrás. Porque, afinal, foi um encontro comigo próprio - e é disso que se trata: um encontro connosco próprios, é impossível não pensarmos em nós, nas nossas relações diárias, no poder, na fragilidade do corpo, na proximidade da morte, na volatilidade da vida, do que morre e do que fica, do encontro e da perda. Com música ao nível das palavras, com encontros e cansaço, com energia para dar e vender e com uma noção muito urgente de que o que importa - o que nos sobrevive - é muito pouco, mas pode ser muito, tem momentos de grande comoção, em que é impossível não sermos tocados (e nada tem que ver com ideologia política!).
Acreditem, ver um homem de aparência dura e circunspecta como Saramago assim tão dado ao afecto cúmplice é comovente e exemplar. Claro que considerando a sua escrita se percebe que não podia ser de outra maneira, por ser tão humana, tão preocupada com a individualidade e, mormente, com a individualidade da mulher. Citando Pilar del Rio, sem dúvida que se trata de um documentário "delicado, poético e dolorosamente real".

Deixo-vos os trailers brasileiro e português que são ligeiramente iguais:





«Sinopse»

«A Viagem do Elefante, o livro em que Saramago narra as aventuras e desventuras de um paquiderme transportado desde a corte de D. João III à do austríaco Arquiduque Maximiliano, é o ponto de partida para José e Pilar, filme de Miguel Gonçalves Mendes que retrata a relação entre José Saramago e Pilar del Río.

Mostra do dia-a-dia do casal em Lanzarote e Lisboa, na sua casa e em viagens de trabalho por todo o mundo, José e Pilar é um retrato surpreendente de um autor durante o seu processo de criação e da relação de um casal empenhado em mudar o mundo – ou, pelo menos, em torná-lo melhor.

José e Pilar revela um Saramago desconhecido, desfaz ideias feitas e prova que génio e simplicidade são compatíveis. José e Pilar é um olhar sobre a vida de um dos grandes criadores do século XX e a demonstração de que, como diz Saramago, “tudo pode ser contado de outra maneira”.»

terça-feira, 23 de novembro de 2010

cheira a ETAR: os boys da política


A história é exemplar. Exemplarmente, negativa. Soube dela pelo Manuel António Pina e fez-me corar de vergonha por ser possível. Já devia desconfiar: ser político é que está a dar! Vou tentar não me esquecer disso quando tiver de classificar os meus alunos. A notícia está no Público.

segunda-feira, 22 de novembro de 2010

caderno das memórias coloniais






Finalmente, apresento esta entrada sobre o Caderno das Memórias Coloniais de Isabela Figueiredo, que é ainda a autora de dois blogues, o concluído Mundo Perfeito e o actual Novo Mundo, ambos de enorme qualidade (e humor).
Ao saber do primeiro aniversário do Caderno, tive de ultimar esta entrada muito ligeira que esteve a marinar há, pelo menos, uns dez meses - quando terminei a sua leitura. Devo dizer que há muito que não era assim tocado, além de que me despertou a vontade de voltar depressa à literatura autobiográfica. Aliás, respondendo à dedicatória que me escreveu: apreciei demasiado a leitura.
Se não conhecem o livro ou a voz doce da autora, descubram-na nas entrevistas e nos excertos do
Caderno apresentados abaixo. Perceberão que, facilmente, se passa da ironia à denúncia, do amor ao ódio e ao choque. Um livro muito humano, basicamente.





»» Entrevista dada a Luís Caetano [03-04-2010] »»

»» Entrevista dada a Carlos Vaz Marques [20-01-2010] »»

»» A propósito dos lançamentos do Caderno, por Eduardo Pitta, Ana Luísa Amaral e Margarida Calafate Ribeiro.

domingo, 21 de novembro de 2010

artista da semana : Jason de Caires Taylor



Esta entrada poderia perfeitamente chamar-se vida marítima ou vida submarina ou arte subaquática ou arte viva ou criatividade pura. Ideias tão simples podem ter, como sempre, efeitos estrondosos, esmagadores. Haja alguém que negue o poder da arte em aproveitar e transformar.









Sítio de Jason de Caires Taylor (têm de perder/ ganhar algum tempo na galeria do artista!)


Cancun Underwater Museum




sábado, 20 de novembro de 2010

cimeira, reunião... whatever

Numa reunião da Cooperativa Alentejana:
- Compadres, este ano vamos comprar uma máquina nova para apanhar azeitonas, que faz tudo sozinha, ela recolhe as azeitonas das árvores, separa as folhas e ramos partidos e até retira os caroços. Vamos aumentar imenso a nossa produtividade e poupar muito na mão-de-obra.
- Isso parece realmente muito bom, compadre, mas diga-me lá, essa máquina também faz SEXO?
- SEXO? Oh compadre, claro que nãoooo...
- Antão deixe-se lá dessas modernices, oh compadre, e mande vir as moças do ano passado!


quinta-feira, 18 de novembro de 2010

igreja solidária ¿!





Até fiquei fodido comovido com o apoio ou solidariedade manifestada pela hierarquia católica a este padre pedófilo! E com a lata do gajo, também... caso para dizer que ainda há pessoas puras e inocentes neste mundo. Há coisas fantásticas, não há?

terça-feira, 16 de novembro de 2010

palavras que nos salvam : Eduarda Chiote


CEGA TRAGICIDADE

Hoje possuí-te o corpo
que te havia
abandonado. Estavas branco,
acabado de morrer
cegamente.
Só a mim cabia o cobrir-te a nudez
com a toalha de banho
ou o abandonar-te
no quarto do hotel,
chamando o porteiro de
urgência.
Ainda há pouco,
tomado de contracções, o teu pénis enrijecera,
e, para meu espanto,
ejaculara sozinho
e atónito.
Lasso, pendera para o lado esquerdo,
tombando
sob a tua virilha: um pequeno animal
dócil.
Toquei-o leve.
Reagiu, enfastiado.
Sustentava-o ainda uma tristeza
terrena: o resto de um cheiro
bom. A sémen.
Bebi-to, debruçada sobre
o que atravessara essa deliciosa
ferida, interrogando-a: - Então… és tu, prazer
amado, o fim de um homem?
A alma não dava, nele, o mínimo sinal
de recusa.
Colhi-a em minha boca.
E foi nesse instante que me apercebi
de que o nosso exílio
não seria nunca definitivo.
Debrucei-me sobre o recorte dos teus lábios
e aspirei neles o sopro da minha
própria fala.
Queimava.
O teu corpo era agora o meu
– uma frieza como jamais havia sentido, definindo
as dês(razões) do meu copular
a morte.


Eduarda Chiote
in Não me Morras »» Lisboa »» & etc. »» 2004 »» pp. 24-25


segunda-feira, 15 de novembro de 2010

rir ainda será o melhor remédio?

1 #
COMUNICADO do Gabinete do Primeiro Ministro
Faz o Governo saber que, até nova ordem, tendo em consideração a actual situação das contas públicas e como medida de contenção de despesas, a luz ao fundo do túnel será desligada.



2 #
Recessão é quando o vizinho perde o seu emprego;
depressão quando perdes o teu;
e recuperação quando Sócrates perder o dele.


3 #
Pediram ao polvo Paul para adivinhar o resultado das próximas eleições legislativas em Portugal. Entre a caixinha de comida com a foto do Sócrates, e a outra com a do Passos Coelho... O polvo preferiu morrer à fome!

domingo, 14 de novembro de 2010

quando formos grandes, queremos ser assim : Henryk Górecki

Henryk Mikołaj Górecki
[6 de Dezembro, 1933 † 12 de Novembro, 2010]



Apercebi-me ontem que tinha morrido anteontem o compositor de uma das obras que amo: Sinfonia nº 3 (Sinfonia da Lamentações) de Henryk Górecki. Já anteriormente aqui tinha posto duas entradas, mas, se não se lembram, ora ouçam estes três excertos:






sexta-feira, 12 de novembro de 2010

terça-feira, 9 de novembro de 2010

o homem do brinco



Certo dia, no escritório de advocacia, um homem reparou que o seu colega, muito conservador, estava a usar um brinco:
_ Não sabia que gostava desse tipo de coisas - comentou.
_ Não é nada de especial... é só um brinco - replicou o colega.
_ Há quanto tempo é que o usa?
_ Desde que a minha mulher o encontrou, no meu carro, na semana passada, e eu disse que era meu...

segunda-feira, 8 de novembro de 2010

inteligência artifical

Contexto: aula de 7º ano. Pergunta: qual a diferença entre estrelas e planetas? Resposta de uma aluna de 13 anos: então, é simples, os planetas são redondos; as estrelas têm pontas.
-.-

domingo, 7 de novembro de 2010

força de vontade

Os três vídeos de hoje são imperdíveis! Sobretudo para os (re)verem quando acharem que a vossa vida é uma porcaria! A sério, para ver e partilhar (e invejar, já agora) a forma bem humorada como é possível lidar com a sua própria deficiência e tirar partido da adversidade: além de ser linda e simpática, Aimee Mullins encarna uma força de vontade das mais positivas, inspiradoras e surpreendentes que já vi por aí. Os três vídeos têm legendas em português.

1



2



3


sábado, 6 de novembro de 2010

rebola a bola

Às vezes, o meu Zé sai-se com "rebola a bola, você diz que dá, que deu; rebola a bola, você na bola não deu". Pelo que me foi possível perceber é um tema tradicional do Norte de Portugal. No meio, descobri esta versão/ variante da Carmen Miranda. Vá tentem imitar-lhe a rapidez. E ela não toma só a letra nacional... reparem bem nas cores predominantes da sua indumentária. Parece coincidência, não é?!


quinta-feira, 4 de novembro de 2010

acordo ortográfico

Já aqui pus um texto eloquente de Teixeira de Pascaes sobre ortografia. Depois, ocorreu-me uma pergunta: o nome Luís António Verney alguma vez passou sob as vossas vistas? Conhecem-no? Sabem que foi o mais ilustre dos estrangeirados portugueses, certo? E conhecem a sua obra prima? O Verdadeiro Método de Estudar?






Pois bem, dêem uma vista de olhos e horrorizem-se: «omens», «oje», «avendo»… Enfim, podem argumentar que não havia acordo ortográfico, que nem sequer se pensava nisso. Claro que não, não havia necessidade para tanto, mas constatem mesmo assim como Verney se preocupa com a ortografia. Confesso: eu gostei mesmo foi da passagem marcada na imagem acima, em que se refere ao "c" mudo. Cito: “porque Ato, é mui boa palavra, e todos a-intendem.” Nem mais. Não é um mimo? Uma delícia. Uma preciosidade. Podem ler O Verdadeiro Método... no Google Books ou na Biblioteca Nacional Digital.

quarta-feira, 3 de novembro de 2010

[des]acordo


Professor Doutor (e padre, já agora) Fernando Cristóvão fala sobre o acordo ortográfico. Para o ouvir até ao fim e com muita atenção (dá para perceber que o testemunho já tem algum tempo, mas não perdeu nenhuma pertinência). A propósito, dêem uma vista de olhos pelo texto da Isabela: «A língua portuguesa é de borracha».

segunda-feira, 1 de novembro de 2010

sábado, 30 de outubro de 2010

foguetes


Um vídeo muito bonito e uma música de que até nem desgostei. Muito pelo contrário, como o prova a imagem animada abaixo.



quinta-feira, 28 de outubro de 2010

terça-feira, 26 de outubro de 2010

língua ousada



«compléxia - é uma bicha disléxia psicanalisada, com um pouco de conteúdo, geralmente de péssima categoria (a bicha e o conteúdo)»


No Brasil, nasceram dois dos melhores dicionários de Português: o Houaiss e o Aurélio. Mas há ainda outro, o Aurélia - A Dicionária da Língua Afiada, que é uma preciosidade com 1300 verbetes da autoria de Victor Ângelo e Fred Libi. Além do livro, é possível consultar on-line alguns dos termos listados.

Aí é possível descobrir expressões que são um verdadeiro e delicioso tratado sobre a criatividade da língua como “checar”, “atender”, “queimar a rosca”, “vaca de presépio”, “betty faria”, ou “bater um bolo”.

Algumas palavras ou expressões são engraçadas só de pronunciar: “zoraide”, “vera boiola”, “nefertite”, “besouro” ou “dadeira” ou “kika” ou “lacraia”, “margarete”, “mucica”, “jeba” e “necão”, “ocâni”, “neide” e “omivará”

Outras há que são autênticos enigmas quanto ao significado: “missa”, “sofá da hebe”, “tapuia”, “tô bege”, “vitaminada”, “zé Mané”... A lista é imensa. Exótica. Vale a pena a visita.





domingo, 24 de outubro de 2010

vҽnha maᴉs uma

Um viúvo, ao casar-se pela 11ª vez, disse carinhosamente ao marido:
- Meu amor, eu sou virgem!
- O quê? Mas, não foste casado 10 vezes? - perguntou o marido.
- Sim, disse o outro, mas o que aconteceu foi o seguinte: o 1° era político, só prometia e não cumpria; o 2° era bancário, só entendia de fundos; o 3° era poliglota, só entendia de línguas; o 4° era massagista, só esfregava; o 5° era caçador, só gostava de touros e vacas à mistura; o 6° era médico, só examinava; o 7° era juiz substituto, não tinha vara; o 8° era coveiro reformado, já não enterrava mais nada; o 9° era perfumista, contentava-se só com o cheiro; o 10° era do PS, quando estava por cima não fazia nada. E agora, a minha esperança és tu...
Surpreendido, o marido perguntou:
- E porquê eu?
- Então?!... és funcionário das Finanças: tenho certeza de que me vais foder!...


sábado, 23 de outubro de 2010

el gran casino europeo

Qualquer semelhança com a realidade não é pura coincidência. A magia da crise. A crise mágica. Ou antes: vira o disco, toca o mesmo e não há magia nenhuma na merda da crise.


sexta-feira, 22 de outubro de 2010

regresso?

Não, não se trata de nenhum regresso. Nem de comentários. Ainda. Serve a presente entrada para dizer isso e manifestar a minha surpresa: uma referência no GayFeed trouxe-nos muito mais tráfego aqui que uma outra no Da Literatura. Daí, é fácil concluir-se: viva a pornografia (soft/hard), abaixo as letras e a política! Acho que me vou dedicar à pornografia.

quinta-feira, 21 de outubro de 2010

lição de química


Depois do átomo e da descoberta do neutrão, do protão, do fotão, do electrão, do quark, do fermião, do busão, do gluão, José Sócrates Pinto de Sousa acaba de descobrir o pelintrão, um corpo sem massa nem energia que suporta toda a carga.



quarta-feira, 20 de outubro de 2010

dilema

Ivone Silva
ou Olívia Patroa ou Olívia Costureira
«Atenção à desgarrada,
desgarrada verdadeira
entre a Olívia que é patroa
e a Olívia que é costureira»


terça-feira, 19 de outubro de 2010

domingo, 17 de outubro de 2010

vҽnha maᴉs uma




Frases de banco

"Bom dia. Quero saber se o meu obstrato já chigou?"



"Queria o nibel da conta."


"Queria um carneiro de cheques."


"A minha retrete já veio?"


"Dou o meu abalo ao suscritor."


"Quero dissolver esta conta."


"Desculpe, a partir de que valor é que a conta fica negativa?"


"A sua colega que está na máquina multibanco ficou-me com as notas!"


"A máquina comeu o meu cartão Securitas!"


"O multibanco enganou-se. Posso falar com a senhora que está para ali a falar dentro da máquina?"


"Queria fazer umas perguntas sobre aquele cartão nespresso..."


"Estou muito nervosa, o meu cartão foi extraviolado..."


"Bom dia. Estou a chegar agora da França e venho aqui para ver se os seus chiffres batem com os meus..."


"Porque é que os cartões agora têm um chispe?"



[recebido por email]


quarta-feira, 13 de outubro de 2010

terça-feira, 12 de outubro de 2010

quorum ballet

Há tempos, umas amigas convidaram-nos e fomos ver Impacto. Achávamos que ia ser mais uma experiência. E foi. Mas não foi uma experiência qualquer porque foi intensa em cor, pensamentos, sons e movimentos exigentes de corpos sincronizados e elegantes; excedeu em muito as expectativas. A companhia chama-se Quorum Ballet, é dirigida pelo exímio Daniel Cardoso e é companhia residente dos Recreios da Amadora. Anotem o nome e não os percam de vista!





Esta última foto é de Nuno Abreu

segunda-feira, 11 de outubro de 2010

sábado, 9 de outubro de 2010

3 m p/ ficar s/ palavras

p.s.: na sequência das entradas anteriores, este vídeo sobre prendas apareceu hoje como se fosse o momento certo. Para os que não percebem inglês, saibam que ainda não tem legendas em português, mas aposto que não deve demorar muito a aparecerem (voltem mais tarde ou guardem a ligação).
A todos: absolutamente imperdível, absolutamente sem palavras.


sexta-feira, 8 de outubro de 2010

outro dia


Brian Eno, Just another day

Quando ele terminou, as mãos dela já não estavam frias, as suas ardiam, por isso foi que as mãos se deram às mãos e não se estranharam. Passava muito da uma hora da madrugada quando o violoncelista perguntou, Quer que chame um táxi para a levar ao hotel, e a mulher respondeu, Não, ficarei contigo, e ofereceu-lhe a boca. Entraram no quarto, despiram-se e o que estava escrito que aconteceria, aconteceu enfim, e outra vez, e outra ainda. Ele adormeceu, ela não. Então ela, a morte, levantou-se, abriu a bolsa que tinha deixado na sala e retirou a carta de cor violeta. Olhou em redor como se estivesse à procura de um lugar onde a pudesse deixar, sobre o piano, metida entre as cordas do violoncelo, ou então no próprio quarto, debaixo da almofada em que a cabeça do homem descansava. Não o fez. Saiu para a cozinha, acendeu um fósforo, um fósforo humilde, ela que poderia desfazer o papel com o olhar, reduzi-lo a uma impalpável poeira, ela que poderia pegar-lhe fogo só com o contacto dos dedos, e era um simples fósforo, o fósforo comum, o fósforo de todos os dias, que fazia arder a carta da morte, essa que só a morte podia destruir. Não ficaram cinzas. A morte voltou para a cama, abraçou-se ao homem e, sem compreender o que lhe estava a suceder, ela que nunca dormia, sentiu que o sono lhe fazia descair suavemente as pálpebras. No dia seguinte ninguém morreu.


José Saramago, As Intermitências da Morte, pp. 213-214

quinta-feira, 7 de outubro de 2010

llorando... a cappella

Já se sabe que David Lynch nunca foi muito dado à linearidade, às narrativas fáceis. Esta cena de Mulholland Drive continua a ser para mim um enigma, e o motivo por que está aqui é a arrepiante interpretação a capella da belíssima Rebekah Del Rio (tendo tempo e curiosidade, confiram a história da música). Quanto ao motivo por estar aqui hoje deve-se à data que alterou o nosso mundo de afectos.


Rebekah Del Rio, Llorando
(a partir do original de Roy Orbison)


E mais uma actuação ao vivo: http://www.youtube.com/watch?v=elDYQFD19RY

quarta-feira, 6 de outubro de 2010

o menestrel




Assim deveríamos crescer: um dia atrás de outro e com O Menestrel (cf. dicionário), atribuído a Shakespeare, como livro de cabeceira. É sobre a vida: o que ganhamos, o que perdemos, como crescemos. Para (re)ouvir e (re)ler com calma.




O MENESTREL
Um dia você aprende que...

Depois de algum tempo você aprende a diferença,
a subtil diferença, entre dar a mão e acorrentar uma alma.

E você aprende que amar não significa apoiar-se,
e que companhia nem sempre significa segurança.

E começa a aprender que beijos não são contratos
e presentes não são promessas.

E começa a aceitar as suas derrotas com a cabeça erguida
e olhos adiante, com a graça de um adulto
e não com a tristeza de uma criança.

E aprende a construir todas as suas estradas no hoje,
porque o terreno do amanhã é incerto demais para os planos,
e o futuro tem o costume de cair em meio ao vão.

Depois de um tempo você aprende que o sol queima
se ficar exposto por muito tempo.

E aprende que não importa o quanto você se importe,
algumas pessoas simplesmente não se importam...

E aceita que não importa quão boa seja uma pessoa,
ela vai feri-lo de vez em quando e você precisa perdoá-la por isso.

Aprende que falar pode aliviar dores emocionais.

Descobre que se leva anos para se construir confiança
e apenas segundos para destruí-la,
e que você pode fazer coisas em um instante,
das quais se arrependerá pelo resto da vida.

Aprende que verdadeiras amizades continuam a crescer
mesmo a longas distâncias.

E o que importa não é o que você tem na vida,
mas quem você é na vida.

E que bons amigos são a família que nos permitiram escolher.

Aprende que não temos que mudar de amigos
se compreendemos que os amigos mudam,
percebe que seu melhor amigo e você podem fazer qualquer coisa,
ou nada, e terem bons momentos juntos.

Descobre que as pessoas com quem você mais se importa na vida
são tomadas de você muito depressa,
por isso sempre devemos deixar as pessoas que amamos
com palavras amorosas, pode ser a última vez que as vejamos.

Aprende que as circunstâncias e os ambientes têm influência sobre nós,
mas nós somos responsáveis por nós mesmos.

Começa a aprender que não se deve comparar com os outros,
mas com o melhor que você mesmo pode ser.

Descobre que se leva muito tempo para se tornar a pessoa que quer ser,
e que o tempo é curto.

Aprende que não importa onde já chegou, mas onde está indo,
mas se você não sabe para onde está indo,
qualquer lugar serve.

Aprende que, ou você controla seus actos ou eles o controlarão,
e que ser flexível não significa ser fraco ou não ter personalidade,
pois não importa quão delicada e frágil seja uma situação,
sempre existem dois lados.

Aprende que heróis são pessoas que fizeram o que era necessário fazer,
enfrentando as consequências.

Aprende que paciência requer muita prática.

Descobre que algumas vezes a pessoa que você espera que o chute
quando você cai é uma das poucas que o ajudam a levantar-se.

Aprende que maturidade tem mais a ver com os tipos de experiência
que se teve e o que você aprendeu com elas
do que com quantos aniversários você celebrou.

Aprende que há mais dos seus pais em você do que você supunha.

Aprende que nunca se deve dizer a uma criança que sonhos são bobagens,
poucas coisas são tão humilhantes
e seria uma tragédia se ela acreditasse nisso.

Aprende que quando está com raiva tem o direito de estar com raiva,
mas isso não lhe dá o direito de ser cruel.

Descobre que só porque alguém não o ama do jeito que você quer
que ame, não significa que esse alguém não o ama,
pois existem pessoas que nos amam,
mas simplesmente não sabem como demonstrar isso.

Aprende que nem sempre é suficiente ser perdoado por alguém,
algumas vezes você tem que aprender a perdoar-se a si mesmo.

Aprende que com a mesma severidade com que julga,
você será em algum momento condenado.

Aprende que não importa em quantos pedaços seu coração foi partido,
o mundo não pára para que você o conserte.

Aprende que o tempo não é algo que possa voltar para trás.

Portanto, plante o seu jardim e decore a sua alma,
ao invés de esperar que alguém lhe traga flores.

E você aprende que realmente pode suportar...
que realmente é forte, e que pode ir muito mais
longe depois de pensar que não se pode mais.

E que realmente a vida tem valor
e que você tem valor diante da vida!

As nossas dúvidas são traidoras e fazem-nos perder o bem
que poderíamos conquistar, se não fosse o medo de tentar.


William Shakespeare

terça-feira, 5 de outubro de 2010

m[in]istério

Hoje, dia internacional do professor, para rir:



À porta do Ministério da Educação, na Av. 5 de Outubro, foi encontrado um recém-nascido abandonado. O bebé foi limpo e alimentado pelos funcionários que decidiram dar conhecimento do assunto à Ministra da Educação.

Depois de oito dias, é emitido o seguinte despacho, dirigido ao Secretário de Estado:
Forme-se um Grupo de Trabalho para investigar:
a) - Se o 'encontrado' é produto doméstico deste Ministério;
b) - Se algum funcionário deste Ministério se encontra com responsabilidades neste assunto.


Após um mês de investigação, o Grupo de Trabalho conclui:

'O encontrado' nada tem a ver com este Ministério pelas razões seguintes:
a) - Neste Ministério não se faz nada por prazer nem por amor;
b) - Neste Ministério jamais duas pessoas colaboram intimamente para fazerem alguma coisa de positivo;
c) - Neste Ministério tudo o que se faz não tem pés nem cabeça;
d) - No arquivo deste Ministério nada consta que tivesse estado terminado em apenas 9 meses.

segunda-feira, 4 de outubro de 2010

domingo, 3 de outubro de 2010

3D no Terreiro do Paço




Se tiverem tempo e curiosidade, passem pelo Terreiro do Paço/ Praça do Comércio até dia 5 para assistirem à projecção com video mapping da Frente Tejo (às 21h30 e 00h). Interessante e com sabor a pouco. Depois, se quiserem confrontar com outras experiências do género, eis um exemplo superior e outro exemplo sensacional.

«Gosto de...» de Hilda Hilst

A propósito do filme Do Começo ao Fim que vimos no Queer, continuamos pelo Brasil com literatura boa e despudorada: Hilda Hilst.

II

«Chama-se Alberto. Chamo-o de Albert à cause do meu querido Camus. O único. É belo igual a ele. (...) Perdoa-me, Cordélia, mas a não ser tu, minha irmã e tão bela, não tive um nítido e premente desejo por mulher alguma. Mas sempre gosto de ser chupado. Então às vezes seduzo algumas de beiçolinha revirada. Mas o falo na rosa, nas mulheres, só in extremis. (...) Gosto de corpos duros, esguios, de nádegas iguais àqueles gomos ainda verdes, grudados tenazmente à sua envoltura. (...) Gosto de cu de homem, cus viris, uns pêlos negros ou aloirados à volta, um contrair-se, um fechar-se cheio de opinião. E as mulheres com seus gemidos e suas falações e grandes cus vermelhuscos não me atraem. (...) Bunda de mulher deve dar bons bifes no caso de desastre na neve. (...)»


Hilda Hilst (1930-2004), Cartas de um Sedutor, Porto: Campo das Letras, 2004



sábado, 2 de outubro de 2010

Regina Casé ϟ direito do viado

Fiquei fã da actriz Regina Casé quando há uns anos fez uma reportagem em Portugal e gozou connosco de uma forma inteligente - ainda não consegui encontrar o vídeo (nada da baixaria que a Maitê fez). Esta sua palestra sobre media e a cultura popular 'não-oficial' é muito interessante (quem se lembraria de tecnobrega? de cyber tecnobrega?), mas se não quiserem ver o vídeo todo, abreviem e vão à conclusão, mais concretamente ao minuto 14:05.
Depois do suicídio de mais um rapaz nos EUA que não aguentou a violência da humilhação (cf. discurso de Ellen DeGeneres), mais as eleições amanhã no Brasil, gosto de ver pessoas defenderem entusiasticamente soluções originais. E depois vejam o segundo vídeo, referido pela Regina Casé - dos vários que há no youtube, escolhi este pela performance e pela plateia siderada na escadaria.


Regina Casé, Central da Perfiferia (TEDxSP 2009)




Gerônimo Santana, Direito do Viado (Direito Cidadão)

sexta-feira, 1 de outubro de 2010

'bora dar 1 volta?

'Bora dar uma volta de wingsuit? Pode servir para esquecer a crise e tal. E é mesmo o ideal para mim. Logo eu que tenho medo de alturas e pavor de velocidade.