
domingo, 22 de julho de 2007
~~ ausência ~~

..:: memória fotográfica ::.. Óbidos
..:: artista da semana ::.. RON MUECK
Australiano, a viver em Londres, descobri-o não sei onde. Se calhar, em algum email que recebi. Tem um universo que a mim me diz muito, o da solidão humana. Ron Mueck é genro da Paula Rego. O Big Man, de 2000, impressiona.© Ron Mueck



sábado, 21 de julho de 2007
..:: paulo post ou um pouco depois ::.. Monga II
Aviso: segue-se um parêntesis longo.
O Nestum fez parte da minha dieta do tempo de estudante quando ainda calcorreava as montanhas. A minha mãe preparava-o todos os dias, por volta das 6h30m. Foi assim quase sempre durante 5 anos (2º e 3º ciclos). Mas chegou um tempo em que me enjoei de Nestum e a minha mãe começou a fazer-me torradas e outras coisas. O Nestum era mais fácil, claro, e rápido. Depois do Nestum, descia a pé a encosta num percurso de 2 km. Às vezes, caminhava, outras corria até me faltar o fôlego – nos dias em que demorava mais a levantar-me –, quase sempre ainda de noite (ou ao alvorecer). À tarde (melhor, quase à noite), sempre me esperou o mesmo percurso inverso, muito mais difícil, a subir, e cansado do dia. Por causa desse cansaço, aprendi a dormir com a cabeça encostada ao vidro do autocarro escolar a cair de podre, abanando e ruindo por todos os lados, por alcatrão esburacado tipo crateras, com o acréscimo do barulho d@s outr@s menin@s – e, hoje, durmo em qualquer lado. Às vezes, demorava horas a fazer o percurso que de manhã fazia em cerca de 20, 25 minutos. Sem o saber, aprendi nessa altura o que era a solidão. E para me fazer acompanhado, o eu começou a falar comigo. Raramente, tinha companhia e menos ainda boleia. Podia ir por uma estrada alcatroada ou pela de terra batida, que era a minha predilecta. Portanto, foram dias e dias de percursos, quilómetros de completo pensamento comigo mesmo. Era eu e o mato. E isso fez de mim um solitário com dificuldades de comunicar o que sinto, visto que falando comigo, por que fazê-lo com os outros? Além disso, continua a ser-me custoso interagir. Nesses percursos, por vezes, apareciam alguns bichos, nevoeiro, chuva, trovoadas. Mas era tudo natureza pura e eu. Impossível esquecer.
Também poucas pessoas sabem destas coisas muito minhas, pois não têm de levar com o meu passado em cima e não gosto de o usar para me vitimizar/ chamar a atenção, et cætera. Algumas vezes, a minha mãe (ou o meu pai, quase sempre a minha mãe) corria para me ir buscar, sobretudo quando não me tinha prevenido de manhã com chapéu-de-chuva ou estava alguma trovoada impossível. Pequenas coisas de que não me esquecerei porque me borrava de medo (o qual tive de aprender a enganar). Portanto, estes foram uns 5 longos anos, de muitos quilómetros. Foi ainda o período mais longo que vivi com os meus pais (a escola primária fi-la em casa de meus avós, a minha primeira incursão no silêncio e na solidão, e depois segui para Castelo Branco, seguindo-se Lisboa). Isto não se passou assim há tanto tempo, mas faz parte de um outro mundo meu. Não sou especial por causa disto, mas diferente com certeza que sim: poucos terão experimentado o mesmo.
Não voltei a comer Nestum (ou seja, há mais de 15 anos). Um dia, só ao sentir-lhe o cheiro, veio de chofre a memória toda destes tempos: as saudades incomensuráveis, uma mistura de tristeza com alegria (porque era realmente feliz, ignorando-o), acrescentando-lhe a falta de meu pai e a necessidade de sentir também o cheiro da minha mãe. Indescritível. Foi uma ferida nunca sarada que se expôs violentamente. E chorei até esgotar as forças. Tudo por causa daquele cheiro. A cena voltou a repetiu-se, entretanto. Consequência: não vale falar ou oferecerem-me Nestum, ok!
Esta longa introdução vem por causa deste post da Monga, que me fez retroceder no tempo, impelindo-me às lágrimas. Por muita coisa, e porque «Temos alguns mortos de intervalo / a melancolia de quem muito / contemporizou / e saber, dos espelhos, o jogo» (Eduardo Pitta, Poesia Escolhida, p. 91). De facto, a Diana tem razão: temos a ferida dos pais ausentes, mais outro milhão de coisas. Por agora, fico por aqui. Ah, também eu tenho uma caixa cheia das tuas cartas generosas. Obrigado, Monga!
A Fernanda e o Pedro, muito felizes juntos, no dia do seu casamento muito pouco tradicional.
P.S.: Reparem bem nos olhos da Fernanda. São lindos e combinam com o vestido.
sexta-feira, 20 de julho de 2007
..:: falemos então de ::..
Sobre o mesmo assunto, a Duca salientou, e muito bem, o comentário da Ferónica.
Mais, eu decidi fazer o mesmo com o comentário que a minha amiga Fernanda, heterossexual orgulhosa, me deixou hoje. Cá vai:
«Amigo, tudo o que possas dizer a uma pessoa que sobrestima o casamento heterossexual, dito «tradicional» (como eu odeio esta palavra!) não vai servir de grande coisa. Os argumentos são sempre os mesmos: a reprodução, a tradição, a família e merdas que não passam de palavras soltas. O casamento é uma instituição tão diversificada como o resto do mundo - há de tudo, de todas as espécies e feitios. Colocar obstáculos aos gays é obstar a diferença, melhor, é nem sequer querer vê-la.
Como é que ainda existem pessoas no mundo que acham que o casamento é igual para todos, que se funde o cérebro, a gaja une a vida ao seu gajo (e à família do dito), vice-versa, depois filhos (que obviamente NÃO vão ser gays ou a família desmoronava!) e a velhice para depender dos filhos.
Há dias em que me sinto tão feliz por ser diferente, mesmo dentro da «sagrada» instituição do casamento. Amén!»
É por opiniões como estas e por outras que temos tanto orgulho nos nossos amigos (heteros ou homos). Viva a diversidade de cabeças pensantes!
Adenda: A propósito do comentário do Zé a este post, fica este vídeo, já amplamente divulgado, mas que cabe bem no contexto da educação dos filhos.
..:: beijo......3 + palavras que nos salvam ::.. Eugénio de Andrade
25
Cala-te, a luz arde entre os lábios
e o amor não contempla, sempre
o amor procura, tacteia no escuro,
esta perna é tua?, é teu este braço?,
subo por ti de ramo em ramo,
respiro rente à tua boca,
abre-se a alma à língua, morreria
agora se mo pedisses, dorme,
nunca o amor foi fácil, nunca,
também a terra morre.
Eugénio de Andrade, «Matéria Solar», in Poesia (2000), p. 319
..:: publicidade ::..
quinta-feira, 19 de julho de 2007
..:: anda cá, ouve esta ::.. UTE LEMPER
Lili Marleen »»
..:: as cores do dia ::.. Monga
Tratamo-nos por mongos desde não sei quando (há muito tempo, portanto). Esqueci-me de como e quando começou. Mas afastem ideias, pois só a Monga está autorizada a tratar-me assim, além da Frol que foi quem nos apresentou, ainda quando andávamos na licenciatura. É o privilégio de partilharmos tanto. Conheço a Monga desde o tempo em que eu namorava com o S., tendo por isso sabido de alguns dos novelescos episódios que experienciei - a maior parte é para esquecer (e alguns já foram, outros mantêm-se).
Há muito que não epistolamos longamente, mas de vez em quando almoçamos: carpimos mágoas, dizemos mal do estado das coisas, comentamos as pessoas que passam, contamos desgraças próprias e alheias. Hoje não foi muito diferente. Mas acho poder dizer que, apesar do vento, nos separámos mais coloridos.
Tenho tanto para dizer sobre a minha Monga que receio começar. Vou só fazer alguns traços. Primeiro, algumas afinidades. Aqui destaca-se uma: a propensão para a melancolia. Sem motivos explicáveis, ela vem, pega em nós, lança-nos contra o chão e fustiga-nos violentamente. Nem sempre sei reagir, a Monga idem. Trata-se de uma faceta que pouquíssimos me conhecem, porque eu aparento estar sempre bem-disposto e sorridente. É essa a imagem que os outros têm de mim e é essa a minha máscara, confesso, de que a maior parte das vezes nem o Zé se apercebe (e ainda bem). Mais: a Monga foi crescendo cheia daquelas qualidades que a tornam amiga para o resto dos dias.
Divergimos no modo de agir: eu sou mais expansivo (apesar da introversão) e a Monga é mais defensiva. Eu reclamo e ela engole. Eu corro e ela pára. Dou-lhe ordens e tendo a ser bruto e pragmático - eis a minha vertente rural e beirã a manifestar-se. Só ela para me aguentar as birras, ignorar e continuar a gostar de mim. Quando ela começou a namorar com o Pedro, senti que a estava a perder, mas bom mesmo é vê-la feliz. O ano passado fomos os quatro a Barcelona. Reconheço que fui demasiado déspota nas decisões, mas, se na altura soubesse algumas coisas, não teria agido da mesma forma (e o Zé atenua imenso a minha necessidade de mandar).
Avante. Eu continuei a apostar no ensino, ela na investigação. Esteve parada, demorou a aparecer uma resposta, mas a sua opção parece ter valido a pena. Está a menos de um ano de deixar o seu gabinete fechado e pequeno. Sei como vive instável, como se esforça e dedica e como a tratam. Fico feliz por saber que projecta o seu doutoramento no estudo sobre as mulheres, um pouco na continuidade do mestrado. Sinceramente, acho que elas merecem e a Monga sabe o que faz e o que faz é de grande qualidade. Admiro-lhe a constância e a regularidade!
Parabéns, Monga pelo teu trabalho, pelo teu casamento, pelo Pedro, pelas tuas capacidades de escrita (antitesesetransparencias dá um cheirinho, tenho o privilégio de ter lido outros textos teus), pela paciência para me continuares a aturar, et cætera.
..:: pérolas ::..
quarta-feira, 18 de julho de 2007
..:: publicidade ::..
Ricardo Paulouro digire a A23 e esta é a capa do número 0:
2 # Como já devem ter reparado, está a decorrer em Óbidos o Mercado Medieval (termina a 22 de Julho), com a animação sob responsabilidade do Teatro Agita.
terça-feira, 17 de julho de 2007
~~ tempo ~~
Ora aí está um belíssimo dia de Verão! Para que não restem dúvidas, as fotografias foram tiradas no decorrer da minha viagem de comboio para o Porto, ontem, 16 de JULHO de 2007.
..:: as cores do dia ::.. Teresa
Um dia, a Teresa apareceu cabisbaixa, pouco sorridente, e disse-me que estava em baixo. Foi-me difícil acreditar. Ela, que tinha sido para mim um bordão na ausência do Zé, estava agora com o chão a fugir-lhe sob os pés. Já lhe disse como fico angustiado ao vê-la assim. Já lhe ofereci desenhos, palavras, ombros, olhos, ouvidos, beijos, abraços e sei que nada disto é suficiente. Cá está um caso em que gostava de ter a panaceia para lhe colorir os dias e aliviar as horas.
Ultimamente, temos falado muito pouco e sinto a sua falta. Where are you, dear?
..:: quem fala assim ::..
Já agora, ainda, Frederico Lourenço, na sequência de Amar não Acaba (a 20 de Abril 2005).
segunda-feira, 16 de julho de 2007
..:: um dia destes, ainda... ::..
Sei que não vale a pena, mas dói ler estas coisas. Dói, porque quem o escreve não faz ideia do que é o respeito. Já nem falo do respeito pela diferença, diversidade, liberdade. Simplesmente, o respeito pelo outro que vai ao nosso lado na rua, que sobe connosco o elevador, que se encosta ao mesmo balcão, que paga os seus impostos, que sonha com um mundo mais justo e feliz. Sei que não vale a pena, mas custa continuar a ler que sou diferente e que por isso não tenho o direito a aceder às mesmas coisas que um casal hetero tem.
Eis pois algumas pérolas que nos são hoje oferecidas no Público (p. 43, 16 de Julho de 2007), sob a pena inenarrável de Alexandra Teté, defendendo “o casamento e o bem comum”:
(se lhe for difícil ler as citações propositadamente inseridas a preto, passe o cursor por cima do texto)
«O que está em questão é sim outra exigência da equidade (e da justiça): a que recomenda que relações objectivamente desiguais sejam tratadas de modo apropriada e justamente diferenciado, em ordem ao bem comum.»
R.: Deve falar de equidade e de justiça quem sabe o significado de tais vocábulos. Configura, s.f.f.:
s. f.,
igualdade; rectidão;
«Ora, a união homossexual é algo radicalmente diferente do casamento (heterossexual monogâmico). É de outra natureza, de outra espécie. Antropologicamente diverso. Diferente quanto ao seu valor social. Em particular, o casamento é uma instituição singularmente valiosa - e como tal regulado e protegido pelo Estado - como lugar natural da renovação das gerações e da formação do carácter e primeira socialização dos futuros membros da sociedade; e como sinalizador da bondade e riqueza da dualidade sexual sobre que se estrutura a sociedade.»
R.: Devo perceber que o homossexual não é monogâmico? Que outra espécie? E que outra natureza? Não percebo, não continuamos a falar de seres humanos? Qual a minha natureza como homo? Qual é a minha espécie? É que a minha sexualidade não se dissocia do meu eu, ok! E “instituição singularmente valiosa”? Fique sabendo que não quero valores destes, só quero ter os mesmos direitos que os outros têm por a lei lhes permitir estabelecer um contrato. “Dualidade sexual sobre que se estrutura a sociedade”? Bom, vejam-se os casos de Espanha (2005), do Canadá (2005), da Bélgica (2004) ou da Holanda (2001), cujas sociedades ruíram moralmente, cujas gerações perderam a capacidade de se renovar, como lá reina a podridão e a falta de carácter. Todos os dias vemos notícias sobre isso, não é? Deus nos livre dos cegos de espírito!
«O casamento é, portanto, um bem público (em sentido lato), ao contrário de outras formas de união sexual.»
R.: Bem público é investir na educação para que opiniões destas se apaguem. Definitivamente!
«Aliás, se o estatuto jurídico de casamento fosse violentado de forma a albergar as uniões entre pessoas do mesmo sexo, isso significaria a imposição desse conceito bizarro - e profundamente hostil - de "casamento" a todas as outras a quem repugna essa assimilação. Implicaria uma injustiça ou discriminação contra aqueles que reivindicam poder verdadeiramente casar.»
R.: Violentado, sou eu que ainda me atrevo a ler este texto até ao fim. A mim, pessoalmente, repugnam-me as pessoas que cheiram mal. Não me repugna que outros queiram ser felizes.
«A recusa do "casamento" homossexual não é, portanto, uma discriminação ilegítima (que, por exemplo, infrinja o tão invocado art. 13.º da Constituição). Qualquer pessoa tem (igual) direito a casar. Simplesmente, o casamento é, por definição e natureza, uma aliança entre um homem e uma mulher.»
R.: Não é uma discriminação ilegítima defender o casamento homossexual (sem aspas)? Ok, já percebi. Quem é que o definiu? Oh, quão facilmente nos esquecemos da misoginia e do heterossexismo.
«Mesmo nas sociedades em que foi tolerada ou aceite, nunca se concebeu ou pretendeu fazer da homossexualidade uma instituição social dotada de estatuto público equiparável ao casamento. E ninguém é obrigado a casar...»
R.: Repito, vejam-se os casos dos países com casamento civil entre pessoas do mesmo sexo. Eu percebo que estão completamente enganados e vivem na ignorância pura e dura, mas, graças a deus, a Alexandra Teté sabe e resolveu tornar-se arauto da verdade.
«A campanha do lobby gay para a reconceptualização do casamento, de modo a incluir a união homossexual, não tem nada a ver com a igualdade de oportunidades. Visa antes a promoção da conduta homossexual e a desconstrução - não apenas semântica - do casamento e da família, tal como a esmagadora maioria das pessoas (com boas razões) os entende e preza.»
R.: Lobby gay? Este era o momento de humor? Era para eu me rir?
«Todavia, há em Portugal verdadeiros e graves casos de desigualdade, discriminação de facto e exclusão: pessoas com deficiências, jovens em situação de reinserção social, minorias étnicas, desempregados de longa duração, os sem-abrigo (para não falar da discriminação fiscal dos casados relativamente aos solteiros, ou da discriminação laboral das mulheres grávidas).»
R.: Acrescento: os elencados atrás merecem a nossa compaixão, os outros são do demo e devem incendiar-se instantaneamente no fogo dos infernos.
«Não seria melhor aplicar os dinheiros públicos na sensibilização e correcção destas formas de desigualdade de oportunidades, em vez de os investir no marketing da ideologia gay?»
R.: Não e NÃO. Investir na correcção de algumas desigualdades e ignorar outras não é o caminho. A pergunta retórica final fica tão bem. Sei que não exige resposta porque ela já está implícita. E por isso calo-me e cito José Augusto Mourão: «A conclusão poderia ser esta: em tempos de guerra contra a repressão justifica-se que a escrita seja cruz ou espada. Virá um tempo em que tudo desaguará na praia sem fragor, sem publicidade, sem agrura» (in CASCAIS, António Fernando, 2004. Indisciplinar a Teoria: Estudos Gays, Lésbicos e Queer. Lisboa: Fenda, p. 292).
Adenda: Há desenvolvimentos pela mão de Gonçalo Figueiredo Augusto e da Mente Assumida.
..:: rabiscos e garatujas ::.. Denise
Já agora, Denise, hás-de dar uma olhadela ao bicho bravo, que também se ocupa da criação de ficções (mais ou menos autobiográficas).
© 2007 paulo eme, rabiscos (sobre apontamentos) do meu tempo na ESNAdomingo, 15 de julho de 2007
~~ felizes juntos ~~
..:: artista da semana ::.. ANTHONY GAYTON


© Anthony Gayton, Narcissus da série Mythology






