domingo, 15 de junho de 2008

..:: cantiga d'escarnho [III] ::..



Fernan Díaz é aquí, como vistes,
*
e anda en preito de se casar;
mais non pod'ò casamento chegar
- d'ome o sei eu, que sabe com'é;
e, por aver casament', a la fé,
d'ome nunca vós tan gran coita vistes.

E por end'anda vestid'e loução
e diz que morre por outra molher;
mais este casamento que el quer,
d'ome o sei eu que lho non daran;
e por este casamento (d)el, de pran,
d'ome atal coita nunca viu cristão.

Ca d'Estorga atá San Fagundo
don'á que a de Don Fernando torto,
ca por outro casamento anda morto
d'ome o sei eu, que o sabe já;
e se este casament'el non á,
d'om'atal coita nunca foi no mundo.



Cantiga de escarnho (sátira contra os homossexuais) de Airas Perez Vuitoron »» in Cantigas de Escárnio e Mal-Dizer »» comentários de Carlos Miranda, seguindo a proposta de Rodrigues Lapa »» Sacavém »» Palimpsesto »» pp. 141-142



* [Esta cantiga sugere que Fernão Dias, que andava a preparar o seu casamento, tratava de um "casamento d'ome" que não foi consentido.]



sexta-feira, 13 de junho de 2008

..:: 13 de junho :: antónio de lisboa (pádua?) ::..

Fernando Martim de Bulhões e Taveira Azevedo
(ou Fernon Martin di Bulhon y Tavera Azeyedo)
ou
Santo António de Lisboa
ou
Santo António de Pádua
[Lisboa, 15 de Agosto de 1195 † Pádua, 13 de Junho, 1231]



..:: 13 de junho :: al berto ::..


Alberto Raposo Pidwell Tavares
[Coimbra, 11 de Janeiro, 1948 † Lisboa, 13 de Junho, 1997]


Depois da homenagem que já lhe deixei pelas palavras de outros (cf. aqui e aqui), cá está mais um poema, um dos que faz parte de WordSong.
free music


Recado

ouve-me
que o dia te seja limpo e
a cada esquina de luz possas recolher
alimento suficiente para a tua morte

vai até onde ninguém te possa falar
ou reconhecer – vai por este campo
de crateras extintas – vai por essa porta
de água tão vasta quanto a noite

deixa a árvore das cassiopeias cobrir-te
e as loucas aveias que o ácido enferrujou
ergueram-se na vertigem do voo – deixa
que o outono traga os pássaros e as abelhas
para pernoitarem na doçura
do teu breve coração – ouve-me

que o dia te seja limpo
e para lá da pele constrói o arco de sal
a morada eterna – o mar por onde fugirá
o etéreo visitante desta noite.

não esqueças o navio carregado de lumes
de desejos em poeira – não esqueças o ouro
o marfim – os sessenta comprimidos letais
ao pequeno-almoço


Al Berto »» in Horto de Incêndio »» Assírio & Alvim »» 1996 »» p. 9

..:: 13 de junho :: fernando pessoa ::..


Fernando António Nogueira Pessoa
[Lisboa, 13 de Junho, 1888 † Lisboa, 30 de Novembro, 1935]


Conselho

Cerca de grandes muros quem te sonhas.
Depois, onde é visível o jardim
Através do portão de grade dada,
Põe quantas flores são as mais risonhas,
Para que te conheçam só assim.
Onde ninguém o vir não ponhas nada.

Faze canteiros como os que os outros têm,
Onde os olhares possam entrever
O teu jardim como lho vais mostrar.
Mas onde és teu, e nunca o vê ninguém
Deixa as flores que vêm do chão crescer
E deixa as ervas naturais medrar.

Faze de ti um duplo ser guardado;
E que ninguém, que veja e fite, possa
Saber mais que um jardim de quem tu és
Um jardim ostensivo e reservado,
Por trás do qual a flor nativa roça
A erva tão pobre que nem tu a vês...


Fernando Pessoa

quinta-feira, 12 de junho de 2008

..:: aqui vamos nós ::..



Graças ao Sto António, lá vamos poder ir à minha aldeia. Quem for para os santos, divirta-se muito, mas eu já não tenho muita paciência para confusões. A emissão continua a partir de lá das montanhas.

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terça-feira, 10 de junho de 2008

~~ as vozes ~~



Ontem fomos ver (ouvir) o concerto das Le Mystère des Voix Bulgares. São um coro de vozes femininas, especialmente dotadas, criado há mais de 50 anos com o objectivo de enriquecer a herança do folclore búlgaro com harmonias e arranjos que realçam os seus maravilhosos timbres e ritmos irregulares. Sem recorrer a quaisquer artifícios (também porque não precisam deles), as vozes límpidas transportam-nos para dimensões apenas limitadas pela capacidade do espectador. É um quadro sonoro que se abre numa imensa explosão de cores. Em 1975, o produtor suíço Marcel Cellier lançou o primeiro disco sob o nome Le Mystère des Voix Bulgares, com o qual as revelou ao Mundo. Seguiram-se mais oito, um dos quais, o Volume II, foi galardoado com um Grammy em 1994. Simplicidade, humildade e a pureza do instrumento voz humana fizeram da noite de ontem uma das melhores dos últimos tempos. Já perceberam que viemos de "alma cheia", certo?



Já o fiz particularmente, mas aqui ficam os parabéns públicos ao grupo e, já agora, à Incubadora d'Artes pela ideia e pela coragem de nos terem oferecido esta possibilidade. Aqui fica o programa e alguns vídeos.





Polegnala e Todora




..:: anda cá, hoje tens de ouvir esta ::.. DULCE PONTES


Dulce Pontes, O Amor a Portugal

domingo, 8 de junho de 2008

~~ cruzes, credo! ~~

Haverá cura para isto?
Talvez a Informática seja coisa do Demo, mas não será também do dito escrever (e publicar!) mau português? O pronome oblíquo átono usado (neste caso, o fenómeno é conhecido, como todos sabem, por ênclise) está errado porque obedecer não é transitivo directo e, logo, não selecciona um pronome pessoal complemento directo mas indirecto. Isto é, não se obedece "uma coisa", obedece-se "a alguma coisa". Ora aprendam que o Mestre nem sempre está de bom humor!

Anúncio lido no DN de 08 de Junho de 2008.

..:: « ver claro » ::..

Ver Claro


Toda a poesia é luminosa, até
a mais obscura.
O leitor é que tem às vezes,
em lugar de sol, nevoeiro dentro de si.
E o nevoeiro nunca deixa ver claro.
Se regressar
outra vez e outra vez
e outra vez
a essas sílabas acesas
ficará cego de tanta claridade.
Abençoado seja se lá chegar.


Eugénio de Andrade [19 de Janeiro, 1923 - 13 de Junho, 2005]

sábado, 7 de junho de 2008

..:: ver claro ::..

o fim das gravações | as montagens | o produto final: 58 minutos, 16 clipes, um por poema, seguindo um princípio de continuidade e funcionando, portanto, individualmente e em conjunto | o dia da exibição foi ameaçado por uma greve na função pública | vá lá que deu para abrir a escola | na sala e hora marcadas, alunos e professores foram aparecendo | gente a mais para aquela sala | não me conseguia fazer ouvir, mas tinha algumas palavras a dizer | disse | começou e não era audível porque as colunas eram más | receei o pior | houve momentos em que os alunos se riram quando apareceram certos colegas seus | a partir de certa altura, perceberam que aquilo não era uma brincadeirinha e houve um silêncio, senão total, pelo menos quase total | aplaudiram efusivamente a aluna que cantou, e muito bem | o último poema/clipe era especial: lido quase exclusivamente por professores e funcionárias | interrompi para informar que aquele poema lhes era (alunos) dedicado, uma espécie de testamento para o seu futuro | tive uma colega que veio agarra-se a mim | houve quem tivesse chorado (e não estou a exagerar!) | eu que já conhecia aquilo de trás para a frente, sabia que tinha de me controlar | um homem não chora… | consegui, mais não fosse para não ter mais professores a chorar à frente dos alunos | portanto, gostei do resultado | todos os que viram e têm visto, gostaram | uma espécie de documentário poético em jeito de despedida da escola | uma colega propõe fazer cópias do filme, contactar uma empresa para o fazer | estou sem tempo ou vontade para isso | o Executivo propõe-me que seja eu a fazê-lo | pode ser: 100 | só me deu trabalho, mais nada | que bom, gosto mesmo de ser otário | recebo reacções inesperadas, por email, telefone, em presença | dizem-me que quando decidir sair do ensino que vá para realizador | só para rir | uma funcionária recebe-me com dois beijos entre o eufórico e o apaixonado | diz-me que o que fiz tem de sair dos muros da escola | concordo | mas isso, ultrapassa-me em absoluto | primeiro, tenho de descansar a cabeça, dormir dois ou três dias, até os neurónios voltarem ao sítio | sinto que deve e tem de ser divulgado de outra forma além daquela que foi e tem sido feita na escola | acontece que algumas velhas vozes do Restelo não deram vazão à minha ideia inicial de criar uma conta oficial no Youtube ou Dailymotion | fiquei desiludido, desmotivado | em todo o caso, decidi contornar ligeiramente a coisa | as injecções massivas de auto-estima, por causa do filme e do texto lido na Antena 1, encheram-me o ego | rejuvenesceram-me | entretanto, perdi conta à confusão dos dias: o Zé na Bélgica | o computador que bloqueia com uma insistência de louco | a consulta de urologia que serviu para confirmar o que o outro urologista já me tinha dito | siga para bingo | a carta de condução | não tenho lido nada, o que faz com que o cérebro hiberne, pare algures entre a mediocridade e a limitação vocabular | é verdade: ando ainda com a visão perturbada (mas já menos que nas últimas semanas) e o discurso desconexo | noto-o ainda na cara e alguns risos dos alunos e colegas | o portátil Acer sem arranjo | vá lá que o disco ficou intacto | decidi: vou comprar uma torre e que se lixem os portáteis | quando for rico, compro um Mac | estou ainda a descomprimir e não sei quando voltarei a visitar regularmente @s que não desistiram de nos visitar aqui | O VOSSO APOIO TEM SIDO ESSENCIAL (até para manter o felizes juntos, que, em momentos de crise existencial e/ou de tempo, uma das primeiras coisas que me ocorrem é logo acabar com ele) | em todo o caso, as coisas tenderão a normalizar-se por aqui | Maio chega ao fim enevoado | afinal, ainda há mundo | vem o sol e a luz radiante que me animam sobremaneira | se quiserem conferir uma pontinha da minha carolice, digam-me, por email, que eu mando as coordenadas | beijos e abraços apertados


(...)
Does that make me crazy
Does that make me crazy
Does that make me crazy
Possibly
(...)

Well, I think you're crazy
I think you're crazy
I think you're crazy
Just like me

My heros had the heart, to put their lives out on the limb
And all I remember, is thinking I want to be like them
Hmm mmm
Ever since I was little
Ever since I was little it looked like fun
And its no coincidence I've come
And I can die when I'm done

Maybe I'm crazy
Maybe you're crazy
Maybe we're crazy
Possibly

quinta-feira, 5 de junho de 2008

..:: interrupção para uma longa coçadela ::..

Eis alguma arqueologia dos meus dias, palavras num efeito de torrente, isto é, num elogio do banal quotidiano. Menin@, coragem!



Ora bem, a confusão começou quando me pediram na escola ideias para um dia de poesia | quando me pedem ajuda, os meus olhos brilham e os neurónios entram em erupção | surgiram-me umas quantas ideias | todas foram aceites, ainda que modificadas, depois | uma delas inspirada na iniciativa que o Imperador apresentou | mãos à obra: escolher poemas, programar turmas, ajustar horários | nunca fiz uma coisa desta envergadura | desconhecia o resultado | apesar de nem sempre o fazer, gosto de magicar alguma coisa especial, mas normalmente só costumo envolver os meus alunos | este ano, tive a oportunidade de fazer mais e armei-me em especial de corrida | começa a saga: gravações, fotocópias, opiniões | o desafio: filmar o máximo possível da escola: vou às aulas das minhas colegas de grupo | uma enormidade, claro está | posteriormente lembrei-me dos professores e dos funcionários, tudo ao molho e fé em deus || dia 5 (segunda-feira): fotocópias | testes | preencho fichas de avaliação de uma turma | por não ter conseguido uma câmara digital, recorro à minha máquina fotográfica com vídeo pequeno mas suficiente | constato afinal que a captação de som da câmara até nem é má | siga || dia 6: carrego o passe | faço gravações | reunião de avaliação | aula de condução no final do dia | janto com a Inês e com a Sofia nos Tibetanos | desde Janeiro que não o fazíamos, bolas | chego a casa e faço mais testes || dia 7: desmarco explicação | troco uma aula | faço muitas gravações | diz-me a Ana que eu trabalho muito bem sob pressão | estou exausto e desanimo-me (enfureço-me também) numa turma de insubordinados | assino os papéis das férias: 25 dias | deixo testes a fotocopiar | faço mais cópias dos poemas para distribuir a quem os vai ler (10, inicialmente) | vou a casa | adormeço ao computador | acordo em cima da aula de condução | corro | vá lá que é perto | a aula de condução não corre lá muito bem | depois do jantar apressado: Pina Bausch no CCB | excelente || dia 8 (quinta-feira): pago a renda | vem a Aida para uma vídeo-chamada que não se concretiza | levo um filme sobre poesia para mostrar aos alunos | o Zé vem almoçar a casa | passo pela escola de condução para marcar o exame | uma saga de uma hora e lá chega um dia possível | que seja! | não vou a tempo da aula de substituição que dou hoje às 15h30m | apanho um táxi com motorista simpático, inteligente e bom conversador | gostei do tipo | são-me desmarcadas algumas gravações para hoje e sexta-feira, o que implicará fazê-las na semana seguinte | bolas | chego a casa, ligo o portátil Acer… nada | morreu | nada de acordar para a vida | merda | merda | merda | preciso do computador! | deste! | tenho o de recurso: o portátil Toshiba da e-escola, uma merda lenta com Vista | não me adaptei nem ao Vista nem à lentidão do seu processador | tenho de instalar programas | mais um dia em que me deito tarde e outro em que acordo de madrugada || dia 9: hoje também dou uma aula de substituição | passo o final do filme que comecei a mostrar ontem | os miúdos chateiam-me e levam uma seca descomunal | é assim: conforme tocam, assim eu danço | já deviam ter percebido essa parte | tenho que escrever uma crónica para domingo | ah, a falta de inspiração | respondo finalmente ao convite para o Restô | ui, esse deve ser carote | que não | desmarcam-me uma aula de condução e eu desmarco outra | marco mais 5 | mais dinheiro deitado fora porque sou um nhurro nervoso que não aprendeu com o número de aulas regulamentares | que seja | está visto que o orçamento mensal não vai chegar até ao próximo ordenado | começo a seleccionar músicas possíveis | mostro o resultado de uma primeira montagem a alguns colegas | as reacções são muito boas | ok, posso continuar e a partir daqui é só para surpreender | descarrego a trial version do Adobe Premiere | não percebo muito e começo às apalpadelas | o Premiere torna o Toshiba ainda mais lento | enfurece-me até às lágrimas || dia 10: deixo uma mensagem de parabéns ao Francisco errado | não desfaço a barba | monto os dois primeiros clipes | gosto do resultado surpreendente | afinal, o Premiere é fantástico | o precessador é que é lento e acaba-me com a paciência | começo o terceiro clipe (agora, já tenho 16 planeados) | há que me despachar a correr para o jantar do X | chegamos 15 minutos atrasados | parabenizamos o aniversariante que leva com uma caixa de Weetabix | é o costume quando estamos inspirados | conhecemos a Sónia e o Graphic, revejo o Rainha do Nada, tantos anos depois (7 para ser exacto) | subimos para o paquistanês | comida boa | companhia boa | cigarro atrás de cigarro com o Rainha, ao frio | esclarecido o mal-entendido, comigo em modo acelerado | chegamos a uma pontinha do presente | conversei pouco com o Graphic! | no final do jantar, seguimos para casa: o cansaço não permite divagações festivas | a boleia santa do amigo Pinguim que nos pôs ao corrente de novidades bloguísticas e nos incentivou (obrigou?) a ler o post do Socrates | assim será | não escrevi a crónica, sinto-me mal quando falho um compromisso || dia 11 (domingo): acordo cedo | inspiro-me no imperador Tongzhi e na mensagem (linda) do Zé a dizer-me que me ama em português com sotaque inglês | deixo uma mensagem no blogue a avisar a minha falta de tempo | levamos o lixo para a reciclagem e tomamos o café, como procedemos todos os domingos | o Zé vai para o pai | já em casa, escrevo a merda de um texto | tenho a noção disso | combino o programa para o dia da poesia lá na escola com a delegada de português | dou-lhe conta do andamento das montagens que já fiz e que faltam fazer, ainda sem o computadorzinho Acer lindo | neste, nem nas teclas certas acerto | raiva | e três dias depois algum conformismo | monto um dos clips mais complicados, por ser longo | confirmo: as músicas que selecciono combinam, não na perfeição, mas combinam | faço o jantar (nas últimas refeições tem sido o Zé) | deitamo-nos tarde, o Zé tem esperado por mim | estou exausto, adormeço num ápice | afinal o café nunca me tirou o sono || dia 12: para não variar, acordo mais cedo do que precisava | o telemóvel descarregado fica em casa | vou pôr o computador a arranjar | afinal, a loja não abre às 9h, mas às 10h | espero, tenho tempo | o tipo que me atende, sorri | ok | percebo que não seria fácil | talvez no final do dia esteja a funcionar | ai, espero bem que sim, a bem da minha sanidade mental | preciso de estar na escola às 12h para nova ronda de filmagens | engraçado como os alunos reagem às gravações: com resposta rápida, tímida, de indiferença, de entusiasmo contagiante | há turmas que são um consolo, outras uma decepção | ando exausto | dia cinzentão | não tenho tempo para sentir a pressão do exame de condução lá mais para o final do mês | lembro-me: só corrigirei os testes depois de dia 21 | os meninos têm de esperar, o motivo é nobre || dias 13 e 14: termino as gravações com o poema lido por professores e funcionários | gosto de saber que a ideia é bem acolhida | recebo um par de emails de duas colegas que nem conheço muito bem mas que me enchem o ego | ponho o vídeo de divulgação da iniciativa no dailymotion | bem, não me quis armar em realizador, mas ao fim e ao cabo foi o que fui


chego exausto ao fim deste texto, registado no caderninho de apontamentos a 14 de Maio e, por falta de ocasião, só agora aqui aparece | não fica por aqui a explicação do meu silêncio virtual, desenvolvimentos nos próximos dias | a seguir, o vídeo de onde me surgiu a ideia




terça-feira, 3 de junho de 2008

..:: palavras que nos salvam ::.. Viviane Mosé

Receita pra lavar palavra suja


[aconselho que acompanhem com o poema declamado, basta clicar aqui que abre o windows media]




Mergulhar a palavra suja em água sanitária.
Depois de dois dias de molho, quarar ao sol do meio-dia.
Algumas palavras quando alvejadas ao sol
adquirem consistência de certeza. Por exemplo a palavra vida.
Existem outras, e a palavra amor é uma delas,
que são muito encardidas pelo uso, o que recomenda esfregar
e bater insistentemente na pedra, depois enxaguar em água corrente.
São poucas as que resistem a esses cuidados, mas existem aquelas.
Dizem que limão e sal tira sujeira difícil, mas nada.
Toda tentativa de lavar a piedade foi sempre em vão.
Agora nunca vi palavra tão suja como perda.
Perda e morte na medida em que são alvejadas
soltam um líquido corrosivo, que atende pelo nome de amargura,
que é capaz de esvaziar o vigor da língua.
O aconselhado nesse caso é mantê-las sempre de molho
em um amaciante de boa qualidade. Agora, se o que você quer
é somente aliviar as palavras do uso diário, pode usar simplesmente
sabão em pó e máquina de lavar.
O perigo neste caso é misturar palavras que mancham
no contato umas com as outras. Culpa, por exemplo,
a culpa mancha tudo que encontra e deve ser sempre alvejada sozinha.
Outra mistura pouco aconselhada é amizade e desejo, já que desejo,
sendo uma palavra intensa, quase agressiva, pode,
o que não é inevitável, esgarçar a força delicada da palavra amizade.
Já a palavra força cai bem em qualquer mistura.
Outro cuidado importante é não lavar demais as palavras
sob o risco de perderem o sentido.
A sujeirinha cotidiana, quando não é excessiva,
produz uma oleosidade que dá vigor aos sons.
Muito importante na arte de lavar palavras
é saber reconhecer uma palavra limpa.
Conviva com a palavra durante alguns dias.
Deixe que se misture em seus gestos, que passeie
pela expressão dos seus sentidos. À noite, permita que se deite,
não a seu lado mas sobre seu corpo.
Enquanto você dorme, a palavra, plantada em sua carne,
prolifera em toda sua possibilidade.
Se puder suportar essa convivência até não mais
perceber a presença dela,
então você tem uma palavra limpa.
Uma palavra limpa é uma palavra possível.


Viviane Mosé »»

segunda-feira, 2 de junho de 2008

~~ TGV ~~

É cada vez mais agradável viver neste país! Hoje, engalanado e filosófico, o chefe do governo lançou o concurso público para a construção da linha Lisboa-Madrid. O que ele não disse foi o seguinte:

- a viagem entre Évora e Lisboa (30 minutos) vai custar 30 euros;

- a viagem entre Toledo e Madrid (25 minutos) custa 12,5 euros.

Como dizia " o outro", é fazer as contas...!
Y viva España! Olé!

~~ olhar p'rò perto ~~

O momento em que esta notícia surge é, no mínimo, curioso. Todos seguimos o caminho da Phoenix até Marte, planeta distante e misterioso. Porém, por cá ainda há segredos por revelar. Leiam e surpreendam-se.

Lido inicialmente aqui.

..:: « a boca na broca » ::..


Read this doc on Scribd: a boca na broca

In NS 125 de 31 de Maio de 2008.

~~ diga? ~~

Tive que ler duas vezes. Afinal o senhor tem 81 anos!

In NS 125 de 31 de Maio de 2008.

domingo, 1 de junho de 2008

~~ Madonna ~~


Confesso que assisti à chegada da senhora à cena musical mundial com alguma desconfiança. Todavia, com o passar do tempo, fui-me rendendo ao seu profisionalismo e dedicação à música. Madonna é hoje uma referência inevitável. À música juntam-se todas as outras componentes de um espectáculo. Se se pode duvidar, por vezes, da qualidade da primeira, há que dar a mão à palmatória no que toca às seguintes. É isso que espero (esperamos) ver na Bela Vista em Setembro. O acesso à festa já está garantido. Custou o que já se sabe e uma hora na fila. Cheira-me que vamos por lá encontrar muitas das almas amigas do FJ, certo?

..:: entre o cá e nenhum lá ::..

Maio foi um mês bizarro: cheio de coisas muito boas e de outras que nem sei como classificar. Ando a modos que cansado, farto, chateado. É fácil de perceber: há já algum tempo que não me dava a macacoa… Mais uma vez, veio e em força. Acaba por passar. Em compensação, continuo cheio de trabalho e com uma forte sensação de que nada vale a pena, embora receba sinais de que não é bem assim. Mas que adianta, se a auto-estima não ajuda? Espero conseguir falar das coisas nos próximos dias, por agora a minha cabeça ainda rodopia em sensações estranhas, entre o cá e nenhum lá.



domingo, 25 de maio de 2008

~~ ainda Bruxelas ~~

Viajar sozinho é uma chatice. Viajar com quem se ama, um prazer. Viajar num misto de trabalho e lazer, em grupo, pode ser ... divertido.
Vem isto a propósito da minha viagem à Bélgica sobre a qual queria escrever mas que afazeres diversos e a preguiça dos dias têm vindo a adiar. É hoje!
Antes do relato convém dizer que a viagem foi feita com um grupo de antigos alunos meus. Ninguém se atrasou para o encontro no aeroporto. Não nos víamos há algum tempo, pelo que o último café em terras lusas soube a reencontro e memórias revividas. Não avançámos para o check-in sem lembrar as restrições ao transporte de líquidos na cabine do avião. Na segurança, antes da porta de embarque, uma senhora ficou retida. Faltam 20 minutos para o voo. Vemos, intrigados, aquela senhora voltar para trás e desaparecer na curva do corredor. Somos informados que, numa mala de mão, traz frascos de champô e cremes diversos que foi, a conselho dos seguranças, tentar, ainda, enviar para o porão. A senhora reaparece. Faltam 10 minutos para o voo. Suspiro de alívio, ou talvez não. A dita senhora, do alto dos seus mais de sessenta anos, achou que tinha experiência de vida suficiente para contornar a situação. Os frascos voltam a aparecer no filme pois haviam sido transferidos da maleta para ... os bolsos do casaco! Perante o pânico generalizado vemos a senhora desaparecer novamente do nosso campo de visão. Onde terá ela ido? Do mal, o menos, a demora foi pouca e lá veio ela ter connosco, sem os frascos, portanto. Soube mais tarde que tinha ido enviar os "seus" artigos para casa pelo correio! Há prioridades, certo?
Bom, estamos em cima da hora de partida e eu, armado em follow me, abro alas corredor afora até à porta de embarque. No respectivo balcão está uma senhora que, quando me aproximo, me pergunta:
- Voo XXX para Bruxelas?
Respondo timidamente que sim e a minha interlocutora pega no telefone com o ar mais enfastiado deste mundo (e arredores!) e ouço-a dizer:
- Os passageiros que estão em falta, não sei por onde andaram, mas, estão agora a chegar.
Confesso que não tive coragem nem para emitir o mais tímido dos sons. Limitei-me a contar os elementos do grupo, não fosse o diabo tecê-las.
- Onde é que está a XXXXX?
- Não sei. Se calhar foi em frente no corredor!
- Ora essa! Ó SSSSS, deixe-me o seu BI e o cartão de embarque e vá ali acima ver se a vê.
Segundos depois lá chegaram a XXXXX e o SSSSS. Ufa!
Lá veio um autocarro para nos conduzir até ao avião que nos esperava. O que qualquer pessoa faria, pensava eu, seria apressar-se a abandonar o autocarro e entrar no avião, certo? Errado. Mais uma vez, outras prioridades se impunham, como tirar fotografias, alinhar golas e ajustar saias.
Tentei fingir que não conhecia aquela gente de lado nenhum mas vi-me obrigado a empurrar umas quantas para a escada do avião.
O voo decorreu sem outros incidentes dignos de registo, para além do rebentamento de uma caneta nas mãos da Sra. Frasco de Champô que ficou com as ditas mais azuis do que o céu que nos rodeava.
(...)
Ficámos instalados no que tinha sido um hotel de cinco estrelas recentemente despromovido para quatro, e como percebo agora porquê!
Como era muita gente, a Recepção deu-nos as chaves em envelopes com o número dos quartos. Subi, acompanhado por uma colega com quarto no mesmo piso. Antes de ela fechar a porta, ouvi-a quase gritar que o quarto não estava limpo. Eram 19.00 horas. Não, isto eu tenho que ver. Voltei para trás e confirmei o facto. Enquanto ligávamos para a Recepção, entrou a funcionária tão desfeita em desculpas quanto embaraçada com a situação. Situação resolvida, vou para o meu quarto pensando no azar da minha colega e em como, afinal, tudo se tinha resolvido. Pensando, disse bem. Meto a chave à porta, abro e ... ouço vozes lá dentro. Peço mil perdões, confirmo o número do quarto no envelope e na porta, uma vez, duas vezes ... Está certo! Sem perceber o incidente, dirijo-me (com a mala!) para o elevador a caminho da Recepção.
- Olhe que este quarto já está ocupado!...
Poupo-vos os detalhes do diálogo e da troca de impressões entre tudo o que era recepcionista de serviço. Finalmente entregam-me a chave de outro quarto, tendo eu o cuidado de, meio em gozo, meio a sério, perguntar se tinham a certeza de aquele quarto estar livre.
- Mais, oui, Monsieur!
Pronto, então lá vou eu. Elevador, corredor interminável, porta do quarto. Assim como assim, deixa-me cá confirmar o número do quarto. Olho para o envelope, olho para a porta. Está certo! Meto a chave, abro a porta ... ouço vozes. O quarto está ocupado! Desfaço-me em desculpas. Senti-me no ensaio de uma qualquer peça de teatro do absurdo. Afinal, tinha feito a cena há menos de nada.
Corredor, elevador, Recepção.
- O quarto que me deu também está ocupado!...
Desta vez, o cansaço da viagem e de um dia em que grande parte do programa oficial fora cumprido, aliado à natural irritação que uma situação destas provoca em qualquer mortal, estava (senti-o eu) bem estampado no meu rosto.
Foi novamente reunido o séquito de recepcionistas mas, desta vez, complementado por alguém com ar de chefe. Discute aqui, investiga acolá, papel para cá e para lá...
- Un moment, Monsieur.
Estava realmente cansado, mas o ar aflito com que tentavam perceber e resolver o problema divertia-me.
- Para compensar pelo incómodo vamos atribuir-lhe a suite do último andar do hotel.
Ri por dentro e respondi um lacónico e cerimonioso:
- Merci.
(...)
Houve outras peripécias nesta curta viagem, como aquela em que, ao sair do Metro nos deparámos com o Gay Pride. Ena, que animação!
Bruxelas é uma cidade de serviços que vive à sombra das instituições da União Europeia, nomeadamente do Parlamento, mas tem o seu encanto e recantos que vale bem a pena visitar. Já para não falar de Bruges, cidade que muito me surpreendeu.

domingo, 18 de maio de 2008

..:: hello ::..

Bem, estou mesmo vivo! Não é incrível? Ainda não acabei o que me tem ocupado nos últimos dias com tanta exclusividade. Portanto, não vale a pena bater na tecla do não ter tempo para existências virtuais, pois acho que toda a gente já percebeu essa parte. Maio está a ser um mês particularmente difícil, caramba. Por ora, ainda só vos digo que é fantástico e merece toda a dedicação que lhe tenho dado! Depois revelo tudo, por enquanto é meio segredo. Ah, nas próximas duas semanas, o ritmo não será muito diferente, ou seja, não acalmará. Não me assusta, mas, se é que vos interessa saber, lamento confirmar que continuarei sem tempo para vir aqui, passar por aí, responder a emails, etc.
De resto, o meu homem já chegou bem e salvo, apanhou o gay pride em Bruxelas, mas não trouxe mais nenhum homem cá para casa (também, para dizer a verdade, não caberia cá). Bom, vou ao que me ocupa. Fiquem aqui com um gajo podre de. E boa semana. Vamos-nos vendo(?)! Beijos e abraços!


..:: o homem dos nossos sonhos ::.. Marco Dapper

Marco Dapper (9 de Julho, 1983)














A maioria das fotografias são do fantástico Adam Bouska (o álbum com este menino está aqui)

terça-feira, 13 de maio de 2008

~~ voyage ~~

Bom, vou ali, já venho. Ainda dou um salto ali e ali.

O meu menino fica por cá. Vamos lá a dar-lhe uns miminhos na minha ausência, mas nada de abusos!...


E tu, meu lindo, sabes que vais no meu coração, não é?

~~ pinto ~~

A propósito deste post, chegou hoje o seguinte comentário:
"meuu conta otra vaii.. no pinto nem tem osso sua anta! q montagem pooodre xD"
Tenho pena que o comentário não tenha sido assinado, pois queria agradecer tão esclarecedora missiva. E eu que vivi até agora na profunda ignorância!... Na verdade, já me tinha questionado para onde é que o osso ia quando o pinto ficava pintainho, mas nunca procurei esclarecimento para esta arrebatadora, intimidatória e, até agora, intrigante dúvida.
Anónimo, que enorme dívida tenho para contigo, minha esclarecedora luz! Peço-te que não divulgues pois, se o meu chefe descobre, lá se vão os meus 30 dias de férias, quero dizer, recuperação. Agradeço, pois, humildemente o teu silêncio sobre este segredo, amigo (posso tratar-te assim, não?).

segunda-feira, 5 de maio de 2008

..:: momento musical ::..

Sem tempo para me coçar, deixo aqui o Nuno e a Ana Paula Russo.



aqui mais um vídeo disponível da dupla.

domingo, 4 de maio de 2008

~~ 70 x 7 ~~

Cá em casa coincidem hoje duas comemorações, ambas relacionadas com o que de mais puro existe: o amor. O Dia da Mãe deixou de fazer sentido para mim há oito anos. Na verdade, havia já 30 anos que comemorava não o "Dia da Mãe" mas o "Dia da Mãe que sem o ser sempre o foi". E de tal forma o era/foi (é?) que acredito que continuou a olhar por mim lá do alto. Faz-me bem à alma acreditar que foi dedo dela que pôs um outro anjo na minha vida: o "meu" Paulo. "Meu" porque é nele que penso em cada instante, "meu" porque é em mim que pensa em cada momento. E essa "posse" é toda de amor feita e só por isso sobrevive e cresce. "Um dia farei de ti a pessoa mais feliz do mundo, hoje é o dia", escreves tu. Bom, mas isso também foi ontem e antes de ontem e antes, e antes, e antes, e antes,... e será amanhã, e depois de amanhã, e depois, e depois, e depois, ...
É este Homem capaz de despertar em cada pessoa com quem se cruza o melhor dela, amigo incansável e carinhoso confidente que me enche de orgulho. É poder partilhar com ele algumas lágrimas e muito mais gargalhadas estridentes e saber que a minha vida ganhou novo rumo que me faz olhar prà estrela mais brilhante que há no céu e dizer: "Obrigado, Mãe que sem o ser sempre o foste"! À falta de jeito para a escrita e pràs "acrobacias" informáticas com que me surpreendes, digo-te apenas: "Obrigado, Paulo!"

..:: felizes juntos | part I ::..




[aumenta o volume - tem de ser que a gravação é fraquinha! - e escuta-me]



Poema da Amante


Eu te amo
Antes e depois de todos os acontecimentos,
Na profunda imensidade do vazio
E a cada lágrima dos meus pensamentos.

Eu te amo
Em todos os ventos que cantam,
Em todas as sombras que choram,
Na extensão infinita dos tempos
Até a região onde os silêncios moram.

Eu te amo
Em todas as transformações da vida,
Em todos os caminhos do medo,
Na angústia da vontade perdida
E na dor que se veste em segredo.

Eu te amo
Em tudo que estás presente,
No olhar dos astros que te alcançam
E em tudo que ainda estás ausente.

Eu te amo
Desde a criação das águas,
desde a ideia do fogo
E antes do primeiro riso e da primeira mágoa.

Eu te amo perdidamente
Desde a grande nebulosa
Até depois que o universo cair sobre mim
Suavemente.



Adalgisa Nery [1905-1980]







..:: felizes juntos | part II ::..


Como? Bem, a verdade é que já o somos!


Cinco músicas dos The Hidden Cameras (já os tinha posto aqui, para quem quiser ver/ ouvir alguns vídeos da banda), com destaque para a primeira que inspirou o endereço do blogue.




The man that I am with my man
his warm coals heat toes
A shower cleans the surface and holes
Water, soap and hands
I sit while he stands
over me I can hardly see
that he is peeing on my shoulders and knees
a warm, wet, yellow breeze
He towels my head until dry
And leads me to his bed opened wide
For my penis, nose, fingers and feet
Body worn and set for sleep

Taking out my hand
he lifts me up and we both stand
We could be in the army or the klan
'cause when we're brothers in blood then we are brothers in band

Solid is the rock of my man
Solid is the rock of my man
Solid is the rock of my man

The man that i am with my man
Tamed but feeling no blame
Taking my red wishes in hand
Until my eyes have closed
The man that i am with my man
Pulled, poked and probed
His tongue licks my armpits and chest
Warm, red, salt and wet

Making a cut with a knife on my hand
Then he uses his tongue, licks, swallows and grins
On my knees I do the same to my man
Blood juices loosen me up, in me I feel man in man

Taking out his hand
he lifts me up and pets my head
We could be in the army or the klan
'cause when we're brothers in blood then we are brothers in band

Solid is the rock of my man
Solid is the rock of my man
Solid is the rock of my man

The men, they are men with their men
Raised in an army camp
They spit on my tarnished hands
and pull at my underpants
I'll be the man who I am with my man
Dressed in borrowed clothes

He softens my deep blues with his thighs
The fear of ocean underside

Taking out their hands
they lift me up and we all stand
We may be in the army or the klan
'cause when we're brothers in blood then we are brothers in band

Taking out his hand
he lifts me up and we both stand
We could be in the army or the klan
'cause when we're brothers in blood then we are brothers in band


..:: felizes juntos desde 04|05|2001 ::..

há precisamente 7 anos


Este é o nosso dia. A primeira vez que nos cruzámos foi graças à Joãozinha. Apesar de nessa altura eu andar com o coração ocupado, senti a vibração da sua corda mais funda. Passaram-se uns quatro anos, eu tinha terminado a tempestade há muito e, mesmo depois do Carlos e de fogos fátuos de várias tonalidades, continuava encalhado e com um excesso de franqueza. Um dia de Fevereiro, recebo um email do mais provocador que pode haver. Eu era um anjo azul, tinha 26 anitos, ele tinha um manto qualquer e enganou-me na idade, mentira fácil de perdoar. Não foi uma abordagem nem rápida nem fácil, mas email atrás de email, a troca de telemóveis. Alguma conversa. “Tem de ser hoje, estou à entrada da faculdade”. Patinaste. “Se não for hoje, esquece.” Vinhas a sair das aulas com o grupo fiel da malta.
A entrega continuou a ser difícil. Achei que não ia dar em nada. Não me contaste, por exemplo, da gravidade da situação da tua mana, a fugir daqui. Fiquei à toa quando soube, era dia de Sto António. Depois, lá tivemos aquela conversa e deu-se o clique que faltava. Descobrimos, então, a perfeição. Não foi fácil, reconhecemos. Ao longo destes sete anos, tivemos duas situações periclitantes, além dos arrufos solúveis. Pois, não é fácil lidar comigo todos os dias. Mas, basicamente, entendemo-nos, complementamo-nos, discutimos as coisas ainda que eu ache que não preciso de dizer e tu de partilhar o que te apoquenta. Delicio-me com as tuas histórias, experiências e capacidades escondidas que vou descobrindo a ferros. Detesto a teu excesso de modéstia, como sabes. E sabes ainda como dependo afectiva e emocionalmente de ti. E vice-versa.
De facto, podia não dar em nada, mas tem sido tudo.
Hoje é o nosso “dia inicial inteiro e limpo / Onde emergimos da noite e do silêncio / E livres habitamos a substância do tempo” (Sophia).







quinta-feira, 1 de maio de 2008

..:: palavras que nos salvam ::.. Vinicius de Moraes



Ternura


Eu te peço perdão por te amar de repente
Embora o meu amor seja uma velha canção nos teus ouvidos.
Das horas que passei à sombra dos teus gestos
Bebendo em tua boca o perfume dos sorrisos
Das noites que vivi acalentando
Pela graça indizível dos teus passos eternamente fugindo
Trago a doçura dos que aceitam melancolicamente.
E posso te dizer que o grande afeto que te deixo
Não traz o exaspero das lágrimas nem a fascinação das promessas
Nem as misteriosas palavras dos véus da alma...
É um sossego, uma unção, um transbordamento de carícias
E só te pede que te repouses quieta, muito quieta
E deixes que as mãos cálidas da noite encontrem sem fatalidade o olhar extático da aurora.



VINICIUS DE MORAES [1913-1980]





[para nós, porque faz agora cinco anos que, unidos de facto, partilhamos o mesmo tecto]

..:: máscaras ::..



Há um ano, fomos com a Teresa. Neste terceiro ano contamos regressar para ver, sobretudo, os galegos com as óbvias influências celtas. Vale a pena, acreditem. Observem o vídeo com montagem de fotos e cenas do ano passado (não tem muita qualidade, mas dá para terem uma ideia). E quem quiser juntar-se, levante o braço.

»» um mundo de flores ««



livro de citações

Se pudesse fazer amor com uma palavra, fá-lo-ia com o silêncio. / E se pudesse fazê-lo com mais do que uma, convidaria a solidão, / a tristeza e o cinzento. / Duvido que nos déssemos muito prazer. Suspeito que / acabaríamos a chorar. »» JAIME BAYLY, Foi ontem e já me esqueci

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Talvez as pessoas como nós não possam amar. As pessoas vulgares podem... é esse o seu segredo.»» Hermann Hesse, Siddhartha

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Há livros de que não saímos ilesos, porque a dor dos outros tem raízes que acabam sempre por crescer no nosso peito.»» José Mário Silva, DNA (Maio, 2000)

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Os livros são como as relações com as mulheres: os gajos que estão sempre a contar engates são os que fornicam menos.»» José Cardoso Pires, DNA (Dez. 96)

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São a arte e a pornografia, não a política, que nos mostram a autêntica verdade sobre o sexo.»» Camille Paglia, in Vampes e Vadias

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O coração é o companheiro mais forte.»» Gabriele d'Annunzio

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O horizonte está nos olhos e não na realidade.»» Christopher Fry

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A felicidade não é uma estação na qual chegaremos, mas sim uma forma de viajar. »» Margaret Lee Runbeck

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Ocorreu-me de repente que não é preciso ter ordem para viver. Não há padrão a seguir e nem há o próprio padrão: nasço. »» Clarice Lispector, in Água Viva

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Mantenha-se simples, bom, puro, sério, livre de afectação, amigo da justiça, temente aos deuses, gentil, apaixonado, vigoroso em todas as suas atitudes. Lute para viver como a filosofia gostaria que vivesse. Reverencie os deuses e ajude os homens. A vida é curta. »» Marco Aurélio

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o amor é um desmesurado desejo de amizade, em que o outro é um espelho sem o qual não nos vemos, não existimos, e a única coisa que há para acreditar. é o único contacto que temos com o sagrado. o amor é o que nos resta do sagrado...
»» Mário Cesariny

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Quando se ama profundamente, queremos dissolver-nos no outro, é a tentação do absoluto, do uno. »» António Mega Ferreira »» DNA »» Maio de 98

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Um homem que reprime os seus impulsos naturais para se adaptar a uma sociedade, não só perde a sua força propulsionadora, mas também a sua existência individual, diluídas que foram as suas características únicas. Ele passa a ser um autómato configurado para encaixar numa sociedade pré-definida. »» André Benjamim »» Os Cadernos Secretos de Sébastian »» p. 190

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A luz brilhante do sol empalidece a virgem do céu, como o amor do guerreiro desmaia a face da esposa. »» José de Alencar »» Iracema

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O prazer do texto é o momento em que o meu corpo vai seguir as suas próprias ideias - pois o meu corpo não tem as mesmas ideias que eu. »» Roland Barthes »» O Prazer do Texto

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Um livro é feito de uma árvore. É um conjunto de partes lisas e flexíveis (que ainda se chamam folhas) impressas em caracteres de pigmentação escura. Dá-se uma vista de olhos e ouve-se a voz de outra pessoa - talvez alguém que já tenha morrido há milhares de anos. Através dos milénios o autor está a falar, com clareza e em silêncio, dentro da nossa cabeça, directamente para nós. A escrita foi talvez a maior das invenções humanas, ligando as pessoas, cidadãos de épocas diferentes que nunca se chegaram a conhecer. Os livros quebram as cadeias do tempo, provam que os seres humanos são capazes de exercer magia. »» Carl Sagan »» Cosmos

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Como ficava sozinho comigo próprio, era um estrangeiro para os meus companheiros de albergue. Quem me roubou, cativo, da minha terra e do meu lugar, da companhia dos meus pais que me criaram? »» Fragmento gnóstico

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A noite era rumor de insectos e coaxar de rãs.»» Yukio Mishima »» O Templo Dourado

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Quando uma pessoa descobre que já se passou metade da sua vida sem que tivesse dado por isso, descobre que o mundo vai continuar depois dela, a fluir, como sempre, fora de si. »» Maria Teresa Horta

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Sonho com uma casa (...) que só vive em mim, onde entro, às vezes, para me sentar e esquecer. »» André Lafont

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Two men can defy the world. »» E. M. Forster, Maurice

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El deseo vence al miedo.
»» Mateo Alemán (1547-1613)

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Porque o desejo é uma pergunta cuja resposta ninguém sabe. »» Luis Cernuda, Antologia Poética, p. 27 (tradução de José Bento)

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O sítio de onde saltamos é que nos diz onde vamos aterrar. »» Patricia Grace, Potiki

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No man is an Island, entire of itself; every man is a piece of the Continent, a part of the main; if a clod be washed away by the sea, Europe is the less, as well as if a promontory were, as well as if a manor of thy friends or of thine own were; any man's death diminishes me, because I am involved in Mankind; And therefore never send to know for whom the bell tolls; It tolls for thee. »» John Donne, »Meditation XVII«

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O amor é a palavra mais inesgotável que existe. »» António Ramos Rosa, DNA, Julho de 1998

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Julieta - Dei-te o meu amor antes que tu mo pedisses; e contudo queria tê-lo ainda.
Romeu - Querias tirar-mo? E para quê, meu amor?
Julieta - Só para ser generosa e dar-to outra vez. E contudo eu só desejo o que já tenho: a minha generosidade é tão ilimitada como o mar; e tão profundo como este é também o meu amor: quanto mais te dou, tanto mais me fica, porque uma e outro são infinitos. »» Shakespeare, in Romeu e Julieta

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Estou convencido de que as coisas que nos estimulam e nos motivam no mundo, as coisas que mudam o curso da vida, provêm de duas origens, as únicas coisas em que se pode acreditar. A primeira é o sexo. A outra é a literatura. Usei uma metáfora para reunir os dois. Aqui, o corpo lê-se como um livro, o texto é a carne. É o texto que permite alcançar o êxtase físico. »» Peter Greenaway sobre O Livro de Cabeceira (The Pillow Book)

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Ma vie me prend tout mon temps. »» Pierre Salducci

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Saudade é um pouco como fome. Só passa quando se come a presença. Mas às vezes a saudade é tão profunda que a presença é pouco: quer-se absorver a outra pessoa toda. Essa vontade de um ser o outro para uma unificação inteira é um dos sentimentos mais urgentes que se tem na vida. »» Clarice Lispector

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A ética é estar à altura do que nos acontece. »» Gilles Deleuze