sexta-feira, 26 de outubro de 2007

..:: ‘adeus e até ao meu regresso’ ::..

O título deste post é a frase a que A Professora recorre frequentemente para se despedir, citando os soldados destacados nos colónias. O quadro de Ingres é sugestão d'A Professora e como gosto dos seus gostos, aqui vai:
Jean Auguste Dominique Ingres, Édipo e a Esfinge, 1808 (Louvre)

O que se segue vem na sequência do texto anterior sobre A Professora. Refiro-me aos tópicos que segui para apresentar a dita tese. Leiam e vejam se não é um manifesto. A questão é que fui tão bem acolhido pelo júri (a arguente foi Ana Luísa Amaral) que melhor não podia ter sido possível. Acho que o Zé pode confirmar que teve momentos em que foi quase comovente. Tem-me faltado a força para fazer o edit do texto e tentar a publicação (vou começar nos próximos dias): talvez ajudasse muitos a perceberem que vida e sexualidade são indissociáveis e a valorizarem de outra forma a obra de Eduardo Pitta. Poderia ainda ajudar uns quantos a saírem do armário (digo eu). Eis as notas de apresentação para lerem se tiverem paciência.

*****

É pela música que chego
e vos digo do insubordinado pulsar
de outra vontade.

Eduardo Pitta, Poesia Escolhida, p. 89

Este é o poema que escolhi para primeira epígrafe ao meu trabalho e começo por citá-lo aqui por considerar ser um dos que melhor ilustra a epifania, no sentido literário, de um momento privilegiado de revelação do sujeito.

Passo a falar do tema: inicialmente o meu interesse tinha que ver mais com o corpo, nomeadamente, com a fusão narcísica entre o «corpo escrito» e «texto-corpo» (Manuel de Freitas sobre Al Berto: A Noite dos Espelhos: Modelos e Desvios Culturais na Poesia de Al Berto 1999, 92), nomeadamente, nos pontos em que o sujeito poético ou o narrador demonstram uma relação muito próxima com a “biografia” do autor, com a escrita a assumir um pendor confessional, ou melhor, intimista, no sentido em que reflecte sobre a experiência íntima das coisas. Depois, por atracção, surgiu o tema da sexualidade e comecei a relacionar corpo e sexualidade com a escrita do eu.
Foi nesse percurso, que me deparei com a obra de Eduardo Pitta, que antes não conhecia. Resultou daí uma identificação que motivou que tivesse seleccionado a sua obra em detrimento da de outros autores para desenvolver os temas que referi. Além disso, o facto de Eduardo Pitta falar sobre a questão da sexualidade foi determinante. Apercebi-me que os seus poemas aludiam a um corpo posto a descoberto, revelando-nos a sua intimidade, a sua relação com o outro, com o mundo, os sentimentos, a fusão entre corpo-eu e corpo-outro caminhando até à comunhão física, embora a desilusão fosse sempre muito intensa. Deste modo, a fisicidade do corpo torna-se demasiado óbvia para ser ignorada: é em torno do sujeito e do seu corpo que o mundo gira. O sujeito existe porque sente, porque percepciona e pode percepcionar o outro como objecto. Deste modo, sujeito e objecto são corpos autónomos que caminham para a comunhão. Insere-se aqui a figuração do outro, como objecto e, sobretudo, como objecto do desejo sexual do sujeito.
Com o avançar da leitura e com o conhecimento da obra, apercebi-me que a contenção vocabular era muito importante e que, interligada com o corpo, a vivência da sexualidade era ainda mais significativa. Decidi apostar no problema da sexualidade como emblema do sujeito e na questão do homoerotismo como característica fundamental da obra literária de Eduardo Pitta. Obviamente, essa vivência une-se ao registo intimista, com marcas também autobiográficas: o corpo e o excesso são os motivos que contribuem para a criação de uma nova moral. Existe a relação amorosa, o engate, motivos que em literatura continuam a ser arrojados, mesmo que, graças a uma liberdade conquistada (e/ ou subversiva), se fale cada vez mais abertamente da orientação sexual e se assuma a dimensão física do amor. Falo também de interdito, de ignomínia, de controlo e de fuga.
Para as questões do eu, da sua experiência, de tornar o passado presente, da passagem do tempo, dos exercícios de memória, da disforia e da deceptividade resultantes do regresso ao passado, das distopias, do exílio do eu, da denúncia da Guerra Colonial, etc. – procurei uma vertente metodológica através dos estudos no âmbito da autobiografia e géneros correlatos.
Nos meandros da pesquisa sobre as questões da sexualidade, e na tentativa de conseguir ferramentas que fundamentassem a análise, deparei-me com imensa bibliografia da área dos estudos gay, lésbicos e queer e com a necessidade de tomar decisões, que tentei ir demonstrando quais eram ao longo do trabalho. O resultado, fruto dessa minha estratégia, consiste numa fusão entre teoria e análise, num hibridismo que valoriza e concilia conhecimentos que emanam de diversos campos do saber.
Como afirmei no plano geral, tive de optar por determinados termos em detrimento de outros, tentando conciliar aspectos que considerei positivos em várias teorias, sem, no entanto, as aprofundar devidamente, porque o que me interessava era aplicá-las, ou socorrer-me delas para analisar a poesia e a ficção de Eduardo Pitta, através de um discurso que, ao invés de complicar, tentei que esclarecesse opções teóricas e analisasse, repito, a obra do autor.
Muitas das leituras que fiz não fazem parte da maioria das bibliografias das dissertações consultadas e, aqui, agradeço novamente a oportunidade que a orientadora me deu de poder desenvolver e defender um tema sobre o qual os estudos literários na Universidade portuguesa em geral têm imposto um silêncio tácito. Tratando a literatura sobretudo da experiência e da condição humana, estranho que a sexualidade ainda seja um tema «demasiado perigoso», tomando as palavras de Octavio Paz (A Chama Dupla: 88-89), um interdito ainda maior quando não se trata de facto da sexualidade mainstream.
Constatei também que a vivência da homossexualidade levanta problemas que a heterossexualidade não coloca. Gore Vidal, por exemplo, manifesta grandes reservas quanto à existência de uma identidade homossexual, porque, segundo ele, ninguém pensa na literatura em termos de identidade heterossexual. Impõem-se duas perguntas de José Augusto Mourão: «Para quê uma nova ortodoxia literária, um novo canon? Quem, ao ler um romance em que um casal homem-mulher tem relações sexuais pensa que está a ler um romance heterossexual?» e a respectiva resposta: «A conclusão poderia ser esta: em tempos de guerra contra a repressão justifica-se que a escrita seja cruz ou espada. Virá um tempo em que tudo desaguará na praia sem fragor, sem publicidade, sem agrura» (Mourão, in Cascais, 2004: 292).
Quer tratando-se da sexualidade em geral, quer da homossexualidade, é mais comum falar-se de amor, de amor carnal, de desejo, utilizando conceitos vagos e ambíguos. Um sintoma ou uma consequência desse silêncio tácito, da interiorização inconsciente do interdito, reside no facto de eu próprio ter escolhido um título eufemístico, um tanto barroco – mas tentei que fosse poético – e, como expliquei, que remetesse para a obra de Eduardo Pitta. Todavia, não deixa de ser eufemístico, justamente por reconhecer que um título é uma das principais portas de entrada num texto e, neste sentido, é como se a fechasse.
Mas – e tinha de haver um mas –, o recurso ao código visual, a uma fotografia de Anthony Gayton, mostrando um Narciso que obedece a princípios bastante claros do homoerotismo, estabelece um intervalo, ou seja, uma antítese com o título que escolhi, até porque a fotografia cita Caravaggio, numa longa tradição de representar o corpo (e o corpo homoerótico), abrindo assim uma janela sobre o meu trabalho e espero que acima de tudo sobre a obra de Eduardo Pitta.

14 comentários:

  1. Li o último livro do Eduardo Pitta - Cidade Proibida - e não gostei muito. Demasiado crú no modo como descreve as cenas eróticas, é de propósito que não escrevo homoeróticas. Lá no Livejournal, às vezes, brincamos com o apelido dele, mas isto, somos nós que somos uns morcões manhosos:D De vez em quando há umas discussões acesas sobre se existe ou não uma literatura gay, que normamlmente acaba como começou: cada um a pensar o que já pensava antes da discussão.
    Em contrapartida gosto muito de alguma da poesia de eduardo Pitta.

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  2. Lembrei-me de ter colocado um poema do Eduardo Pitta, há pouco tempo, no LJ.

    http://lili-one.livejournal.com/638432.html

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  3. fiz, há uns dias, um download da tese (mas prometo que compro o livro!), mas sou muito desapetrechado para a ler com a atenção devida e sobretudo para a perceber como ela sem dúvida merece. vou lendo trechos para me ajudarem a perceber melhor a literatura do EP.
    a primeira vez que li que tinha sido feita uma tese de mestrado sobre a obra do EP senti aquela alegria meio despeitada de alguém afinal possuir um tesouro maior do que o nosso. sou leitor do EP desde antes da fama dos blogs e lembro-me até do embaraço que senti quando ele comentou uma entrada do livehournal em que eu (tolo ignorante) dizia que não gostava muito da poesia dele!
    bom, mas a ideia deste comentário era mesmo dizer que fiquei igulamente surpreendido quando descobri que afinal o 'tipo' que escrevia o 'dias felizes' era o autor da tese sobre a obra do EP.
    a blogosfera nacional é, como o país, uma tigela pequenina. o lado bom é que esta sensação de ser menino entre os doutores é tão enriquecedora.

    miguel (innersmile)

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  4. Andamo-nos sempre a cruzar, menino jesus:)

    helena(lili) - bistes já assino como tu e tudo.

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  5. um edit ao comentário anterior para esclarecer que o que quis dizer é que preferia a prosa do EP à poesia, apesar de, na altura, a prosa ser só o Persona (na edição original da AN), os textos da Ler coligidos e o ensaio Fractura.

    miguel

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  6. Lili, eu gosto da escrita de Eduardo Pitta e a crueza nas cenas de que falas não me espanta em nada. Não as li dessa forma.
    Claro que gosto muito da poesia do Eduardo! :)

    O LF é ainda um mundo muito recente ao qual cheguei nem sei como (provavelmente por causa do descontinuado "contas correntes"). Ainda não me apercebi dos comentários em registo morcão :)
    Quanto a literatura gay :)), dava pano para mangas, mas se as pessoas já tiverem um opinião formada (e fundamentada), por mim tudo bem. Nunca quis converter ninguém e não me verás a defende a dama muitas vezes. Para mim existe e pronto. Ponto final. Há semanas atrás escrevi aqui sobre isso e não pretendo fazê-lo novamente.
    Abraços e volta sempre

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  7. Sombra, Miguel, uma tese é um objecto pesado. Magoa, sobretudo se arremessado :))
    O livro... ó, quando será que sairá, se sair...
    Ah, não sei se ficarás a perceber muito mais sobre o Pitta. Às vezes, ando muito no óbvio (ou tv não, não sei), mas se leres e tiveres paciência para dar algum feedback, eu agradeço. Como costumo dizer: não é para ler de fio a pavio.
    Eu acho que conheci o teu blogue, justamente por causa dessa entrada que julgava ter gravado, mas não a encontro e não me consegui desenvencilhar na pesquisa do teu arquivo.
    Ah, pois o gajo é mesmo o mesmo :). Mundo pequeno, este :)
    Abraços

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  8. Lili e Miguel, eu gostava de ter o vosso endereço porque os emails que envio para endereço do LF vêm devolvidos... zeypaulo@gmail.com
    Abraços

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  9. Para quem ainda não leu a tese do Paulo, fica aqui a opinião de uma leitora que gostou muito da dissertação. Um trabalho muito bem escrito, muito bem argumentado e, sobretudo, um trabalho que nos faz crescer intelectualmente. Pelo menos comigo foi assim.

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  10. Denise, faz favor de não me envergonhar, 'tá!?
    E eu que ando com a tua atrelada e não avanço.

    Ah, fico muito feliz por saber que cresceste. Espero que seja um bom sinal.
    Abraços e bom fim-de-semana.

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  11. o 1º cap. da minha está intragável e, por isso, te poupo à tortura da leitura.
    A crescer assim, qq dia estou da tua altura!
    Bom fim-de-semana

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  12. Este comentário foi removido por um administrador do blogue.

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  13. Menina Denise, está a chamar viga, é? Veja lá que ainda come uma passa do Algarve :))

    Olha, os julgamentos virão quando terminar, 'tá?!
    Beijinhos

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