Eros, como sabem, é só uma das faces do amor - o amor erótico e sensual. As outras faces são o amor como
Agape, o que renuncia ao erotismo e ao sexo, aproximando-se da
caritas cristã, do amor familiar. Há ainda amor como
Philia, também sem conotação sexual, que corresponde à amizade. Finalmente, há o amor como
Anteros, ou o amor contrário (em algumas versões,
Anteros foi gémeo de
Eros), que nunca percebi muito bem o que é.
Como não tenho segredos com o Zé, e sem repto, vou falar de um dos aspectos do amor como
Eros e que tão polémico pode ser. Este é o momento certo. Parto dos textos
do Simão e de um tal max e
deste, sempre baseado na minha experiência pessoal, completando o tríptico iniciado
aqui e que continuou
aqui. Ora, num dos piores momentos da minha curta existência, aprendi que a fidelidade não era o mais importante numa relação. Antes, não pensava da mesma forma. Como bom capricorniano agarrado ao que é seguro e com dificuldades perante a mudança, a minha visão alterar-se-ia para sempre com a chegada do Américo. A fidelidade tornou-se-me um conceito vazio, estéril.
Os motivos? A fidelidade deve ser aos sentimentos, não deve ser à carne. E se o sexo se torna amor? Eu aprendi a amar o Zé por causa do sexo, e daí? A intensidade do sexo não implica amor e o amor é absolutamente distinto e superior a uma queca inconsequente. Mais: o sexo não depende do amor, mas este para se alimentar precisa de sexo.
Considero pois que não sou ciumento. Naquela altura, em 97, até permiti que
entrasses, nunca reclamei vivamente o Esseme só para mim e isso não queria dizer que pretendia sofrer. O que pode ser uma espécie de substituto da fidelidade reside na franqueza, na comunicação, no diálogo que fazem milagres (quando se sabe falar e ouvir, claro). Quando nem isso existe e o amor cambaleia, há que acabar a relação e não acaba o mundo por isso. Tem de haver um mínimo de dignidade.
O sentido de posse, ultrapassei-o há muito: mais gente possessiva e obsessiva, não, por favor! Descomplexifiquem-se, evoluam, assumam, amem, aprendam... Antes de mais: ninguém é dono de ninguém, nem mesmo quando me refiro ao Zé como “o meu homem”; pertenço-lhe porque é a ele que me entrego todos os dias; é a ele que me dirijo com o coração nas mãos e digo «toma, é todo para ti». O sentido de
pertença não pode ter que ver com o de
posse, que se aplica a objectos e não a seres animados. Não há título de propriedade, contrato de casamento ou outra formalidade que segurem uma relação ou salvem a honra. «És meu» não se aplica, de todo. Conversamos sobre isto e muito mais e recordamos que o caminho sempre se faz caminhando. Não há fórmulas milagrosas exportáveis. Cada um deve conhecer-se e conhecer os limites e a importância que lhe dá ou deve dar; achar o seu equilíbrio para seu bem, d@ parceir@ e da relação. Isso é a medula, tudo o resto são adereços (fidelidade incluída).
Em síntese, para mim, o amor não implica fidelidade. O que não suporto é a mentira e a cobardia: cada um tem de assumir as consequências dos seus actos e agir em conformidade. Isto tudo para reconhecer que sou muito monogâmico, que não troco o certo pelo incerto. Mas tanto eu como o Zé somos humanos, temos olhos, corpo, sexo e desejo. Acontece. Pode acontecer e se acontecer não é o fim do mundo. O que me importa e o que valorizo é a lealdade aos sentimentos, isto é, saber que no regresso estamos à espera, ansiosamente, um do outro. A liberdade que o Zé me dá é que me permite confiar nele e a não ter (nem nunca ter tido) a necessidade de fugir, de buscar fora, etc. Além disso, apraz-me sobremaneira constatar um facto muito simples e decisivo: encaixamos bem, muito bem. O ciúme soa-me tão a primitivo e medieval que me faz fugir de pessoas dominadoras, inquisidoras, totalitárias. O Esseme foi assim comigo: exigiu-me exclusividade e explicações. Percebi mais tarde que eu é que tinha todos os motivos para desconfiar, julgar ou exigir fidelidade aos sentimentos. Aprendi a lição: é dos ciumentos e obsessivos que se deve desconfiar mais e fugir a sete pés; sabem o que fazem, olham-se ao espelho e acham que o(s) outro(s) são iguais e reproduzem os seus comportamentos.
Finalmente, vem muito a propósito disto tudo, a canção de
Rita Lee, Roberto de Carvalho e Arnaldo Jabor, que subscrevo integralmente (não fosse a Rita Lee também capricorniana...):