quinta-feira, 21 de agosto de 2008

..:: o padre Amaro para crianças ::..

Será já no sábado, com o Sol, que sairá uma adaptação d'O Crime do Padre Amaro para os mais novos feita por Eduardo Pitta.


«Mas sucedia que, quando eles entravam em pontas de pés e mordendo a respiração, os seus passos, por mais subtis, faziam ranger os velhos degraus da escada. E então a voz da Totó saía da alcova, uma voz rouca e áspera, berrando:
- Passa fora, cão! passa fora, cão!
Amaro tinha um desejo furioso de estrangular a paralítica. Amélia tremia, toda branca.
E a criatura uivava de dentro:
- Lá vão os cães! lá vão os cães!
Eles refugiavam-se no quarto, aferrolhando-se por dentro. Mas aquela voz de um desolamento lúgubre, que lhes parecia vir dos infernos, chegava-lhes ainda, perseguia-os:
- Estão a pegar-se os cães! Estão a pegar-se os cães!
Amélia caía sobre o catre, quase desmaiada de terror. Jurava não voltar àquela casa maldita...»
Eça de Queirós »» O Crime do Padre Amaro

quarta-feira, 20 de agosto de 2008

..:: ᴙɘⱴΐᵴⱦɐṩ █ com’out ::..



Eis que chegou. Fina e segura. Não sabia nada dela até me terem perguntado se sabia alguma coisa da publicação. Da Sara, recebi um lacónico email a informar que tinha saído e pensei ainda bem para ela. Já percebi: se não for a divulgação boca a boca, passar-me-ia completamente ao lado. Falta, pois, divulgação e aposta no marketing. Também espero que o site se possa desenvolver.
Afinal, a Com’Out tem bom ar, limpinha, de primeiro mundo, grafismo relativamente apelativo, e, sobretudo, vem colmatar uma enorme lacuna no mercado de periódicos em português. Quanto ao preço, não me parece nada de mais ou sou eu que estou habituado a comprar revistas caras. Pois que tem pernas para andar e só esperamos que se aguente por muitos anos. Boa caminhada!

terça-feira, 12 de agosto de 2008

automático | dia 7 ..:: palavras ::.. André Murraças7


Se gostei? Não sei muito bem.






CENA 10 – Leopold & Loeb

(Entra um dos rapazes – Ele I.)

Ele I – Nathan e Richard achavam que os seus corpos eram
magníficos. Passavam horas ao espelho a glorificar-se.
Nathan gostava muito do corpo de Richard.
Richard adorava o corpo de Nathan.
Nathan gostava muito das mãos de Richard. Então Richard cortou
uma das suas mãos e deu-a a Nathan.
Richard gostava muito dos braços de Nathan. Então Nathan
cortou com uma faca um dos seus braços e deu-o a Richard.
Richard aproveitou e cortou o outro braço de Nathan e ficou
também com ele.
Nathan gostava muito dos pés de Richard. Então Richard cortou
os dois pés e deu-os a Nathan.
Richard gostava muito dos mamilos de Nathan. Nathan gostava
muito dos mamilos de Richard. Como Nathan não podia cortar
nada porque não tinha mãos nem braços, foi Richard quem
arrancou os mamilos de Nathan e os trocou pelos seus.
Nathan gostava muito dos olhos de Richard. Então Richard
espetou a faca num dos seus olhos, arrancando-o. Depois arrancou
o outro e deu-os a Nathan. Richard obrigou Nathan a comer os
seus olhos. Se gostas tanto deles bem os podes comer, disse.
Richard gostava do pénis de Nathan. Por isso esquartejou-o
completamente até ficar irreconhecível. Richard gostava da pele de
Nathan. Então Nathan deixou-o espetar a faca por todo o seu
peito liso e cobri-lo completamente de sangue. Richard gostava do
corpo de Nathan mesmo depois de morto. Richard pediu que os
seus restos mortais, bem como todas as partes do seu corpo e as de
Nathan, fossem enterrados num jardim. Pouco depois deste
pedido, Richard cortou a sua goela de uma ponta à outra.


André Murraças »» O Espelho do Narciso Gordo »» Lisboa »» 101 Noites »» 2003 »» p. 60

sexta-feira, 8 de agosto de 2008

automático | dia 3. a) ..:: venha mais uma ::..

Três mulheres entram na maternidade, sendo uma delas cigana. Nasce o filho da 1ª, o médico dá-lhe uma palmada no rabo e o bebé desata a chorar.
Com a 2ª mulher, a situação é igual.
Quando nasce o ciganito, em vez de 1, a criança apanha 5 palmadas. No dia seguinte, a cigana indignada pergunta ao médico:
- Sr Doutor, porque é que o Sr. aos outros bebés só deu 1 palmada e o meu levou 5?
- Minha senhora, se ele não me largasse o relógio ainda apanhava mais!

automático | dia 3. b) ..:: corrente d'ar ::..

Devido à velocidade da luz ser superior à do som,
algumas pessoas parecem inteligentes até as ouvirmos.

quinta-feira, 7 de agosto de 2008

automático | dia 2 ..:: estados [des]unidos ::..

Hoje, cito-me num texto descoberto nas arrumações e que se reporta a 2001, a um episódio imediatamente pré-Zé (nem de propósito, esta queda livre).




estados [des]unidos

De mão dada com o seu amor, sobre areia húmida, corre e grita que é seu e que lhe pertence. Agarra-o, abraça-o, beija-o para nunca o perder. Para ter a certeza que está à sua frente, ao seu lado, consigo. Beijam-se tanto, tão prolongadamente contra o tempo. Contra tudo. Contra as ruas cheias de peões apressados e de olhares cerceadores. «Je ne t'aime plus, mon amour, je ne t'aime plus, tout les jours»; «Mon amour, quels yeux tes yeux»... e que corpo, que pescoço, a divina proporcionalidade.
Naquele jantar em que se conheceram, estava tão sozinho quanto o está agora. Não esperava nada, nem mesmo quando ele o incomodou com os seus olhos penetrantes, daqueles que vão directos à alma. O desenlace da noite foi a surpresa absoluta. Conversaram depois de muitos beijos e prolongadas mãos, deslizando por todo o corpo. Uniu-os aquele desejo urgente que, mais tarde, se desvaneceu em lágrimas. Então, descansou e permitiu que as nuvens se adensassem nos seus olhos, cercando-lhe a cabeça e atormentando as mãos trémulas.
Ensinaram-lhe que a vida tinha de ser feita com uma mulher. Desde muito cedo, mas quis que a sua felicidade fosse construída com um homem e violar esta lei deu-lhe tamanha tesão que só sossegou quando o fez. Aconteceu sem esperar. Da mesma maneira, ele apareceu sem pedir. Com ou sem coincidências, cruzaram-se. Viveu graças a isso e explodiu de alegria. Mas, propenso à precipitação, aproveitou o momento para se lançar contra ele. Nele. Provavelmente, de uma forma exagerada e, portanto, trágica e desnecessária.
Atraiu-lhe tudo. Magnetismo natural. Repousou naqueles lábios ardentes, na grandeza das suas mãos e do seu corpo. O seu nome bíblico embalou-o. Ficou nele até que as nuvens se adensaram nos olhos, cercaram completamente a cabeça e atormentaram as mãos trémulas. Aconteceu tudo como um relâmpago, estrondoso e veloz, destruidor. Os sentimentos incontroláveis e a sensação de perda são angustiantes demais para passarem com um copo de água ou com uma sesta. Demorou umas boas semanas a sarar a ferida da sinceridade.
Antes do seu aparecimento tinham passado por si alguns homens, de relações instáveis, com fins impetuosos ou sem importância. O seu aparecimento fora uma bênção. Percebeu que antecipou demais, que colocou o carro à frente dos bois. Já estava habituado à rotina das relações que não funcionam. O problema foi que, com ele, as suas emoções tinham depositado demasiadas expectativas. É difícil aceitar o «pronto, acabou, muito bem, a vida continua».
Fuma mais um cigarro, olha o tecto enrugado. Deseja o fim. Tragam-lhe a noite sem estrelas. Tragam-lhe o vinho que embebeda até ao vómito. Desventrem-no. Aniquilem-no.

terça-feira, 5 de agosto de 2008

..:: explicação possível II ::..



Por norma, gosto de tudo bem explicadinho, límpido como a água directa da nascente. Como me acusou uma professora uma vez, tenho queda para o prolixo, embora às vezes me dê para ser exactamente o oposto. Aconteceu-me isto com a série de acções: nadar | andar | correr | parar | saltar | voar | cair. Experimentei comunicar sem as minhas palavras. Foram sete acções, como as fotografias que escolhi para ilustrar cada uma delas. Não foi uma escolha ingénua, casual. Os vídeos também não: eram ou a antítese ou o prolongamento da acção destacada. Dificilmente, farei alguma coisa ao acaso (o que não quer dizer que jamais aconteça).
Depois, ainda perante o meu vazio de palavras, o poema de Torga foi a melhor explicação que encontrei para encerrar a série e para explicar o abismo do momento. Prometo regressar às séries de 7, sem dúvida o meu número preferido de entre todos.
Diz uma expressão latina: neque semper arcum tendit Apollo. Um dia ainda vos falarei de latim, essa incrível língua morta; por ora, se não conseguirem perceber o sentido da expressão, digo-vos que à letra diz: “Apolo nem sempre (está a) tende(r) o arco”. Pois... sim, já está tudo bem, muito bem connosco. Ao todo, e a outro nível, foi uma semana a arrumar o escritório, a reciclar e a pôr em ordem dossiers e dossiers do passado. Ainda não está tudo no lugar, mas está melhor. E (re)descobri coisas fantásticas que passarei a partilhar nos próximos tempos. Com calma. Textos meus, manuscritos e memórias, citações de outros, textos de ex-alunos, imagens e sobretudo instantâneos que me deliciaram, como o raio-X frontal do meu crânio. Como isto vive de partilha, espero que não sobrevalorizem este meu acto egoísta.
Só mais duas coisas: brevemente, sairemos e os comentários passarão a estar moderados (pelo sim, pelo não). A publicação automática continuará em pleno ritmo.